A ausente presença do comandante

Para Anthony de Palma, autor de 'O Homem que Inventou Fidel', líder é uma sombra do homem que foi

Flávia Tavares e Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2007 | 00h06

No dia 26 de julho de 1953, Fidel Castro, seu irmão Raúl e 160 rebeldes atacaram Moncada, o segundo maior quartel militar do governo Fulgencio Batista, dando início à Revolução Cubana. Em 2007, pela primeira vez, Fidel não esteve presente nas festas de comemoração do 54º aniversário deste feito histórico. Como não participou da grande celebração de seus 80 anos, em 13 de agosto do ano passado. Na última terça-feira, dia 31, fez um ano que el comandante passou o governo de Cuba para o irmão mais novo e não aparece em público. É raro na tevê.    Veja também:  Poemas de prisioneiros de Guantánamo são gritos de alerta Para Fidel, "tudo vai bem em Cuba" sob o comando do irmão, Raúl. Disse, em um de seus recentes artigos no principal jornal da ilha, o Granma, que é consultado a respeito de todas as questões importantes do país, mas que ainda não tem previsão para retornar. "A velha guarda está tensa", arrisca o jornalista Anthony DePalma, entrevistado pelo Aliás. "Enquanto Fidel estiver vivo, ela não permitirá que Raúl faça mudanças grandes demais. Até lá, Raúl tem a difícil missão de preservar o legado do irmão ao mesmo tempo em que terá de desmontá-lo."   DePalma nasceu em New Jersey e é casado com Miriam, cubana que deixou o país natal há mais de 40 anos. Repórter do jornal americano The New York Times, foi chefe das sucursais do diário no México e no Canadá, e é autor de O homem que inventou Fidel (Companhia das Letras). No livro, conta a história de Herbert Matthews, primeiro repórter a entrevistar Fidel nas montanhas da Sierra Maestra. Seu impressionado testemunho do grupo guerrilheiro, publicado no próprio Times, lançou a mística dos revolucionários barbudos e o mito de Fidel.Hoje, enquanto Raúl governa o país com autoridade parcial, DePalma vê um Fidel que decidiu se dedicar à atividade de colunista do Granma. "Ele é uma sombra do homem que foi", diz. Nos EUA, seus velhos oposicionistas também já não têm a mesma força. "Os cubano-americanos de agora são de uma nova geração. Não reagem de forma visceral, como faziam seus pais."Esta semana, o presidente dos EUA, George W. Bush, comentou que tem esperanças de que um dia "o Bom Senhor levará Fidel". Neste dia, para Anthony DePalma, a maior influência em Cuba não será de nenhum cubano. Será de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, novo provedor da ilha e herdeiro legítimo do discurso antiimperialista do comandante.Esperava-se que Fidel Castro comparecesse às celebrações do ataque ao Quartel de Moncada, mas ele não apareceu. O que essa ausência significa para o povo cubano?A última aparição pública de Fidel foi na comemoração do 26 de julho do ano passado. É significativo que ele tenha faltado na cerimônia da data mais importante da Revolução Cubana. Sua ausência diz muito sobre a situação do país hoje. A longa recuperação de Fidel forçou Cuba a um período de convalescença, durante o qual o país não só não melhorou como sofreu uma leve piora. Raúl Castro não pode assumir o poder completamente enquanto Fidel estiver vivo, portanto, não pode realizar nenhuma mudança profunda que tenha em mente - se é que tem alguma. A velha guarda, ligada a Fidel, teme mudanças e não aceitaria facilmente se Raúl se tornasse mais agressivo enquanto seu irmão está vivo. Na verdade, enquanto há, no momento, dois líderes máximos em Cuba, não há ninguém efetivamente no comando. O que tem poder é o sistema que os irmãos Castro construíram. Este, sim, precisa de profundos reparos.Já é possível avaliar o que seria Cuba sem Fidel?Nos últimos meses, Fidel assumiu um novo papel. O jornal oficial do Partido Comunista, Granma, tem publicado artigos com a assinatura do líder como se ele fosse um oráculo de Delfos. Nesses textos desconexos, que ocupam as manchetes, Castro faz reflexões sobre atualidades, a revolução e, quando pode, ataca os EUA. Às vezes, ele escreve sobre assuntos inusitados, os quais não domina. Recentemente, fez publicar um texto violento contra a intenção do governo americano de aumentar a produção de etanol, alegando que isso aumentaria o preço do milho e colocaria em perigo o fornecimento de alimentos no mundo todo. De certa forma, isso representa a maneira como ele governava Cuba, metendo-se nas minúcias de uma vasta gama de assuntos sobre os quais não tem conhecimento. Ele é uma sombra do homem que foi, não está mais no controle. Não quer dizer que seja ignorado. Em seus momentos de clareza de raciocínio, Fidel provavelmente é consultado sobre questões importantes. Mas sua ausência continuada pode indicar que esses momentos de lucidez não são mais tão freqüentes.O senhor está sugerindo que Fidel Castro não está lúcido? Há algum dado que confirme isso?Sim. Um exemplo é a aparição de Fidel em vídeo divulgado em outubro do ano passado. Naquele momento, havia rumores de que ele havia morrido. A televisão cubana, então, mostrou um vídeo curto em que Fidel anda vagarosamente em um corredor e entra num elevador. Se a intenção era garantir que Fidel estava vivo, conseguiram. Mas ele parecia um zumbi. Nenhum de seus consultores políticos teria recomendado a exibição dessas imagens, o tiro sairia pela culatra. O fato de que vieram a público sugere que foi ordem direta de Fidel, e isso torna sua saúde mental questionável.Quando Fidel Castro morrer, o acordo de Sierra Maestra, de que o sucessor de Fidel seria seu irmão, vai prevalecer? Ou poderia assumir o poder um triunvirato formado por Ricardo Alarcón (presidente da Assembléia Nacional do Poder Popular), Carlos Lage (ministro da Economia) e Felipe Pérez Roque (ministro das Relações Exteriores)?A coisa mais previsível sobre Cuba é o quão imprevisível Cuba é. Isto posto, creio que Raúl permanecerá numa posição de liderança após a morte de Fidel, ao menos para o público. Mais da metade da população cubana só viveu sob o comando de Fidel Castro e o sentimento do povo por ele - apesar das dificuldades econômicas e da repressão política - ainda é muito intenso. A população ficará chocada quando seu líder morrer. A presença de Raúl ajudará nessa transição, porque ele faz uma conexão tangível com Fidel e os tempos gloriosos da revolução. Porém, há um fator a ser observado. A lei americana Helms-Burton proíbe Washington de negociar com qualquer um dos irmãos Castro. Para que Raúl abra diálogo com os EUA, o que ele tem insinuado pretender fazer, talvez seja necessário que ele se retire do governo e seja substituído por alguém como Carlos Lage.A delegação que veio aos Jogos Pan-Americanos recebeu ordens de voltar mais cedo a Cuba. Havia medo de deserção em massa?Eu não tiraria muitas conclusões desse episódio. Nos Jogos Pan-Americanos do Canadá, em 1999, mais de uma dúzia de atletas cubanos desertou. É possível que oficiais cubanos tenham ouvido rumores de uma possível debandada no Rio e, como alguns já haviam desertado, o governo optou por convocar a delegação de volta para evitar um constrangimento internacional.Como é ser jovem em Cuba hoje?Durante minha última visita, em janeiro, tive a chance de conversar com muitos jovens. Suas reações eram bem variadas. Muitos estão desesperados para sair do país. Alguns, mais realistas, se resignaram a ter uma vida simplória. Há pouca ambição e nenhum espaço para sonhos pessoais.Não há uma juventude pró-Fidel?Há, sim. Tive a chance de entrevistar um jovem soldado que fazia a guarda do iate Granma no Palácio da Revolução, em Havana. Tinha 24 anos e me disse que estava pronto para morrer defendendo Cuba e a revolução, se os EUA tentassem se aproveitar da fraqueza de Fidel para fazer uma ofensiva militar. Ele ainda afirmou que não estava sozinho nessa disposição e que, para muitos cubanos, especialmente militares e em comunidades rurais que agora têm eletricidade, escolas, água encanada e telefone, Fidel é um deus. Quantos cubanos pensam assim não sabemos. Mas é importante que os militares sejam fiéis. Raúl Castro esteve no comando das Forças Armadas por mais de 45 anos, sem nenhum sinal de que pudesse haver um golpe contra o regime. Se conseguir manter essa lealdade depois que Fidel morrer, Raúl poderá evitar qualquer levante contra ele.Em seu livro, O Homem que Inventou Fidel, o senhor mostra como a mídia americana influenciou de forma determinante a Revolução Cubana. Ela ainda tem esse poder de impactar o destino de Cuba?A imagem de Cuba que é apresentada aos americanos pela mídia dos EUA é freqüentemente incompleta ou imperfeita, em grande medida porque o regime cubano não permite que jornalistas americanos tenham acesso livre ao país. Eles se recusam a dar vistos para veículos considerados hostis e, quando os concedem, fazem isso somente se a cobertura não for agressiva. Assim, a escolha para a mídia americana acaba sendo até que ponto pode se fazer uma cobertura honesta de Cuba sem que se perca a permissão para entrar lá, o que é um paralelo à situação que eu descrevi no meu livro.Qual o impacto que as eleições presidenciais dos EUA terão em Cuba? Raúl Castro deixou claro que, se houver qualquer alteração nas relações Cuba-EUA, isso só acontecerá depois que George W. Bush deixar a Casa Branca. E a administração Bush também já declarou que não negociará com Cuba "se um tirano substituir o outro". Então, ambos os países dependem muito do resultado das próximas eleições. Há uma crença dos dois lados de que um presidente e um Congresso democratas teriam mais predisposição a resolver essa tensão de forma pacífica. Haverá um momento em que um presidente americano poderá ignorar o movimento anti-Castrista, na Flórida? Houve uma mudança de gerações. A maioria dos cubano-americanos hoje nunca morou em Cuba e não tem uma memória real do que é viver sob o governo de Fidel Castro. Eles conhecem a história que seus pais lhes contaram sobre a revolução, mas não reagem visceralmente a Fidel, como os mais velhos fizeram. A Flórida tem um papel importante, até chave, para qualquer candidato à Presidência. Republicanos e democratas tendem a agradar mais o lado militante dos cubano-americanos durante a campanha. Porém, pesquisas recentes mostram que a maioria dos cubano-americanos gostaria de ver a situação entre os dois países normalizada. Embora os métodos usados nessas pesquisas possam ser questionados, não há dúvidas de que há menos radicalismo do que antes.Raúl Castro tem dito que estaria aberto a negociar com os EUA após Bush. Os EUA aceitariam?Bom, a lei Helms-Burton impediria essa conversa direta com Raúl. Mas há soluções para esse impasse - ou Raúl deixaria a posição de líder máximo de Cuba ou o Congresso americano votaria a anulação dessa lei. Além disso, o embargo econômico que vigora há mais de 45 anos tem se enfraquecido e poderia perder ainda mais força no futuro, abrindo o mercado cubano para os produtores americanos, antes que ele seja totalmente dominado pelos chineses.Como estão as relações entre Cuba e China?Os chineses estão ativos na ilha. Não são apenas panelas e bicicletas que os chineses vendem aos cubanos. Pelo contrário, equipes de engenheiros chineses se hospedam nos grandes hotéis de Havana durante sua estadia no país para o desenvolvimento de projetos de alta tecnologia. Para Cuba, essa é uma forma de driblar o embargo americano. Para os chineses, essa é uma maneira de estabelecer um pólo de produção próximo ao mercado americano. Raúl Castro e outros líderes cubanos vêem o modelo chinês (sistema político fechado com economia aberta) como uma forma possível de preservar a essência da Revolução Cubana.Nos últimos anos, a atividade na base de Guantánamo se intensificou com a prisão para terroristas construída pelos EUA. Como essa questão pode afetar as conversas entre os dois países?Fidel Castro tem se mantido surpreendentemente silencioso sobre Guantánamo. A questão da presença americana tem raízes tão profundas que é improvável que isso se torne um obstáculo insuperável. Muitos outros temas, como a abertura democrática e a libertação de prisioneiros políticos, devem ganhar importância. Não quer dizer que Cuba não se importe com Guantánamo, mas esse é um problema tão antigo que não entra na lista de prioridades de discussão. Também é muito desconfortável para Cuba o fato de que a presença americana em Guantánamo esteja baseada em acordo de 1903, entre os dois países. A posição dos EUA é a de que esse acordo ainda é válido e, por isso, eles pagam um aluguel anualmente. Castro se recusa a depositar o cheque, alegando que o contrato é inválido. Há ainda uma situação delicada naquele pedaço da ilha: cubanos atravessam a "fronteira" todos os dias para trabalhar na base militar americana.Enquanto Raúl dá sinais de querer dialogar com os EUA, Fidel escreve artigos em que ataca os americanos. Por que usam essa estratégia? É algo ensaiado?Simples: a tarefa mais importante e mais difícil de Raúl será preservar o legado de seu irmão enquanto destrói esse mesmo legado. Ele precisará do carisma de Fidel, sua imagem heróica e seu apelo popular enquanto tenta governar, até porque não tem nenhuma dessas qualidades. Mas a economia socialista que Raúl herdará não pode dar aos cubanos o padrão de vida que eles merecem e desejam. Em seu mais recente discurso, no dia 26 de julho, Raúl reconhece que os salários dos cubanos não são suficientes para garantir a sobrevivência e admite que o ideal socialista, de que se trabalhe de acordo com a habilidade e se ganhe de acordo com a necessidade, não funciona mais. Ele mutila a teoria de Marx neste discurso ao afirmar que os trabalhadores deveriam passar a receber de acordo com o trabalho que realizam. Isto é um ataque claro à ineficiência inerente ao atual sistema cubano de produção.Qual é a extensão da influência do presidente venezuelano Hugo Chávez em Cuba?Ele tem uma influência enorme porque a Venezuela é, agora, a fonte de dinheiro de Cuba, assumindo o papel que os soviéticos tinham antes do "período especial" em Cuba, época de racionamento e escassez de produtos nos anos 90, logo após o desmantelamento da URSS. Hoje o apoio econômico da Venezuela chega, de acordo com a Universidade de Miami, a US$ 4 bilhões por ano. Em troca, milhares de médicos cubanos foram enviados à Venezuela - criando até uma falta de médicos em Cuba. Chávez também personificou os ideais revolucionários de Fidel. Muito mais do que Raúl, Chávez é visto como a chama antiimperialista contra os EUA. Embora ele tenha sérios problemas dentro de seu próprio país. É certo que ele terá muito a dizer sobre Cuba por algum tempo.O senhor vê alguma possível mudança na relação de Cuba com o Brasil após a morte de Fidel?Cuba deverá se pautar de acordo com o que a Venezuela determinar. Se a Venezuela tiver uma boa relação com o Brasil, Cuba também terá. A influência de Hugo Chávez em Cuba é muito forte e isso definirá posições cubanas em toda a América Latina.Como foi a repercussão de seu livro na ilha?Meu livro não foi permitido em Cuba, o que diz muito sobre como o regime continua a tentar controlar o acesso às informações e a manipular imagens. Mas uma tradução para o espanhol estará à venda em breve no México e eu suspeito que algumas cópias acabarão chegando a Cuba.

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