Ryan Pfluger/The New York Times
Ryan Pfluger/The New York Times

A atriz Candice Bergen relembra a vida como parte da 'realeza' de Hollywood

Ex-mulher de Louis Malle e filha de um importante ventriloquista, atriz teve longa carreira na comédia

Maureen Dowd, The New York Times

12 de dezembro de 2020 | 16h00

Até pode haver coisas mais divertidas do que bater papo com Candice Bergen e falar sobre Michael Caine, Sean Connery, Steve McQueen, Jack Nicholson, Princesa Diana, Princesa Grace, John Belushi, Donald Trump e Charles Manson, só engordando, envelhecendo e se enchendo de rugas, sem dar a mínima. Mas não conheço nenhuma.

A mulher que se especializou em interpretar gélidas belezas nórdicas tem uma risada imensa, gutural e espontânea. É uma aventureira que viajou para os lugares mais exóticos do mundo, muitas vezes sozinha com sua câmera. É uma Scheherazade que pode contar histórias espirituosas sobre uma verdadeira vitrine de celebridades.

Ela estava no lendário Baile Preto e Branco de Truman Capote em 1966 no Plaza, usando a máscara de vison branca de Roy Halston Frowick, com longas orelhas de coelho e nariz de cetim cor de rosa, conversando com os recém-casados Mia Farrow e Frank Sinatra. Preciso dizer mais?

“Tinha um cara com capuz de carrasco”, lembra Bergen sobre a festa. “Era meio assustador”. Ela não usa pele e não come carne há 40 anos, mas ainda tem a máscara de coelho em exibição na sua sala de estar em Nova York.

A família Bergen marca a história do show business na América, desde a ascensão de seu pai, Edgar, no vaudeville, no rádio e na TV como ventriloquista – com um boneco elegante chamado Charlie McCarthy – até a carreira de meio século de Candice no cinema e na TV, com cinco Emmys por ‘Murphy Brown’.

Quando ela era jovem, seus pais comiam smorgasbords de Natal em sua casa em Beverly Hills com a nata da velha Hollywood: os Reagan batendo papo; Fred Astaire dançando com sua mãe, Frances; e Rex Harrison cantando canções de ‘My Fair Lady’ acompanhado por Henry Mancini ao piano.

Então, na década de 1970, Bergen se tornou a primeira mulher a apresentar o ‘Saturday Night Live’. Ela fez amizade com Nicholson, Mike Nichols e a multidão de cineastas da moda que inaugurou o que na época era conhecido como Nova Hollywood.

Agora, aos 74 anos, Bergen está arrasando no streaming, estrelando com Meryl Streep e Dianne Wiest o longa ‘Let Them All Talk’, um filme extemporâneo para a HBO Max, dirigido e filmado por Steven Soderbergh com uma câmera portátil a bordo do Queen Mary 2, com passageiros de verdade andando para lá e para cá.

“Os passageiros estavam acima do peso de verdade”, lembra Bergen com um sorriso malicioso. “Eram bons de garfo, num navio incrivelmente elegante”.

Quando começamos nossa entrevista de quase três horas pelo Zoom, ela caminhou com seu iPad até a janela para me mostrar a vista de sua “minúscula” casa em Pacific Palisades, logo acima do oceano.

“A vizinhança é muito reconfortante, porque são só umas casinhas adoráveis”, disse ela. “As casas grandes destoam”. Ela tinha vindo para Los Angeles no Dia de Ação de Graças com seu irmão mais novo, Kris. Geralmente ela pode ser encontrada no apartamento da Quinta Avenida que divide com Marshall Rose, executivo do setor imobiliário e filantropo com quem se casou em 2000. Ele “vem enfrentando seus problemas de saúde com graça e elegância nos últimos anos”, disse. Ela teve a difícil tarefa de cuidar do primeiro marido, Louis Malle, o diretor francês. O casamento durou 15 anos, até que Malle morreu em 1995.

Bruce, meio São Bernardo e meio poodle, ficou o tempo todo ao lado de Bergen. Ela vestia uma camiseta listrada e sapatos feitos de algodão índigo africano pelo Ibu, um grupo online de cooperativas de mulheres de todo o mundo, com designs de seu velho amigo Ali MacGraw.

“Minha vida está bem pequena agora”, disse ela, referindo-se às restrições do coronavírus e aos cuidados com Rose. “Eu não me importo, para falar a verdade. Para alguém na casa dos setenta, não é uma tragédia”. O casal tem jantares tranquilos e assiste a ‘The West Wing’ numa sala vermelha escura repleta de pinturas de cães. “Sou uma pessoa idosa”, disse Bergen, e logo depois, esticando o pescoço para eu ver: “Tenho papada”.

“Queria abraçar esse negócio de ter 74 anos de idade”, disse ela. “Quer dizer, meu cabelo está branco. Minha cor de covid, ao que parece, é o branco. Provavelmente vou deixar minha papada quieta”.

Bergen, que fez uma cirurgia nos olhos durante ‘Murphy Brown’ – “porque eles estavam muito caídos e as pessoas falavam” – continuou: “Eu sei que deveria tomar umas injeções. Tenho linhas profundas ao longo do meu lábio”. Mas “não aguento a dor”.

“Quando vou fazer maquiagem, a maquiadora diz, depois que termina: ‘Agora você está parecida com a Candice Bergen de novo’. Porque, quando começo, é tipo ‘Uh, que acabada’”.

“O elefante na sala”

Bergen sempre foi direta sobre não passar fome ou fazer procedimentos extremos para preservar sua aparência. Em seu segundo livro de memórias, A Fine Romance, publicado em 2015, ela declarou: “Sou muito gulosa. Nenhum carboidrato está seguro comigo – nenhuma gordura também”.

Ela me disse: “Nunca fui boa de dieta”, acrescentando alegremente: “Comi uma torta de abóbora inteira no Dia de Ação de Graças, sozinha na minha cozinha. Sem a crosta, mas com todo o recheio”.

Sua filha, Chloe Malle, escritora e editora colaboradora da Vogue, disse que a falta de vaidade de Bergen era uma extensão de sua atitude não-estou-nem-aí, que pode ser tanto estressante quanto revigorante.

“Ela realmente não se importa e prefere comer de tudo”, disse Malle. “Jantava sorvete e Cheetos. Durante a maior parte da quarentena, passeava com Bruce pelo Central Park, de pijama e o casaco que ela comprou na Amazon, o cabelo espetado para cima, numa vibe meio Edith Bouvier Beale”.

Malle continuou: “Cresci com os pais dos meus amigos dizendo: ‘Oh, meu Deus, eu me lembro de quando sua mãe era jovem, ela era um arraso’. Acho que ela tinha uma grande insegurança em torno do fato de que as pessoas sempre se concentraram nisso. Pode ser um fardo. E há algo de libertador na possibilidade de sua beleza não ser a única coisa em que as pessoas prestam atenção”.

Bergen escreve bastante em suas duas memórias sobre o fenômeno da beleza, criando suas próprias regras de conduta. “Muitas vezes é o elefante na sala e você é o tratador de elefantes”, disse ela.

Ela fala muito bem de seus famosos protagonistas: Caine, McQueen, Connery e especialmente Nicholson. No início da carreira, ela recebeu críticas contundentes. Depois que o filme ‘The Group’ foi lançado, Pauline Kael escreveu sobre Bergen na revista Life: “Como atriz, seu único talento está nas narinas”. Na resenha de ‘The Adventurers’, o New York Times disse que Bergen “se apresenta como se tivesse levado uma pancada na cabeça”.

Mas no ‘SNL’ e no filme de 1979 ‘Encontros e Desencontros’, com Burt Reynolds e Jill Clayburgh, e depois em ‘Murphy Brown’, ela descobriu que tinha um timing cômico, talvez cultivado desde que era criança e participava das esquetes de seu pai com Charlie McCarthy nas férias. Os fãs mais jovens riram de Bergen como uma raivosa ex-rainha da beleza em ‘Miss Simpatia’ e como editora da Vogue em ‘Sex and the City’.

Ela se lembrou de sua primeira vez à frente do ‘SNL’ como uma experiência de “terror puro e destilado”. (Lorne Michaels, um amigo, disse que a expressão em seus olhos naquela noite era “a da Patty Hearst quando o Exército Simbionês de Libertação tocou a campainha”).

Bergen relembrou: “Belushi e Danny Aykroyd, que eram melhores amigos, estavam muito fofos e meio que flertando, como se fossem rapazes com uma mulher mais velha. Foram muito queridos, na verdade. Belushi ainda não tinha começado a ir para a Califórnia para usar drogas. Todos estavam com ciúmes de Lorne e ressentidos com sua autoridade. Sempre ouvi isso dos membros do elenco. Lorne era um milagre. Era simplesmente impressionante as coisas que eles conseguiam realizar”.

É mais difícil para as mulheres bonitas serem engraçadas?

“Acho que os homens não gostam que mulheres bonitas zombem de si mesmas”, disse a atriz. “Eles não gostam que você faça graça. Não gostam que você pareça menos do que uma mulher bonita e digna. Eu percebi isso. Para mim, ser engraçada é a minha alegria. Fazer ‘Murphy’ foi um presente para mim”. Ela ficou muito desapontada quando o reboot não deu certo.

Seu novo filme conta a história de três mulheres que vão para a faculdade juntas, perdem o contato e se reencontram quando Alice, romancista ganhadora do Prêmio Pulitzer interpretada por Streep, convida as outras duas para um cruzeiro a Londres. Acontece que Alice soube de um caso amoroso de Roberta, a personagem de Bergen, o que fez seu marido rico se divorciar dela, levando-a a uma vida inteira vendendo lingerie numa loja de departamentos de luxo – e aí se apropriou dessa história para o enredo de um livro.

Encontros com homens famosos

Streep disse que ficou surpresa quando Bergen, que ela não conhecia antes, ficou meio distante. “Eu pensei: ‘Ela me odeia’”. Mas depois percebeu que Bergen estava usando uma abordagem baseada no “Método”.

Agora, disse ela, “Candy é uma irmã que eu nunca tive”, com traços que são tímidos e espertos e gentis e engraçados, tudo ao mesmo tempo. Além disso, ela disse, tem aquela risada surpreendente, de jogar sua cabeça para trás – que Bergen usou com grande efeito no filme de 1971 ‘Ânsia de Amar’.

Bergen nunca tinha feito improviso. “Na idade dela, ela não precisa fazer nada disso”, disse sua amiga Diane English, criadora de ‘Murphy Brown’. “Ela tem muito respeito pelo roteiro e pela palavra escrita e se esforça muito para acertar. É um grande desafio para ela. Mas ela quer o desafio. É assustador, mas ela encara tudo”.

Fiquei pensando no tema do filme, que fala sobre uma tensa amizade feminina. Bergen escreveu em suas primeiras memórias, Knock Wood, que ela não teve muitas amigas quando era mais jovem e que as mulheres muitas vezes “desconfiavam” dela.

“Com certeza, quando ia para festas, minha tarefa era me desarmar: ‘Não tenho armas. Estou aqui. Venho por amizade’”, ela disse. “Porque as mulheres ficavam na defensiva”.

O relacionamento mais importante de Bergen é com sua filha. “O nascimento da minha filha foi o maior acontecimento da minha vida”, disse.

Algumas pessoas argumentariam, disse Malle, ironicamente, que o cordão umbilical ainda não foi cortado. Bergen criou Chloe quase sozinha em Los Angeles, onde ela morou pelos dez anos de ‘Murphy Brown’. Depois que Louis Malle perdeu o Oscar de melhor filme em língua estrangeira pelo filme ‘Adeus, Meninos’, de 1987, sua aversão a Los Angeles se aprofundou e ele voltou para trabalhar na França.

“Era muito feliz por estar casada com Louis”, disse Bergen. “Ele realmente foi o grande amor da minha vida, e nós nos divertimos muito, mas você é puxada em direções diferentes, e aí você tem uma filha, e ela se torna o grande amor da sua vida, e isso é difícil”. Ela acrescentou: “A distância era muito difícil para o casamento e o equilíbrio de poder estava em questão”, referindo-se à sua crescente fama com ‘Murphy Brown’.

Agora ela está focada em seu neto de 6 meses, Artie. “Ele é só um bolinho”, disse ela. “É a melhor alegria na vida de uma pessoa. Estou muito emocionada. E ansiosa para viver o futuro com Artie”.

Pergunto a Bergen o que ela achou de ‘Era uma vez... em Hollywood’, de Quentin Tarantino, lançado no ano passado.

“A sensação ficou muito próxima da época”, disse ela.

No fim dos anos 1960, ela e seu namorado na época, Terry Melcher, produtor musical e filho de Doris Day, moravam na casa da Cielo Drive, vizinhos de Sharon Tate e Roman Polanski. Já se disse que o motivo pelo qual Manson mirou aquela casa foi porque ele estava com raiva por Melcher não ter lhe dado um contrato de gravação.

“Terry era muito estúpido e foi lá para gravar o grupo de Manson”, disse Bergen. “Ele sabia que o clima estava muito ruim, e uma das pessoas do Manson veio até a porta uma vez quando eu estava na casa. Aí, um dia, Terry só disse: ‘Vamos nos mudar’. Eu perguntei: ‘Quando?’. E ele respondeu: ‘Amanhã’. Fomos para uma casa que sua mãe tinha em Malibu, que depois virou a casa de David Geffen. Mas aí eles tiraram o telescópio da nossa varanda na casa de praia. Era como se Manson estivesse dizendo: ‘Não tentem se esconder de mim’”.

E aquele famoso encontro com Trump, quando ela estava na Universidade da Pensilvânia?

Ele era tímido, quieto e introspectivo, imagino eu...

“Ah, sim! E, na verdade, seu conhecimento de filosofia é muito profundo”, disse ela, rindo. “Fomos, se bem me lembro, a uma churrascaria, mas ele me pegou na escola de limusine, o que era incomum, e era uma limusine cor de vinho, e ele estava usando um terno cor de vinho e botas de couro cor de vinho. Eu só pensei: esse cara consegue combinar bem as cores. Acho que já estava em casa por volta das nove. Lembro que foi uma coisa muito lenta e pesada, como puxar um trenó. Então voltei para casa bem cedo”.

Charlie McCarthy está agora no Smithsonian. Bergen escreveu sobre seu choque quando viu que o testamento de seu pai deixara dinheiro para seu “irmão mais velho e todo-poderoso” – o boneco de ventríloquo – e não para ela. Ela conversava com um psicólogo sobre o relacionamento, que ela chama de a rivalidade entre irmãos mais maluca de todos os tempos, mas disse que o tema era maluco demais até para um terapeuta.

Ela reconciliou seus sentimentos em relação a seu “irmão” de madeira – e também em relação a seu pai, que era um filho amoroso, mas emocionalmente distante, de imigrantes suecos. Ela disse que ainda guarda muita memorabilia de Charlie McCarthy e que sua filha tem brinquedos de corda, saleiros e pimenteiros do famoso boneco.

“Quanto mais velha fico, mais tenho orgulho de ser filha de um ventriloquista”, disse Bergen. “Só acho que é uma coisa bem estranha também”.

Botando palavras na boca dela? Não, só uma rodada de Sim ou Não.


Maureen Dowd: Você teria adorado trabalhar com Alfred Hitchcock.

Candice Bergen: Sim. Eu teria sido uma loira Hitchcock. Almocei com Grace e o Príncipe Rainier na casa de David Niven Jr. no sul da França. David e eu crescemos juntos. Os Rainier vieram almoçar e conversamos sobre várias coisas. Foi fantástico. Ela era adorável. Tempos depois, um entrevistador perguntou: “Quem será a próxima Grace Kelly?”. Ela respondeu: “Talvez seja Candice Bergen”.

Dowd: Você costumava descobrir com quem queria sair só olhando para o tipo de sapato.

Bergen: Se você quisesse se dar bem, sapatos italianos. Qualquer tipo de sapato, na verdade. Mas sem cadarço nem detalhes.

Dowd: Você leu as memórias de Matthew McConaughey duas vezes.

Bergen: Agora você foi longe demais. Não.

Dowd: Você adora ouvir o podcast ‘Call Her Daddy’.

Bergen: Aí é que está. Nunca ouvi podcast porque nem sei como. Sei que tem um aplicativo de podcast em algum lugar, então vou fazer isso. Tenho que encontrar meus fones de ouvido primeiro.

Dowd: Você tem um antigo sofá de James Bond.

Bergen: Sim, do Roger Moore – porque uma vez comprei a casa dele. Está com a minha filha.

Dowd: Você adora piadas, mas tem dificuldade com a lacração.

Bergen: Acho que a gente precisa escolher os assuntos com mais cuidado. É um momento muito delicado.

Dowd: Seu maior arrependimento é ter perdido o famoso jantar dançante de Diana e Charles na Casa Branca de Reagan.

Bergen: Eu estava grávida de Chloe e ela estava duas semanas e meia atrasada. A Sra. Reagan me ligou e disse: “Candy, o que está acontecendo? Adoraríamos que você estivesse lá”. Eu não pude ir. Chloe nasceu no dia anterior.

Dowd: Você sente falta de sentar na cama, assistir alguma bobagem na TV e fumar maconha com Sue Mengers.

Bergen: Bom, é verdade. Era muito divertido.

Dowd: Você gostaria de morrer como os Maasai, que só se deitam na savana como um bufê para os animais.

Bergen: Exatamente. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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