Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

A ascensão e queda de um editor visceral

Pedro Paulo de Sena Madureira comandou a revolução no mercado de livros mas hoje vive no ostracismo

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2018 | 16h00

É uma história de livros que venderam milhares de exemplares e daqueles publicados para atender o seleto grupo de leitores exigentes. Ao Estado, Pedro Paulo de Sena Madureira, de 71 anos, abre as memórias do tempo em que foi editor da Nova Fronteira (1970 e 1980) e da Siciliano (1990 e 2000), quando liderou a renovação do mercado editorial brasileiro e desfrutou da intimidade de escritores influentes.

Quase um 1,90m de altura e corpulento, o carioca do subúrbio do Engenho Velho mora hoje num apartamento em Higienópolis, repleto de lembranças de amigos célebres. Há fotografias, livros e objetos de Umberto Eco, Severo Sarduy, Gore Vidal, Kundera, Lispector, Marguerite Yourcenar, Barthes, Drummond, Canetti, Julien Green, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Octavio Paz e Carlos Fuentes. Ali vive também o artista Carlos Henrique, companheiro há 41 anos.

O imóvel está penhorado. Pedro Paulo, falido. Tentou suicídio duas vezes, em 2005 e 2010. A depressão começou por conta da derrocada do Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira. Ele tinha atuado na BrasilConnects, empresa montada por Edemar para realizar megaexposições de arte. “Católico fervoroso, tentei me matar. É um drama na minha vida, mas que é meu”, diz. Avisa que agora tem “preguiça” dessa história de se matar, ao estilo de Macunaíma.

Jovens escritores e a elite paulistana o procuram. Seus veredictos são duros. Um colunista chorou ao saber que o que tinha em mãos não era um Grande Sertão: Veredas. Uma celebridade intelectual foi aconselhada a cortar 180 das 400 páginas de um livro.

A mulher no porta-retrato é Maru, que o acompanhou, primeiro como babá, no casarão dos Sena Madureira, depois como secretária. De vez em quando, ela fazia café para Clarice Lispector, no tempo em que o patrão morava no Leme, vizinho da autora de A Cidade Sitiada. Clarice constrangia desafetos da crítica e ia para a feira como se fosse para a ópera. A escritora era “viciada” em Coca-Cola, sorvete Napolitano da Kibon e cigarro Hollywood. “Ela dizia: ‘Um dos grandes dias da humanidade foi a invenção da Coca-Cola família. Não preciso comprar garrafinhas’”, conta. Não se importava com a fama de difícil nem as marcas no corpo de um incêndio no quarto. No taxi, pedia para o motorista desligar o rádio. “Se ele não desligava, pegava a mão deformada e punha, assim, no ombro dele: ‘Vai desligar ou não vai?’ Fazia isso quando não gostava da pessoa.”

A pinha de louça num canto da sala era do muro do casarão dos Sena Madureira, família de militares e políticos. O patriarca do clã foi o general Antonio de Sena Madureira, nome de ruas, herói na Guerra do Paraguai. Quem comandava a residência era a avó paterna, Alice, professora, socialista, de cultura refinada. No bairro, foi amigo de adolescência do mago Paulo Coelho e conheceu o parceiro dele, Raul Seixas. Era na rua Haddock Lobo, perto do Largo do Estácio, que se encontrava com Jorge Ben Jor, Luiz Melodia.

Entre os vizinhos estavam as famílias do diplomata José Guilherme Merquior e do general Euclides Figueiredo, pai do João Baptista, o último general-presidente. O contato mais próximo de Pedro Paulo com um militar que não fosse Sena Madureira ocorreu mais tarde, em 1979, quando se enfurnou por semanas na casa de Hugo Abreu, em Brasília, para ser o ghost writer do general. O Outro Lado do Poder, publicado pela Nova Fronteira, desancou a candidatura vitoriosa de João Batista, filho de Euclides.

Pedro Paulo e o irmão Nelson foram criados por Alice após a separação dos pais. “Minha avó mandava com delicadeza e sutileza, tinha autoridade absoluta”, lembra. Livros e jornais alimentavam as conversas da casa. A avó resistiu à entrada da TV. Era uma infância de sabores. A memória polida pelas leituras dos romances do francês Marcel Proust lembra a mesa de refeições, centro da casa, que não se desfazia. A avó sentava à cabeceira. Ele sentava ao lado. “Eu não queria me levantar da mesa nunca.”

O primeiro autor que leu foi José de Alencar. Aos 13 anos, já tinha lido toda a obra de Machado de Assis e Joaquim Manoel de Macedo. “Eu tinha um cabedal de leitura enorme e as minhas inquietações eram gigantescas, embora não tivesse angústias. Fui sempre afetivamente amparado”, lembra. Uma tia sugeriu que fosse diplomata. Em 1967, entrou para a Faculdade Nacional de Direito. Ficou apenas dois meses no curso.

Na saída do cinema Paissandu, conheceu Leonardo Fróes, poeta e jornalista que tinha acabado de voltar da Europa. Enquanto comiam pizza e tomavam chope numa calçada, Fróes contou que dirigia a Bruguera. A editora espanhola publicava livrinhos de amor e policiais vendidos aos milhares por jornaleiros, além da revistas do Asterix. Pedro Paulo começou na editora, em Bonsucesso, o ofício de dar “canetadas”. 

Aos 20 anos, foi morar com o amigo pianista Breno Marques de Sá. No apartamento, na Lagoa Rodrigo de Freitas, escondiam perseguidos políticos, entre eles o dominicano frei Tito, que se matou depois devido a sequelas da tortura. Nesse tempo veio uma paixão literária. “O evangelho de São João é filosófico, não é narrativo como os demais.” Influenciado pelo evangelho, Pedro Paulo entrou para o mosteiro dos dominicanos, no Rio, depois foi morar com os beneditinos, em Salvador. Ajudava dom Timóteo Amoroso a traduzir para o francês informações sobre torturados pela ditadura que eram divulgados mundo afora por ativistas de direitos humanos. 

Trabalhou com o frade dominicano Bruno Palma nas traduções de O Acaso e a Necessidade, de Jacques Monod, e poemas do francês-antilhano Saint-John Perse. Em 1971, frei Bruno pediu ao filólogo Antônio Houaiss para empregar o jovem na equipe que fazia a enciclopédia Mirador Internacional. Pedro Paulo trabalhou na revisão final dos verbetes. Com a enciclopédia montada, foi trabalhar na Imago, editora do psicanalista Jayme Salomão que publicava Freud. Lá, Pedro Paulo recebeu o telefonema da escritora Clarice Lispector. “Eu preciso de traduções, porque tenho de sobreviver”, pediu a escritora. Em 1975, Clarice traduziu A Rendeira, do francês Pascal Lainé, e Cai o Pano, de Agatha Christie. O segundo livro já saiu pela Nova Fronteira, editora em que Pedro Paulo passou a atuar. A Nova Fronteira era de Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara, que estava afastado do grupo que deu o golpe em 1964. Na frente de Pedro Paulo, Lacerda telefonou para avó socialista do jovem, em viva voz. Pedro Paulo relata o seguinte diálogo: “Alice, estou com seu neto em frente a mim. Eu acabei de contratá-lo. O que você acha?”. “Carlos, você não podia ter feito melhor escolha. Então, Carlos, meus parabéns pra você e meus pêsames para meu neto”.

Pedro Paulo aprendeu com Lacerda que mesa de trabalho não pode ter gaveta. O ex-governador dizia que a gaveta era o cemitério das decisões. A Nova Fronteira foi fundada em 1965. Lacerda só começou a despachar na editora três anos depois, após ter os direitos políticos cassados. Quem ajudava a editora era o banqueiro Carlos Almeida Braga, o Braguinha. 

A primeira aposta de sucesso foi o Dicionário Aurélio, projeto financiado pelo antigo BNDE. Lacerda fez questão de agilizar o pagamento do empréstimo. Por receio, tirou a editora da holding de empresas que possuía, compondo uma sociedade limitada. Com a morte de Lacerda, em 1977, o general Golbery do Couto e Silva foi para cima da holding, endividada, de olho na Nova Fronteira. Sérgio, filho de Carlos, avisou que a editora não integrava a holding. 

O editor também é autor. Escreveu os livros de poemas Devastação, em 1976, pela Imago, e Rumor de Facas, em 1989, pela Companhia das Letras. Depois de catástrofe e brigas, escreve Tenho Medo. Gosta mesmo de falar da Recherche, a obra completa de Marcel Proust. Rebate as críticas às frases longas do escritor, as orações principais interrompidas por subordinadas e, às vezes, retomadas cinco páginas adiante. “É um autor que exige que o leitor não hesite em se entregar à narrativa.”

Pedro Paulo se levanta para mostrar clássicos em papel-bíblia da Gallimard. “Aqui é a (Bibliothèque de la) pléiade, a glória de qualquer escritor. Esse aqui é o Kafka, esse é Proust, comprei quando era menino. Está se desfazendo”, diz. Toda La pléiade está à venda. Ele pôs à venda seus fantasmas. “O bom leitor é um ectoplasma do que está lendo.”

Para sobreviver, o editor teve de vender castiçais da família e monotipias da artista de origem suíça Mira Schendel. “Estou vendendo automóvel para comprar gasolina. Conhece essa expressão? É boa, não é?”, pergunta, como quem encontra uma frase para um personagem. Mostra retratos de santos. “Olha a Santa Terezinha, rica, lavando chão. Eu também lavava chão no mosteiro”, fala. Nem tudo foi sacrifício. Em Paris, os coquetéis depois da feira de Frankfurt eram na casa de Marie-Angel Masson, representante da Nova Fronteira, com garçons e caviar. Em Nova York, alugava um Lincoln preto. “Uma das razões para eu ter sempre acesso a editores, escritores e agentes era que, a exemplo de Carlos Lacerda e Alfredo Machado, da Record, chamava as pessoas para almoçar ou jantar sem restrições.”

Em 1984, Pedro Paulo se entusiasmou com a proposta de criação da editora Salamandra, de Ary de Carvalho, e deixou a Nova Fronteira. “Foi um drama, porque o Sérgio me considerava herança do pai dele.” Carvalho resolveu investir em outros negócios e Pedro Paulo ficou apenas seis meses na Salamandra, mas o suficiente para emplacar o best-seller E por Falar em Amor, de Marina Colasanti. O editor foi trabalhar, então, na Guanabara. Lá, fez um de seus maiores best-sellers, Só é Gordo quem Quer, de João Uchôa Jr., que vendeu mais de um milhão de exemplares.

Ele observa que um editor deve saber escolher dois tipos de livros: os que vão garantir catálogo permanente, que serão reeditados sempre, e as obras que renderão caixa. “Ao mesmo tempo que fiz o Só é Gordo, publiquei o difícil romance Fogo Pálido, de Vladimir Nabokov.”

Num hiato, em 1989, trabalhou como assessor de gabinete de Fernando Moraes, secretário estadual da cultura no governo Orestes Quércia, responsável por sua mudança para São Paulo. Pedro Paulo viveu um novo auge na carreira ao ir para a Siciliano. Na feira de Frankfurt de 1991, convidou Octávio Paz para jantar. O mexicano recebera o Nobel no ano anterior.

Pedro Paulo viveu um novo auge na carreira ao aceitar o convite da Siciliano. Na editora, arrancou mais best-sellers, entre eles A Festa do Bode, de Vargas Llosa, e Hilda Furacão, de Roberto Drummond. Em 2003, resolveu sair e fundar, junto a dois sócios, a Girafa. Foi retirado da editora por conta do episódio do Banco Santos.

O editor avalia que a internet colabora para destruir a graça da conversa, a sutileza do primeiro encontro. Lembra que acompanhou a posse de Marguerite Yourcenar na Academia Francesa, em 1980. Foi apresentado a ela pelo editor Claude Gallimard. “Pego a mão de Yourcenar e digo: ‘Não estou beijando a sua mão, madame, estou beijando a linguagem’. Sabe o que ela respondeu? ‘A linguagem se deixa beijar’. Agora, é raro alguém ter resposta na ponta da língua, presença de espírito.”

Pedro Paulo diz que o livro não é um produto. “Não é uma camisa que você veste, um iogurte que você toma, um automóvel que você compra”, afirma. “O livro garante ao leitor um imaginário exclusivo. A sua Capitu não é a minha, o seu Adriano não é o meu, o seu Leopold Bloom não é o meu.”

Sobre o ofício de editor, diz preferir a revisão à caneta, pois a tela do computador determinaria o raciocínio. “Tudo é ideal na tela. Já uma revisão na caneta é a dor, é a tendinite, o torcicolo, o prazer”, define. E, acrescenta, “também a alegria de dizer que ficou ótimo”. Pedro Paulo afirma que editor não é açougueiro. “Não se trata de fatiar a carne do texto. Pelo contrário, é tirar a pele que o autor não viu. A obra está lá. Um obstetra não inventa a criança”, conclui.

As histórias de Pedro Paulo:

MARLY DE OLIVEIRA (1935-2007)    

Estava na Imago quando Nélida Piñon me ligou. Queria me apresentar o texto de uma poeta que estava fora do Brasil, casada com o diplomata Lauro Moreira. Era a Marly, que tinha acabado de chegar a Brasília. Marly era amiga de Cecília Meireles e Manuel Bandeira, seus padrinhos de casamento. Fiquei deslumbrado com os originais de Contacto. Daí tive a ideia de fazer uma coleção de poesias. Sempre fui festeiro. Em 1975, fizemos uma grande noite de autógrafos para a Marly, porque era a volta dela ao Rio. Foi uma linda noite numa galeria de artes na rua Maria Quitéria, em Ipanema. Carlos Drummond de Andrade foi com a mulher, dona Dolores. Clarice também foi. Imagina.

ADÉLIA PRADO

Na saída do lançamento do livro da Marly, Drummond disse com aquela vozinha dele: ‘Olha, recebi em casa os originais de uma poeta de Minas, que é um fenômeno. Eu queria que você lesse’. No dia seguinte, às 10 da manhã, o pacote estava na Imago. Era o Bagagem, datilografado pelo marido, José de Freitas. Doutor Jayme, dono da Imago, que estava feliz com o sucesso da Marly, quis editar. Liguei para a Adélia, que não acreditou. ‘Mas como isso chegou às mãos do senhor?’ No lançamento, a pessoa menos importante era o Juscelino Kubitschek. O livro é um deslumbre. Eu canetei também, viu? Ajudei a dividir os versos. Ah, meu filho, esgotou. Uma nova poeta surgiu, do tipo que eu nunca mais vi. 

MARGUERITE YOURCENAR (1903-1987)

Publiquei Memórias de Adriano em 1981 na Nova Fronteira. O que ajudou a vender 150 mil livros foi uma novela do Gilberto Braga (Água Viva). Ele botou a Beth Faria para ler o livro na praia, de biquíni. Foi matéria da Veja. Levei a revista para madame Yourcenar. Ela olhou para a foto da Beth e disse: ‘Esta é melhor do que o Adriano’. Era homossexual. Eu falava com os autores, não tinha merchandising. 

LIA LUFT

O Paulo Rónai (1907-1992) apareceu na Nova Fronteira para acertar um livrinho que até hoje faz sucesso - Não perca o seu latim. ‘Pedro Paulo, sou amigo de um filólogo do Rio Grande do Sul que é casado com uma moça que traduz maravilhosamente. O Celso Pedro Luft e a Lya têm três filhos e você sabe como é vida de professor. Ela traduz do alemão e do inglês.’.  A Lya começou a traduzir Virgínia Woolf. Um dia me mandou uns contos pelos Correios. Pelo telefone, eu disse que não gostei. ‘Ah, não gostou?’. ‘Não, Lya, calma. Tem aqui contos que darão um romance extraordinário. A sua imaginação ficcional não cabe no conto. Você é romancista’. Três meses depois ela mandou As Parceiras. O romance foi um sucesso. 

UMBERTO ECO (1932-2016)

Eu frequentava a casa do Haroldo de Campos (1929-2003), na rua Monte Alegre. Um dia o Haroldo me liga: ‘Pedro Paulo, recebi uma carta do Umberto. Ele diz que escreve um romance que se chama O Nome da Rosa’ Ele me deu uma cópia da carta e o telefone do Umberto, que tinha publicado A Obra Aberta e Apocalípticos e Integrados. Ninguém imaginava que aquele teórico da comunicação era romancista. Telefonei para o homem, falando em francês. Em agosto de 1980, nos encontramos em Paris. ‘O romance será seu.’ O Brasil foi o primeiro a publicar a tradução. Contratei Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade para traduzirem.

RACHEL DE QUEIROZ (1910-2003) 

Na Bienal do Livro de 1992, em São Paulo, lancei o Memorial de Maria Moura, da Rachel de Queiroz. Quando Rachel escrevia, eu ia para o apartamento dela, no Leblon, ler. Estava com idade, mas com uma força extraordinária. Foi um prazer para ela escrever o romance.

CLARICE LISPECTOR (1920-1977)

O última jantar social de Clarice foi em casa de Rubem Fonseca. Lá estava o crítico Fausto Cunha. Quando saiu A Paixão Segundo GH, ele disse que Clarice escreveu lindamente o romance, mas como quem jogava pérolas aos porcos. Cheguei com Clarice, que estava com blusa de oncinha. Como sempre, a entrada dela foi triunfal. Falou com o pessoal e dirigiu-se à biblioteca, onde estavam o Marcílio Marques Moreira, a Maria Luiza Penna Moreira e o Fausto Cunha. A Clarice cumprimenta o casal. O Fausto Cunha vem falar com ela – ele era baixinho, batia na cintura dela. Clarice olhou pra mim e disse: ‘Pedro Paulo, quem é Fausto Cunha? Já não morreu? Você sabe, eu nunca tive pérolas legítimas. Essas que eu estou usando hoje, por exemplo, comprei na Casa Sloper, pura bijouteria. Imagine se eu maltrataria porcos jogando pérolas falsas a eles’. Quando eu virei, o Fausto Cunha tinha saído. 

JOÃO UBALDO RIBEIRO (1941-2014)

Ah, o João Ubaldo foi uma beleza. Eu fiz um romance dele chamado Vila Real, deste tamaninho. O livro não fez o sucesso esperado, apesar de já ter publicado Sargento Getúlio. Um belo dia o João Ubaldo chega à editora e vai para minha salinha. ‘Estou com um projeto novo, o romance 'Viva o Povo Brasileiro’'. Eu disse: ‘Mas não me venha com um livro de 120 páginas, que a gente lê na ponte aérea. Não quero livrinho’. Aí ele disse: ‘Mas eu tenho que parar de trabalhar, não tenho renda’. Sérgio Lacerda conseguiu que ele publicasse crônicas semanais em O Globo, o que garantiu a continuidade do livro. O Sebastião Lacerda foi buscar os originais em Itaparica. Depois João Ubaldo apareceu na minha sala. ‘A minha promessa foi cumprida, Pedro Paulo.’

GORE VIDAL (1925-2012)

Depois que Gore Vidal deixou a Itália e voltou a morar nos Estados Unidos, fui almoçar com ele.  Ele disse: ‘Manhattan, Pedro Paulo, é o mundo inteiro, menos os Estados Unidos.’ Na disputa presidencial entre George W. Bush e Al Gore, primo de Gore Vidal, eu perguntei em quem ele iria votar. ‘Pedro Paulo, estúpido por estúpido, eu voto no meu primo porque eu conheço bem.’

ROLAND BARTHES (1915-1980)

O Barthes era gentilíssimo, falava baixinho. Fez o prefácio da edição da Gallimard, de Casa Grande e Senzala, do Gilberto Freyre. Gostava de rapazes, basta você ver Fragmentos de um Discurso Amoroso, que é uma obra-prima, e o Câmara Clara, que editei na Nova Fronteira. 

ELIAS CANETTI (1905-1994)

Assim que o Canetti ganhou o Nobel, eu saí da feira de Frankfurt para encontrá-lo em Londres. Fui correndo negociar seus livros. Ele falava português. Aliás, falava 17 línguas. Era ladino. Falava espanhol, francês, búlgaro, romeno. ‘O senhor tem tradutor para isso?’, perguntou. ‘Tenho. O tradutor do Thomaz Mann, o Herbert Caro, que traduziu A Montanha Mágica’. Canetti acompanhou a tradução. Só depois do primeiro contato com o autor é que entrava o agente literário. Muitas vezes, nem entrava. Não era um negócio ainda, não era uma corporação, as editoras eram independentes.

EDEMAR CID FERREIRA

Em 1993, o Edemar foi indicado para a presidência da Fundação Bienal. Um grande amigo dele e meu, Pedro Corrêa do Lago, sugeriu que eu fosse vice. Eu nunca tinha visto o Edemar. Fizemos um carnaval. Edemar mudou a feição da Fundação Bienal. Aí ele fez o projeto Brasil 500 anos. Desse projeto nasceu a empresa BrasilConnects. Em 2001, foi realizada a exposição 'Brasil: Corpo e Alma' no Guggenheim. Aí o Edemar disparou no mundo. Tudo isso acabou com a débâcle do Banco Santos. Só que o que foi feito na BrasilConnects e na Bienal nunca entrou nos processos do Edemar. A BrasilConnects não tinha acervo, não comprava obras. Eu entrei nessa história porque no último ano e meio de gestão dele no banco ele me pediu para fazer parte da diretoria. Eu assinava sem saber, porque eu não sabia nem o que era uma debênture. Ele me mandava papéis para assinar e eu assinava. Só fui absolvido em 2013. 

CARLOS LACERDA (1914-1977)

Lacerda começou a se dar conta de que nunca mais seria coisa nenhuma na política quando o Juscelino foi cassado. Sem poder político, ele lidava com a Nova Fronteira como se fosse presidente. Não era um homem da política. Dizia: ‘Eu tenho horror de política, gosto é de poder’. Deu-se mal por causa disso. Rompeu com a direita. Ele recomeça com a publicação do livro A Casa do meu avô, que foi saudado por Carlos Drummond de Andrade e por um adversário, Alceu Amoroso Lima. Era a casa em Vassouras de Sebastião Lacerda, seu avô paterno e pai do deputado Maurício Caminha de Lacerda, casado com Olga Werneck, de família comunista. Há quem diga que o trauma na vida de Lacerda foi a separação dos pais, tanto que cortou relações com Maurício. O doutor Carlos foi o maior administrador do Rio. (Pedro Paulo se irrita com a observação que Lacerda tirou favelas da Zona Sul). Sim, querido, ele tirou, mas facilitou o caminho para a praia. Idealizou o túnel que vai para São Conrado, o aterro, a duplicação da Avenida Atlântica e da Vieira Souto, projetos concluídos pelo sucessor e adversário, Negrão de Lima. Quem democratiza a praia é o doutor Carlos. De repente você sai de Madureira, entra no túnel Rebouças e toma banho em frente ao Country Club. No fim da vida, Lacerda tinha três grandes alegrias: a Nova Fronteira, comer bem e beber bem. Gostava de uísque Dimple. Conhece? Aquele que tem a garrafa amassada. Tinha horror de ficar sozinho. Ele gostava de receber na casa dele, na praça Eugênio Jardim. Ia também para o Ninos, na rua Domingos Ferreira, onde tinha mesa. A gente só saía às duas horas da manhã. Ele mandava chamar os amigos. Numa segunda-feira, depois de uma viagem a Petrópolis, o doutor Carlos recebeu para almoço um grupo de conhecidos. Ele suava demais. Voltou para o trabalho. Em torno das cinco e meia, ele foi para casa, com 39 de febre. A dona Letícia me ligou: ‘Pedro Paulo, o Carlos está passando mal. Os lençóis estão encharcados. O Sérgio, não sei onde está. Também não sei onde está o Sebastião. Carlos está chamando você’. Quando cheguei, ele delirava. Isso era oito e meia da noite. Fui buscar o médico dele, o doutor Antonio, em Vila Isabel, com o Paulinho, o motorista. O médico também estava com febre, e receitou como se fosse uma gripe. E nada de ele melhorar. No dia seguinte, na terça, ele não foi trabalhar. Eu liguei para o doutor Antônio, que não podia vir mais. Eu disse: ‘Dona Letícia, a senhora vai me dar licença, vou chamar o meu médico, o Pedro Henrique de Paiva’ - que o Sérgio conhecia. O Pedro Henrique chegou e pôs ele no soro. Disse: ‘Olha, vamos esperar até amanhã’. Na quarta-feira, doutor Carlos foi internado. Morreu de sexta para sábado. Consta uma parada cardíaca brutal. Afirmava-se que, por conta de problemas cardíacos, ele não podia tomar remédios para emagrecimento. Não posso dizer isso (uso de cocaína), embora se comentasse. O temperamento do doutor Carlos era exaltado pela própria natureza.

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