A arte do bem-querer

 Toca o telefone. Do outro lado da linha uma voz doce, calma e muito baixinha fala de amor e beleza. É o tom de João Roberto Ripper, repórter-fotográfico que por muitos anos denunciou as imagens feias do mundo, mas que, com o tempo, passou a olhar para os lados ternos da mesma história. Ripper chama suas fotos de “imagens humanas” e dá workshops de “fotografia do bem-querer”. Coloca seu trabalho a serviço dos direitos humanos e mostra a dignidade nos lugares menos prováveis, onde mais foi violada. 

Entrevista com

João Roberto Ripper

Paula Sacchetta, O Estado de S. Paulo

31 Maio 2014 | 16h22

Nas fotos destas páginas há exemplares de um trabalho que Ripper está fazendo sobre o universo feminino e outros sobre mão de obra em situação análoga à escrava em diversas regiões do País. Nascido em 1953, no Rio de Janeiro, ele trabalhou nos jornais Luta Democrática, Diário de Notícias, Última Hora e O Globo e nas agências F4 e Imagens da Terra. Também foi o idealizador do projeto Imagens do Povo, do Observatório de Favelas, na Maré, centro de documentação, pesquisa, formação e inserção de fotógrafos populares no mercado de trabalho. 

Por que você fotografa?

A fotografia é minha vida, minha paixão, é como eu me coloco no mundo, é como eu aprendo. Eu comecei na escola, com um amigo que me ensinou a fotografar. Estávamos no Científico, antes da faculdade, eu devia ter uns 18 anos. E minhas primeiras fotos já são de pessoas. 

Por que imagens humanas e bem-querer?

Com esses dois conceitos eu começo a discutir a quebra da estigmatização. Sempre fotografei muita pauta de denúncia, e até hoje faço isso, mas depois de um tempo comecei a pensar: por que não podem sair coisas boas também desses lugares? Por que isso não é notícia? Por que a beleza não sai dali? Essas populações menos favorecidas financeiramente que eu sempre fotografei têm também muita riqueza, beleza e amor. E o amor e a beleza dão origem a tudo, mas ao mesmo tempo não são mostrados. Nós caímos no erro de repetir sempre a mesma história e, assim, estigmatizamos. A violência de uma mesma história repetida, repetida e repetida acaba transformando seus personagens naquela única verdade. Normalmente se tira a beleza da informação, não se contam as várias histórias, mas uma só. Quando contamos muitos relatos, aproximamos as pessoas. Podemos falar sobre um conflito na favela, por exemplo, a partir da história do pai que está protegendo o filho do tiroteio, mostrando cenas de carinho em meio à barbárie porque aí, sim, quem olhar para aquela imagem vai se sentir identificado. 

Qual a função do fotógrafo, na sua opinião?

A coisa mais gostosa na função de um documentarista é ser um elo de bem-querer entre quem é fotografado e quem vê a foto. Enquanto estou fotografando uma família, uma comunidade, gosto de ficar sempre muito tempo com aquelas pessoas. Eu apareço, digo o que faço, o que pretendo realizar ali e aos poucos vou sendo aceito para captar as coisas com naturalidade. E então consigo extrair a beleza das coisas mais simples. Eu passo a compartilhar daqueles sentimentos todos e vivo tudo com uma intensidade tremenda. Acredito que o nosso trabalho só existe com o outro e por isso tento fazer uma fotografia compartilhada. Mostro as fotos ao fotografado e discuto com ele. Para mim, a frase mais acertada do Cartier-Bresson é “o homem é mais importante do que a foto”. Assim, estou aberto para abrir mão da foto porque ela não é minha. Eu vou vendo as coisas e elas vão me encantando. E talvez mostrar esse encanto seja mesmo o nosso papel. 

Como retratar temas tão duros?

Temos que acreditar e ouvir. Não concordo que uma foto vale mais que mil palavras, nós temos que escutar as histórias também. Às vezes eu vejo uma cena muito triste, de uma pessoa no limite de sua dignidade humana. Mas aí ela me conta de um sonho, sentada na beira da cama, quase cega, com seu marido carvoeiro ao lado: “A gente ainda vai ter a nossa casinha”. Eu fotografo e posso até chorar depois. Mas, se nessa situação eles não perdem o sonho e vivem dessa deliciosa teimosia, eu tenho que retratar isso. E saio de lá com uma esperança incrível. 

Pode contar a história de alguma dessas fotos?

Sim, a da índia no caixão. Eu a conheci alguns dias antes da foto. Ela estava doente, fraquinha, sem conseguir comer e me perguntou “Moço, você que sabe das coisas, me diz o que eu posso fazer pra ter forças para tomar um copo de leite por dia e não morrer?”. Aí eu respondi que ela deveria se alimentar da paixão do marido dela, porque eu nunca tinha visto um homem tão apaixonado por uma mulher como aquele. Uns dias depois ela morreu. No velório, o marido estava ao pé do caixão: era uma foto dura, pesada, muito triste. Fiquei ali calmo, esperando, até que ele fez aquele gesto, se abaixou e se aproximou dela. É como eu digo aos meus alunos: “Dê tempo ao tempo que o tempo se volta a seu favor”. Foi só então que a foto saiu. Eu acredito que nosso viés deva ser sempre o da dignidade, seja na alegria ou na tristeza. A índia guarani foi enterrada em sua rede, com todos seus pertences dentro. E do casal sobrou essa imagem bonita. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.