A armadilha da má consciência

Tolerância europeia com imigrantes do Oriente Médio e da África é tentativa mal dosada de apagar colonialismo violento

Hilário Franco Júnior, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2015 | 16h00

Um dos eventos marcantes de 2015 foi, sem dúvida, o enorme e constante afluxo de migrantes do Oriente Médio e da África em direção à Europa. Dura e triste odisseia que não deixou ninguém indiferente, provocando reações emocionais mesmo da parte de quem, em razão do seu poder decisório ou de influenciar a opinião pública, precisaria fazer uma análise mais profunda das origens e implicações da situação. Tarefa ingrata, é verdade, pois deveria obrigatoriamente começar pelo reconhecimento da má consciência europeia em relação aos países de origem daquelas populações, durante décadas colonizados e explorados pelas potências europeias em nome de uma suposta ação civilizadora, “o fardo do homem branco”, como hipocritamente se dizia no século XIX.

Na realidade, a herança ali deixada foi um baixo nível educacional, instituições políticas frágeis e infraestruturas deficientes. De colônias tais países tornaram-se quase sempre ditaduras, até que em anos recentes novos interesses geopolíticos e econômicos levaram os ocidentais a intervirem novamente, em nome de outra versão do “fardo do homem branco”, a implantação da democracia. A consequência foram guerras civis, miséria crescente e o surgimento de grupos terroristas, condições que empurram muita gente para o exílio. Sensibilizados, muitos europeus dispuseram-se a acolher essas populações em nome de valores humanitários, sem maiores considerações econômicas, políticas e civilizacionais.

A França, por exemplo, embora segunda potência da Comunidade Europeia, não pode se dar ao luxo de engrossar o seu contingente de desempregados (perto de 3 milhões), de agravar sua imensa dívida pública (quase 100% do PIB), de ampliar a marginalização social (cerca de 8 milhões de pessoas na linha de pobreza). Que dizer, então, de países menores que devem alojar, transportar, alimentar, medicar, vestir e educar milhares de estrangeiros se não conseguem fazê-lo decentemente para toda uma parcela de seus próprios cidadãos? Se der acesso a 5 milhões de migrantes em 2016, como defendem alguns, o problema seguinte da Europa será como se comportar em relação aos 60 milhões de refugiados que existem hoje no mundo (80% deles ao alcance do território europeu) e que se sentiriam estimulados a seguir parentes e amigos ali instalados. E não se pode argumentar ser uma solução emergencial: dos 20 milhões de pessoas que deixaram seus países em 2014, apenas 100.000 retornaram a eles. Aberta a caixa de Pandora, é difícil gerir os acontecimentos. Mas a Europa com sua cultura do acolhimento, da tolerância, da fraternidade e da solidariedade – que tenta apagar o colonialismo violento, as duas Grandes Guerras, a guerra civil espanhola e o Holocausto – parece querer se responsabilizar pela miséria do mundo.

Como grupos de extrema-direita falam no impacto civilizacional do acolhimento em massa, os democratas adotam o discurso oposto, que mal dissimula a soberba ocidental que imagina poder impor valores pretensamente universais como democracia e direitos humanos, não duvidando, mais uma vez, que irá “civilizar” os recém-chegados. Não é o que se vê em diferentes países europeus, onde segmentos issus de la migration, como se diz na França, apresentam taxas de incivilidade e criminalidade bem maiores que as dos demais grupos sociais. Não por alguma fatalidade étnica, é claro, mas pelo peso das tradições, da religião e de algum ressentimento com o passado ocidental. Um certo discurso insiste que um quarto dos franceses descende de imigrantes, omitindo que estes eram italianos, espanhóis, portugueses, poloneses, europeus portanto, que facilmente se integravam, e que as dificuldades começaram com a maciça imigração magrebina e subsaariana a partir da década de 1970.

A Europa precisa corrigir esta miopia ideológica (seja ela liberal, socialista ou cristã) colocando os óculos da história. É preciso aceitar que algumas vezes uma tolerância mal dosada, por razões políticas ou filosóficas, gera mais adiante uma intolerância muito mais violenta do que aquela que se quis evitar. A má consciência em relação à Alemanha, exageradamente punida após a Primeira Grande Guerra, levou à tolerância com uma série de medidas nazistas até o ponto em que elas não podiam mais continuar, o que desencadeou a Segunda Guerra Mundial. Hoje, mais do que uma “crise migratória” ou uma “crise humanitária”, a Europa está diante de uma crise identitária. Por mexer com o mais profundo de cada indivíduo e de cada povo, ela pode provocar reações incontroláveis. Os generosos de hoje podem virar os monstros de amanhã, pois a espécie humana é Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Se a boa literatura não é feita com boas intenções e bons sentimentos, dizia André Gide, o mesmo podemos afirmar da política. ]

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