A beleza da destruição

Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Rohn Meijer constatou que no porão havia um lote de filmes fotográficos à mercê da umidade por 15 anos. Ao revelá-los, viu que até na destruição pode haver beleza. E passou propositalmente a danificar outros filmes expostos para deles extrair uma nova forma de expressão. Transformada, transformadora, ainda fotografia, mas com ares de pintura, eis a sua série Metamorphosis. No fundo, um reencontro do fotógrafo com seu passado de escultor. Meijer nasceu em Amsterdã, morou em Los Angeles, Nova York. Estudou cerâmica na Gerrit Rietveld Academie, em sua cidade natal, trabalhou com Mario Bellini, mestre do desenho industrial italiano, fez jogos de jantar para o serviço de bordo da Alitalia, deu aulas, foi assistente do fotógrafo de moda Jan Francis, também holandês, cujos passos seguiu. Aos 69 anos, vive em Milão, onde fotografa (moda) para viver e vive para fotografar (todas as outras coisas).

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2013 | 02h24

Que é o projeto Metamorphosis?

Uma declaração: "Nada é destruído, tudo é transformado". Ele tem um significado profundo na minha vida, por me permitir brincar mais com o lado artístico da fotografia. Representa mais liberdade, mais força expressiva. Com Metamorphosis me abro para uma forma pura de arte, diferente do trabalho de moda e publicidade que faço - e, admito, também gosto de fazer. Mas é como se Metamorphosis representasse um salto para fora de mim mesmo. Uma transformação, como diz o nome.

Um respiro da fotografia ganha-pão...

Na verdade as duas coisas caminham o tempo todo de mãos dadas, Metamorphosis e a fotografia que faço, digamos, para viver. Porque Metamorphosis vem justamente de meu trabalho comercial: usei sobras de negativos e slides dos trabalhos de moda para realizá-lo. Então eu acho que não é anulação. É o oposto: um inspira o outro.

Essas imagens têm forte carga pictórica. Que pintores te inspiram?

Devo dizer, primeiro, que considero fotografia arte também. E obviamente estou sempre buscando inspiração nos grandes pintores. Caravaggio é meu favorito. Ele está, por exemplo, na minha série de fotografias que chamei Naked Chair (feitas com um fundo preto, uma cadeira e um corpo nu dramaticamente iluminado). Mas aprecio também Matisse, por sua simplicidade, e Modigliani, pela elegância das linhas e proporções.

E quais são as 'tintas' para obter os

resultados de Metamorphosis?

Depois de revelar o filme aplico um coquetel de produtos químicos na emulsão e o deixo descansar por meses. Só isso. Resultados imprevistos, inesperados, transformadores. Não há truque de computador. Sempre me perguntam que químicos são esses. Só posso responder que se trata da minha fórmula secreta da Coca-Cola. Quando ela contar os ingredientes dela, eu conto os meus.

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