À beira da wikifalência

Goste-se ou não de Assange, o bloqueio dos banqueiros ao WikiLeaks restringe a livre circulação da informação e abala a democracia

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2011 | 03h07

Satanizados e hostilizados nas várias manifestações populares que se globalizaram a partir do movimento Ocupem Wall Street, a banca e os tubarões do sistema financeiro não saíram às ruas a empunhar cartazes com dizeres do tipo "Desocupem Wall Street!", "Deixem os ricos em paz!", "O meu ninguém leva!", "Eu sou do bem!", "Deixem tudo como está!", como imaginou o desenhista Barry Blitt para a capa da revista The New Yorker da semana passada. Não é esse o modus esperniandis dos financistas. Os donos da grana, ora absortos na crise do euro e no calote da Grécia, trabalham na surdina e já ocuparam as praças que queriam ocupar.

E tudo continuou como estava. Menos para Rajat Gupta, ex-diretor do Goldman Sachs preso na quarta-feira pelo FBI, acusado de contrabandear informações sigilosas e lesar investidores e acionistas. Mas sua expiação em nada arrefeceu a cólera dos acampados no Parque Zuccotti e seus epígonos nacionais e estrangeiros. A luta prossegue. Ainda há muitos guptas à solta.

Com a suspensão temporária das atividades do WikiLeaks, anunciada na segunda-feira por Julian Assange, os indignados perderam um valioso aliado na guerra contra a ganância corporativa e suas impunes e até estimuladas malfeitorias. Na surdina, a plutocracia conseguiu inviabilizar o website subversivo, especializado em coletar e vazar documentos comprometedores de entidades públicas e privadas. Bloqueou-lhe as fontes de pagamento, secou-lhe as finanças, impedindo-o de contabilizar as doações que sempre o sustentaram e em sua conta entravam através de duas empresas de cartões de crédito e intermediários como o Bank of America, a Western Union e a Pay Pal, dos mais populares sistemas de pagamento pela internet.

Um ano atrás, entusiasmado com os primeiros estragos causados pela ciberguerrilha de Assange em nome da transparência e convicto de que ele era um traficante internacional de informações que governos e instituições tentam esconder, não raro por razões escusas, escrevi aqui ser um consolo saber que a estrutura montada por ele, com a ajuda de centenas de voluntários, ativistas, nerds, criptógrafos e doadores sem parti pris ideológico, permitia ao WikiLeaks sobreviver sem lideranças, hierarquias, e até ao boicote orquestrado de antigos parceiros como a Amazon.com e os cartões de crédito Visa e MasterCard, que pararam de processar as doações ao site em dezembro. O boicote, como se viu, foi mais forte.

Visa e MasterCard, que praticamente duopolizam o mercado de cartões, cancelaram seu acerto com o WikiLeaks oito dias depois da enxurrada de telegramas diplomáticos do Departamento de Estado americano vazada pelo site, em 28 de novembro de 2010. A Pay Pal fizera a mesma coisa quatro dias antes. Somem-se a isso as pressões do governo americano e de diversos senadores, inclusive do independente Joe Lieberman, visando a tirar o site do ar. Conseguiram. Provisoriamente. WikiLeaks perdeu 95% de sua renda e precisa, segundo Assange, de US$ 3,5 milhões nos próximos 12 meses só para manter os atuais níveis de operações.

Com os 7 mil que, em média, passou a arrecadar mensalmente, contra os 100 mil que em sua conta pingavam todo mês no ano passado, Assange não paga nem a conta de luz. No site desativado, um pedido de socorro: "WikiLeaks needs you" (WikiLeaks precisa de você), animado por um vídeo que parodia o comercial da Visa para as Olimpíadas de Londres e acompanhado de várias dicas sobre como ajudá-lo a manter-se vivo e atuante. Aceitam-se cheques, via MoneyGram, que ao contrário da Western Union, permaneceu fiel ao grupo.

Assange se mexe como (e enquanto) pode. A qualquer momento a Justiça britânica pode deportá-lo para a Suécia. Enrolou-se todo com uma autobiografia, cuja venda ajudaria a cobrir parte do prejuízo, mas encalhou nas livrarias, sobretudo porque inacabada e com um título engraçado, mas de pouco apelo popular: Julian Assange: Uma Autobiografia não Autorizada. Deu outros tiros no pé, como anunciar, há dois meses, a liberação de todos os documentos em seu poder sem submetê-los ao crivo dos parceiros (Guardian, El País, New York Times, Le Monde, Der Spiegel) que, desde o início das operações, lhe asseguraram visibilidade e credibilidade, e tentar convencer um doador, a Wau Holland Foundation, a pagar as custas do advogado que o defende das acusações de má conduta sexual na Suécia.

Outro vacilo: a revelação, em agosto, de que o repórter etíope Argaw Ashine conversara com um alto funcionário da Embaixada dos Estados Unidos em Adis-Abeba sobre os planos do governo para intimidar a imprensa independente. Por sentir-se ameaçado, o repórter fugiu da Etiópia na semana passada. Para que pôr em perigo a vida de um jornalista, com base numa informação unilateral e, a rigor, irrelevante?

Vacilos à parte, goste-se ou não de Assange, temos de repudiar o bloqueio dos banqueiros ao WikiLeaks por considerá-lo uma agressão à democracia e à livre circulação da informação. Reproduzo quase literalmente o que o insuspeito James Ball escreveu há dias em seu blog no Guardian. Ball é um défroqué do site. Aderiu, como todo mundo, por idealismo, "por acreditar que podia mudar o mundo via internet"; desiludido, saiu. Não suportou ver Assange escolher um sujeito chamado Israel Shamir para representar o WikiLeaks na Rússia e no leste da Europa.

Shamir, que se dizia chamar Adam, parecia até um agente infiltrado, com a missão de desmoralizar a organização. Tão logo chegou pediu para ler tudo o que "o Departamento de Estado americano tinha sobre os judeus", era um tremendo antissemita, ligado a grupos racistas e tiranias de direita e esquerda, com bons serviços prestados à ditadura na Bielo-Rússia. Baseado num documento que Shamir vazou no final do ano passado, o regime autoritário de Alexander Lukashenko pôde identificar todos os "organizadores, instigadores e arruaceiros" que haviam protestado contra eleições fraudulentas no país, e trancafiá-los sabe-se lá por quanto tempo.

O WikiLeaks precisa da gente até ou sobretudo para evitar desvios dessa natureza.

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