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'A Biblioteca Elementar' encerra ciclo de Alberto Mussa

Lançamento é o sexto romance histórico do 'Compêndio Mítico do Rio de Janeiro'

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

29 Setembro 2018 | 16h00

Com A Biblioteca Elementar, Alberto Mussa finalmente nos entrega o último tomo do seu grande ciclo de romances históricos, carinhosamente intitulado de Compêndio Mítico do Rio de Janeiro. São cinco livros – O Trono da Rainha Jinga (1999), O Senhor do Lado Esquerdo (2011), A Primeira História do Mundo (2014) e A Hipótese Humana (2017). Conforme afirma o próprio autor, cada um deles lida, respectivamente, com os seguintes temas inquietantes: “A ideia de Bem como função do Mal; a natureza da sexualidade masculina; a natureza da sexualidade feminina, ao menos na visão que têm os homens dela; e a noção da alma em contraponto à de pessoa.”

Em A Biblioteca Elementar, temos uma meditação lúdica sobre “a necessidade de se pressupor uma causa primitiva, ou um agente elementar, desse mesmo Mal”. Para isso, Mussa usa e abusa dos dois gêneros literários que faziam a alegria do escritor argentino Jorge Luis Borges: o romance policial e o enigma árabe. No decorrer da sua obra anterior, o romancista brasileiro misturava-os com tamanha habilidade narrativa que acabávamos por nos esquecer que ele também fazia parte de uma tradição tipicamente nacional – a do romance carioca, cuja linhagem reúne escritores como o Manuel Antônio de Almeida do Memórias de Um Sargento de Milícias (1854), o José de Alencar de Senhora (1875) e o Joaquim Manuel de Macedo de A Misteriosa (1873).

Não à toa, Mussa insere um trecho desse último livro como uma das epígrafes de abertura de A Biblioteca Elementar – “Dez realidades não valem uma imaginação”. Para ele, a narrativa ficcional e a narrativa histórica caminham juntas – como fica nítido no terceiro romance do ciclo, A Primeira História do Mundo, e em outros livros seus, como O Enigma de Qaf (2004) –, desde que um leitor cuidadoso perceba que há uma conexão entre as duas. No caso, essa ponte é nada mais, nada menos, que o desejo mimético.

O termo acima é do pensador francês René Girard e consiste na seguinte formulação: descobrimos que não desejamos alguma coisa ou alguém por nós mesmos, e sim porque imitamos os desejos dos outros – ou seja, quem admiramos, invejamos, nos apaixonamos, etc. Enfim, há sempre uma terceira pessoa que acreditamos ser, sem o sabermos, o nosso “modelo” – e o desconhecimento disto nos leva a um aumento crescente de uma violência que começa na vida privada, mas logo depois se expande para a vida social. Sem citar conscientemente a obra de Girard, Mussa teve a mesma intuição ao criar um jogo de permutações – já antevisto em O Movimento Pendular (2006) e desenvolvido depois, de forma dramática, neste A Biblioteca Elementar –, ao comentar que, na verdade, “o conceito de sociedade, surgido na alta pré-história, deriva diretamente do desenvolvimento da noção de adultério [o exemplo máximo de desejo mimético] – e não do incesto, como se acostuma apregoar”.

Esse vislumbre perturbador do comportamento humano retorna com força total neste derradeiro volume do Compêndio Mítico. Mussa brinca com vários triângulos amorosos, numa espécie de releitura do Teorema da Incompletude de Kurt Gödel que, no fim, dá toques alucinantes a uma trama policial que envolve os habitantes de 19 casas na então Rua do Egito, em um ambiente histórico contextualizado em 1733 – muito antes do “tempo do Rei”. Há um assassinato, claro, mas não do modo como o leitor pensa; há criminosos também, apesar de sequer saberem que praticaram algum crime. Contudo, há um enigma e, por mais paradoxal que isso pareça, há também uma certeza: a de que, independentemente do seu alvo, o desejo mimético ataca a todos nós – e o que nos resta são as linhas do destino gravadas na palma da nossa mão, essa “biblioteca elementar” que lê a vida de cada um.

Assim, o verdadeiro segredo a ser revelado pelo romance de Mussa talvez seja a interrogação sobre se “a causa primitiva do Mal” é ou não é o descontrole das nossas paixões. E é por causa disto que a nossa sociedade ficou completamente dominada por um desejo mimético que move nossos mecanismos de punição e de recompensa, “menos pelos agentes da justiça que pela inveja, pela dor, pelo ressentimento, pelo medo, pela vingança dos próprios cidadãos, por tudo que brota da lama negra ou da madeira podre de que é feita a humanidade”. Graças a tal axioma, fica nítido que a trama de A Biblioteca Elementar se passa em 1733, mas poderia muito bem acontecer em 2018 – em um Brasil arcaico que não fica nada a dever ao de hoje, possesso pelos arcanos do poder. Afinal, a conclusão deste teorema nada incompleto é que o pêndulo do desejo sempre vai de um extremo para o outro, sem a capacidade de existir algum domínio nas nossas afeições. E será por causa de Alberto Mussa, este investigador da alma humana, que talvez descobriremos um “meio-termo” provisório para o mistério mítico que nos deixa permanentemente perplexos. Quem viver, verá.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros 'Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More' (Vide Editorial, 2012) e 'A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira' (Record, 2015); pós-doutorando pela FGV-EAESP 

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