A atrocidade liberada

Linha que nos separa da desumanização total do inimigo foi cruzada pelo EI

Hans Ulrich Gumbrecht, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 16h00

 Com a série de notícias que nos chegam dos diversos fronts militares do Oriente Médio, tornou-se difícil encontrar a cada momento e para cada detalhe o contexto adequado e a perspectiva de avaliação a ser usada e complementada. Mas, agora, as notícias sobre os avanços e derrotas do grupo autodenominado Estado Islâmico (EI) adquiriram, em minha percepção, uma condição distinta de preconceito. Por exemplo, fiquei feliz com a informação divulgada no fim de semana passado de que o grupo havia sido rechaçado, pela primeira vez em meses, pelas forças iraquianas. Como todo mundo nestes dias, procuro em geral ser “justo” em minhas reações aos conflitos no Oriente Médio ou a outros confrontos militares da atualidade. Por que não me permito nenhuma ambiguidade, por que estou sendo explicitamente negativo no que diz respeito ao Estado Islâmico?

A diferença decorre de um acontecimento ocorrido em agosto, que se repetiu na semana passada e elevou a intensidade da minha repulsa a um grau sem precedentes. Eu me refiro à mensagem contida num vídeo que anunciava a exibição da decapitação do jornalista americano James Foley, postado na internet como uma “mensagem para os Estados Unidos” – e que quase imediatamente se tornou inacessível na maior parte dos contextos eletrônicos dos países do Ocidente. A mesma sequência voltou a ocorrer no dia 2 de setembro, com a única diferença do nome da vítima, Steven Sotloff, o segundo jornalista decapitado publicamente pelo Estado Islâmico. 

É preciso destacar que o primeiro vídeo postado acabou não mostrando o momento da decapitação. Ele continha cerca de um minuto e meio de uma situação que presumivelmente antecedeu a morte violenta do jornalista. O que o vídeo mostra mais próximo a uma verdadeira decapitação é o momento em que a pessoa de preto se curva sobre Foley, agarra por trás seu pescoço com os dois braços e encosta a faca à garganta da vítima, embaixo do queixo. Então, há uma assimetria inexplicada entre o que o vídeo anuncia e o que mostra de fato.

Vista de uma perspectiva histórica e, portanto, provavelmente muito ocidental, a cena da decapitação postada pelo Estado Islâmico menospreza o limite de “atrocidade” desenvolvido e estabelecido pelo Iluminismo. O que testemunha de maneira eminente a fixação desse limite, por volta de 1800, é a coleção de gravuras de Francisco de Goya intitulada Desastres de la Guerra, que enfatiza como inaceitável toda dor física infligida ao corpo além das funções puramente estratégicas num conflito militar (nesse sentido, a introdução da guilhotina como um instrumento específico de decapitação criado pela Revolução Francesa pretendia constituir um recurso visando a evitar atrocidades). Mas a cena da “decapitação” de Foley está também distante da “eficiente” industrialização do assassinato institucionalizado pelos nazistas alemães, que não mostravam nenhum interesse particular em levar ao extremo o sofrimento de suas vítimas nem em dar publicidade a suas ações de extermínio (os executores em geral somente tinham permissão para tirar fotografias como “lembrança pessoal”). 

Por outro lado, a intenção do vídeo dessa recente decapitação – e a sua realização – parece ser a busca de um estágio arcaico de cultura sem ambiguidades, um estágio em que um inimigo era apenas um inimigo e não um ser humano; um estágio que antecedeu ou excluiu a ideia de que todos os seres humanos compartilham uma condição inalienável de dignidade (enquanto “seres humanos” ou como “criaturas de um deus” no conceito monoteísta). É um – imaginado – estágio arcaico de cultura pelo qual os últimos séculos medievais de cultura cristã também experimentaram certo anseio.

Entretanto, desde o final do século 18 tem sido viva a esperança, personificada nas instituições “humanitárias”, de que, um dia, os seres humanos considerarão unanimemente como uma necessidade a proteção de uma dignidade básica e da complexidade de todos os seres pertencentes à própria espécie, com uma plenitude de consequências geralmente benéficas delas decorrentes. Mas as realidades de nossa história recente não convergiram nessa necessidade. Ao contrário, as interações humanas e o tratamento mútuo apresentaram-se como um vasto campo de negociação e casualidade precárias, entre os polos do “necessário” e do “impossível”, que se encontra entre alguns direitos mínimos concedidos até aos piores inimigos e certas atrocidades excluídas até mesmo no caso deles. Embora os nazistas alemães tenham tomado várias medidas administrativas para excluir judeus, homossexuais e alguns outros grupos sociais do que consideravam a espécie humana, o fato de terem hesitado em divulgar a industrialização da matança pode ter sido um sintoma da dificuldade, mesmo para eles, de ultrapassar o limite da atrocidade, retrocedendo para um estado antropológico e histórico anterior. E talvez até a diferença entre o que o vídeo do Estado Islâmico anunciou e a que, de fato, mostrou, juntamente com a vontade de fazer com que a vítima falasse em favor dos executores, é sintomática de uma hesitação semelhante.

Mas nada, absolutamente nada, inspira alguma esperança nesse caso. Ao contrário, e talvez por causa da globalização cultural e da descentralização da interação humana na internet, esses polos do absolutamente necessário e do absolutamente impossível que estabeleciam limites ao tratamento atroz de seres humanos agora parecem dissolver-se. O excesso de torturas físicas já não pode ser considerado impossível em setembro de 2014, enquanto a proteção contra esse excesso já não parece absolutamente “necessária”. O limite que nos leva de volta à atrocidade e a uma visão desumanizada do inimigo foi eficazmente ultrapassado – bloquear o acesso visual a tal evidência é apenas uma última e frágil tentativa de resistência e de protesto. Afinal, o Estado Islâmico já anunciou que a série de decapitações públicas não acabará com Steve Sotloff. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

HANS ULRICH GUMBRECHT É PROFESSOR DE LITERATURA NA UNIVERSIDADE STANFORD E AUTOR DE <CF686>ELOGIO DA BELEZA ATLÉTICA (COMPANHIA DAS LETRAS)

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