AFP/Efe
AFP/Efe

A alquimia do nosso tempo

Cientista previu o terremoto da Itália, mas a geofísica ainda é mais um reduto de Paracelsos que de Newtons

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 23h37

A história do bombeiro de Pescara que ao vasculhar os escombros de um prédio de Áquila destruído pelo terremoto de segunda-feira deparou com o cadáver da enteada pode ter sido a mais comovente de toda a catástrofe no Abruzzo, mas seu personagem mais fascinante continua sendo o físico Giampaolo Giuliani. Cientista dos Laboratori Nazionali del Gran Sasso, ele cantou a pedra do abalo sísmico e o máximo que conseguiu foi ser ridicularizado publicamente pelo chefe da defesa civil da região.

Tudo bem, ele previra alguns tremores de terra no Abruzzo para fevereiro, chegara a convencer alguns moradores a deixarem suas casas, mas quando suas previsões não se confirmaram, a defesa civil desativou o esquema de mobilização e o geofísico que a chefia, Guido Bertolaso, só faltou processar Giuliani por provocar pânico na população. "Terremoto não pode ser previsto", sentenciou Bertolaso. O do Abruzzo foi. Com margem de erro de quatro ou cinco semanas, mas foi.

Giuliani me lembra os cientistas da tela que antecipam a ocorrência de catástrofes naturais ou invasões de extraterrenos e ninguém os leva a sério, a começar pelos militares, sempre incrédulos, belicosos e fanfarrões. O último foi John Hall, o geofísico interpretado por Dennis Quaid em O Dia Depois de Amanhã. Acharam que ele estava louco por antever o congelamento da Terra como consequência do aquecimento global; não deu outra; mas aí já era tarde demais. Também já era tarde quando, há seis dias, a previsão de Giuliani se concretizou.

O que não significa que Bertolaso estivesse totalmente equivocado. Se astrônomos podem enxergar quase que até o fim do universo e a clonagem de organismos vivos não é mais segredo para os biólogos, detectar quando e onde a terra vai tremer ainda é uma quimera científica. O processo básico do terremoto é conceitualmente simplicíssimo, mas a leitura dos intempestivos humores da crosta terrestre é uma operação das mais elusivas, de que nem os computadores mais avançados conseguem dar conta.

Mas os geofísicos persistem. "Prever terremotos é a alquimia do nosso tempo", disse um representante da classe num debate online organizado pela revista Nature, no final da década passada. Há pelo menos cem anos os alquimistas da sismologia pesquisam o aparentemente inescrutável, a se acreditar no ceticismo da quase totalidade dos especialistas.

Embora tenham dito que Giampaolo Giuliani inventou uma máquina especial para registrar indícios de tremores com razoável antecedência e maior precisão, e graças a ela teria percebido as agitações tectônicas que culminaram com o terremoto no Abruzzo, a geofísica continua sendo mais um reduto de Paracelsos que de Newtons. Aliás, cadê a miraculosa máquina do italiano? Por que ainda não nos mostraram o que seria a maior descoberta da geofísica depois do sismógrafo?

É longo o histórico de abalos sísmicos que afinal deram chabu, impondo outro tipo de estrago aos anunciados alvos de sua fúria. Em 1976, um pesquisador do Departamento de Minas dos Estados Unidos previu que dois enormes tremores, de 9,8 e 8,8 pontos na escala Richter, respectivamente, atingiriam a costa do Peru em agosto de 1981 e maio de 1982, precedidos de um abalo de 7,5 a 8 pontos em junho de 1981. Quando o abalo não se confirmou, o pesquisador pediu desculpas e desconsiderou as outras duas previsões. Àquela altura, o pânico já se instalara de Tacna a Iquitos. O governo peruano fizera sua parte, alertando a população, que só se tranquilizou depois da chegada e dos esclarecimentos de um graduado geólogo americano.

Na mesma década, cientistas japoneses se convenceram de que um grande tremor atingiria em breve a região central do Japão. Bastou-lhes uma estatística: se terremotos costumavam ocorrer naquela parte da ilha em intervalos de 120 anos, mais ou menos, outro estaria em adiantada gestação. Um vasto sistema de emergência foi montado - mas até hoje o terremoto não aconteceu. Já o que arrasou Kobe, em janeiro de 1995, matando 6.434 pessoas, nem sequer sonhado foi. Kobe era considerada uma área de baixo risco sísmico.

Também em 1955, o diretor do departamento de geologia da Universidade do Sul da Califórnia anunciou a ocorrência de um forte abalo na região central do Estado para a primavera ou, no mais tardar, o verão daquele ano, deixando milhões de pessoas em estado de alerta e sem dormir durante quatro meses. O abalo não se efetivou. E todos voltaram a dormir em paz. Ou mais ou menos em paz, pois se algo de concreto sabe a sismologia é que a Califórnia, assim como todas as regiões do planeta onde placas continentais se encontram, não oferece a menor segurança. Ainda é mais seguro viver no Brasil e na Inglaterra do que, por exemplo, na China, Japão, Turquia e Itália.

Por sua geologia complexa, o sul e a parte central da Itália são extremamente vulneráveis a atividades sísmicas e erupções vulcânicas. Só no Abruzzo ocorreram mais quatro grandes terremotos nos últimos 700 anos. As contas, nesse caso, não fecham: há uma distância de 107 anos entre o primeiro e o segundo, de 250 entre o segundo e o terceiro, de 209 entre o terceiro e o quarto e de 94 anos entre o quarto e o de segunda-feira.

No terremoto de 1915, 3.500 dos 5 mil residentes de Pescina, a 40 quilômetros de Áquila, morreram no espaço de 30 segundos. Seu mais ilustre sobrevivente foi o escritor Ignazio Silone, então um adolescente de 14 anos. Sem ninguém para ajudá-lo, tirou com as próprias mãos dos destroços de sua casa o corpo desfigurado da mãe. Ao recordar, anos depois, as traumáticas lembranças daquele dia, Silone escreveu: "Num terremoto, todo mundo morre: ricos e pobres, educados e analfabetos, autoridades e gente do povo. O terremoto concretiza o que palavras e leis prometem e nunca cumprem: a igualdade para todos. Mas é uma igualdade efêmera, pois quando o medo arrefece, a desigualdade e a injustiça voltam a se fazer presentes".

Felizmente naquela época, ainda não havia o Berlusconi.

SEGUNDA, 6 DE ABRIL

Alerta ignorado

O aviso do sismólogo Giampaolo Giuliani sobre um terremoto no Abruzzo, Itália, foi recebido com descrédito. Guido Bertolaso, diretor da defesa civil, disse que é impossível prever um terremoto. Não mudou de opinião. Na 6ª-feira, o número de mortos era 290.

Tudo o que sabemos sobre:
AliásÁquilaterremotoescombros

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.