A Bastilha persa

Desde os tempos do xá, a prisão de Evin é o calvário maior dos presos políticos do Irã. Suas celas exalam execuções e tortura. O cineasta Jafar Panahi está lá e não pode nem receber um advogado

Carolina Rossetti,

22 Maio 2010 | 09h07

Localizada ao norte de Teerã, aos pés das montanhas Alboz, Evin é a mais notória prisão política do Irã. Ali a massa crítica do país tem sido encarcerada desde a fundação do presídio, em 1971. Daí o ditado iraniano: se quiser conversar com as mentes mais brilhantes do Irã, visite uma ala de Evin. Na 209, ala tradicionalmente destinada aos presos políticos, está o cineasta Jafar Panahi, de O Balão Branco, suspeito de produzir um documentário sobre os protestos que denunciavam fraude nas eleições presidenciais do ano passado. Na quarta-feira, Panahi, que não pode receber visitas ou advogado, anunciou uma greve de fome.

 

Conhecida como “a Bastilha do mundo persa”, em Evin já ficou preso o líder supremo do país e figura central da revolução iraniana de 1979, Ali Khamenei. Entre políticos enclausurados nas mais de 300 celas esteve o ex-vice-primeiro-ministro Abbas Amirentezam, o recordista, com 27 anos em Evin. “A pior fase foi quando testemunhei a execução de meus companheiros de ala, um por um. Em 1989, havia 350 em minha ala; 342 foram executados”, escreveu.

 

A violação dos direitos humanos em Evin é conhecida desde os anos 70, quando o temido serviço secreto do xá Reza Pahlavi, a Savak, controlava a prisão. O período mais sombrio foi entre 1981 e 1988, em que houve execuções em massa de opositores ao aiatolá Khomeini, a maioria do grupo islâmico-marxista mujahedin. Estima-se em 6 mil o número de mortos. Nos anos 80, as celas se encheram de jovens ativistas políticos, estudantes e artistas. O dramaturgo iraniano Shahrnoush Parsipour relatou que em 1981, “a idade média dos presos era de 19 anos”. Entre os adolescentes estava a hoje escritora Marina Femat, detida aos 16 anos, que conseguiu, por sorte, escapar antes do auge do banho de sangue.

 

Presa por criticar o governo de Khomeini no jornalzinho da escola, Marina foi condenada à morte, sentença depois mudada para prisão perpétua. “Em Evin só se entra de olhos vendados”, diz, ao descrever a escuridão que a acompanhou naquele 15 de janeiro de 1982, quando foi arrancada da casa dos pais e encarcerada. Ironicamente, sua salvação veio por intermédio de seu maior algoz, o carcereiro de nome Ali Moosavi, que fez dela sua esposa. Marina explica que quando um guarda desejava uma menina, pedia permissão ao juiz da sharia, a lei islâmica. Ele declarava o matrimônio e o estupro era liberado. Um dia, Ali Moosavi foi assassinado por uma facção rival do governo. Seis meses depois, foi a família dele que, subornando oficiais, garantiu a liberdade de Marina em março de 1984, como descreve no livro Prisioneira de Teerã.

 

Ela lembra como a tortura é parte da vida de Evin. “Eles me amarravam a uma cama, de barriga para baixo, e chicoteavam meus pés. A tortura em Evin é programada para destruir a alma humana.” De acordo com relatórios da organização Humans Rigths Wacth, as formas de tortura mais usadas em Evin são o estupro e o confinamento em solitárias, consideradas “prisão dentro da prisão”. Para intensificar o efeito destrutivo as solitárias são iluminadas 24 horas por dia. Massoud Behnoud descreveu para a HRW o confinamento, conhecido como “tortura branca”: “Você não consegue dormir. Fica tonto e encosta-se à parede. Grita, mas ninguém ouve. O silêncio é absoluto. É como estar num caixão”.

 

Como as organizações humanitárias são impedidas de entrar na prisão, é difícil estimar o número de presos políticos. ONGs de direitos humanos estimam entre 600 e 800. O que se sabe é que o número aumentou desde as últimas eleições presidenciais de junho. As execuções desde então são estimadas entre 20 e 30.

 

“Como muitos dos presos políticos são misturados aos comuns, não é possível saber se as mortes têm motivação política”, diz a jornalista e ativista Fariba Amini, que vive em Washington e teme ser presa caso volte ao Irã. Ao comentar a execução de cinco curdos na semana passada, Fariba ressalta que os prisioneiros sem vínculo com partido político ou organização de direitos humanos são os mais sujeitos a tratamentos desumanos. “Quanto mais conhecido, menos sujeito a maus-tratos ou à execução. Os jovens, em especial, os anônimos, são os mais executados.”

 

Alguns estrangeiros também estão presos em Evin. Marina Nemat acredita que eles os são mais bem tratados e sua libertação é negociada na surdina. Sobre a troca da estudante francesa acusada de espionagem Clotilde Reiss por dois iranianos presos na França, um deles o assassino do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar, Marina comenta: “Minha principal preocupação é com os iranianos, pois nenhum governo estrangeiro negocia sua libertação. O povo iraniano é refém de seu governo há 30 anos. Como um vulcão, ele está prestes a explodir”.

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