A alta de Lula

Imagem pós-doença do ex-presidente manterá sua identidade forte com o eleitor?

DAVID FLEISCHER É Ph.D. EM CIÊNCIA POLÍTICA PELA UNIVERSIDADE DA FLÓRIDA, PROFESSOR , EMÉRITO DA UNB, MEMBRO DO CONSELHO DA ONG TRANSPARÊNCIA BRASIL. PUBLICA , SEMANALMENTE O BOLETIM BRAZIL FOCUS , O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h12

DAVID FLEISCHER

Depois de mais uma bateria de exames e testes essa semana, o dr. Roberto Kalil declarou que o ex-presidente estava liberado para, se quiser, "subir em um palanque e ficar 24 horas falando".

Assim, Lula se engajou na campanha de Fernando Haddad, candidato petista à Prefeitura de São Paulo, além de tirar fotos e gravar mensagens para candidatos do PT no interior paulista e em outras cidades - para a campanha no rádio e televisão que começa no dia 21 de agosto.

Pergunta-se: como ficará a imagem de Lula e o potencial de impacto dele nesta campanha que coincide com o julgamento do núcleo político do seu governo no processo do mensalão pelo STF? Seu tão decantado carisma e base social se manterão intactos, ou serão manchados durante esse julgamento? O ex-presidente realmente será um eleitor decisivo para Fernando Haddad? Sua nova imagem pós-doença manterá uma identidade forte, principalmente junto ao eleitor mais pobre na cidade de São Paulo?

Essas dúvidas fazem parte dessa nova "missão impossível" do ex-presidente Lula, em 2012. Vejamos suas missões anteriores. Muita gente (especialmente no PSDB e no então PFL) achou que depois do escândalo do mensalão em 2005 as chances da reeleição de Lula em 2006 seriam remotas. Mas no início de 2006 seus níveis de aprovação nas pesquisas de opinião voltaram a subir de tal modo que apontavam sua eleição em primeiro turno - e quase foi, não fosse a desastrada ação dos chamados "aloprados".

Em 2010, Lula enfrentou outra missão impossível: eleger a sua chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que nunca havia disputado uma eleição, nem para vereador. Mas, com níveis de aprovação em torno de 80% e a economia "bombando" (o PIB de +7,5%), Lula conseguiu eleger a Dilma derrotando José Serra, que ele havia vencido em 2002.

Então, Lula se deu bem nessas duas missões impossíveis, mas eleições municipais são outra história no Brasil. Em 1996, o então presidente Fernando Henrique Cardoso ainda gozava de grande popularidade graças ao Plano Real, que em 1994 garantira sua eleição em primeiro turno. Tudo indicava que ele conseguiria "carregar" a popularidade para eleger o senador José Serra prefeito de São Paulo contra Celso Pitta, o candidato escolhido a dedo por Paulo Maluf. Mas Pitta venceu.

Esse cenário de "missão possível" que não se realiza repetiu-se em 2004. Então, era o presidente Lula quem ostentava bons índices de popularidade após sua eleição em 2002 e apoiou a reeleição da prefeita Marta Suplicy contra José Serra. Tal apoio não foi suficiente e Serra ganhou. Em 2008, a popularidade de Lula estava mais alta ainda depois de sua reeleição em 2006, mas Marta Suplicy foi novamente derrotada pelo substituto de José Serra, Gilberto Kassab (então DEM).

Em 2012, Lula "descartou" Marta como candidata a prefeito e impôs o nome do seu ministro da Educação - o economista Fernando Haddad - que, como Dilma Rousseff em 2010, nunca havia disputado uma eleição. A montagem da coligação de apoio a Haddad foi, no entanto, complicada. O novo PSD de Kassab vacilou, mas acabou apoiando o tucano José Serra, como fez o PTB. Na última hora o PCdoB desistiu do candidato próprio para apoiar Haddad. Depois de ser aceito na coligação do PSDB, o PP (de Maluf) decidiu apoiar Haddad porque os tucanos não aceitaram o PP na coligação proporcional e o PDT decidiu seguir com seu candidato próprio, Paulinho da Força.

Faltando oito semanas para o primeiro turno, Haddad está em terceiro lugar nas pesquisas eleitorais, com 7% das intenções do voto, enquanto José Serra (30%) e Celso Russomanno (26%) estão tecnicamente empatados. Porém, a última pesquisa Datafolha mostrou que 40% dos entrevistados afirmaram que votariam no candidato de Lula, mas a grande maioria ainda não sabe que Haddad é esse candidato. Assim, essa nova missão impossível de Lula em 2012 está bem caracterizada.

Enquanto isso, o julgamento do mensalão prossegue no STF, com a defesa dos 38 réus e sua eventual condenação ou absolvição. Cinco deles, como se sabe, são petistas intimamente ligados a Lula: José Dirceu, chefe da Casa Civil de Lula (2003-2005); José Genoino, presidente nacional do PT (2003-2005); João Paulo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados (2003-2005); e Delúbio Soares, tesoureiro do PT (2003-2005). O quinto, o ex-ministro de Comunicação Social Luiz Gushiken (2003-2005), já foi absolvido. Embora Lula tenha negado ter conhecimento prévio do mensalão e pedido desculpas à população brasileira em agosto de 2005 por essa "falha", é possível que durante o processo sua participação (ou pelo menos o conhecimento prévio) seja confirmada.

Se assim for, a imagem de Lula poderá ser maculada a ponto de seu apoio ao candidato petista Fernando Haddad se tornar contraproducente. Se condenados, as maiores ameaças nesse sentido seriam justamente o publicitário Marcos Valério (que já ameaçou "contar tudo" caso seja prejudicado) e o presidente do PTB, o ex-deputado federal Roberto Jefferson.

Pesquisas de opinião mostram claramente que a população brasileira está mais ligada na tramitação do mensalão no STF do que na Olimpíada de Londres e no primeiro debate ao vivo na TV entre os candidatos a prefeito realizado em 2 de agosto. Essa preferência de audiência do eleitorado deve continuar em agosto e setembro, e possivelmente terá impacto sobre a decisão do voto no primeiro turno. Resta saber se os candidatos adversários do PT (especialmente José Serra) usarão essa munição em sua retórica eleitoral - e se os petistas revidarão lembrando do mensalão do PSDB em Minas Gerais em 1998 e do mensalão do DEM em Brasília (2009-2010).

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