Reuters/Christian Charisius
Reuters/Christian Charisius

A biografia de Gorbachev e a volta da Guerra Fria

Com o mundo ameaçado por um conflito nuclear, conhecer a vida do ex-líder russo pode ajudar a decifrar a retórica bélica de Putin

Flávio Ricardo Vassoler, Especial para o Estado

07 de setembro de 2019 | 16h00

No dia 1º de fevereiro deste ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump anunciou, em um comunicado oficial, a saída do país do Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês), que fora firmado bilateralmente, em 1987, entre os EUA e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), sob a liderança de Mikhail Gorbachev, último secretário-geral do Partido Comunista. 

De olho no desenvolvimento militar galopante da China, cuja produção de ogivas nucleares não se vê limitada pelo INF, do qual o país asiático não é signatário, Trump deu um passo decisivo para o restabelecimento da Guerra Fria e uma nova corrida armamentista, com a justificativa de que a Rússia, sob o comando do presidente Vladimir Putin, vem violando os termos do INF. A Rússia, por sua vez, nega veementemente as acusações dos Estados Unidos, a despeito de o país eurasiático ter realizado testes com o míssil hipersônico Avangard, em dezembro de 2018, e, meses antes, ter instalado mísseis terrestres de cruzeiro SSC-8 em bases militares a leste dos Montes Urais, fronteira natural entre a Europa e a Ásia. 

Os EUA consideram que, além de violar o INF, tais armamentos têm o objetivo de intimidar os países europeus, sobretudo as nações que faziam parte da Cortina de Ferro , antiga zona de influência da URSS, e as outrora repúblicas soviéticas (de oeste a leste, Estônia, Letônia, Lituânia, Bielorrússia, Ucrânia, Moldávia, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Cazaquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Quirguistão). 

Desde a assinatura do tratado firmado entre o então presidente dos EUA, Ronald Reagan (1911-2004), e Mikhail Gorbachev, quase 2.700 ogivas nucleares e toda uma categoria de mísseis de cruzeiro terrestres de médio alcance, que têm a capacidade de perfazer um raio de 500 a 5.500 quilômetros, foram destruídas. Após o anúncio oficial de Trump, EUA e Rússia têm, aproximadamente, seis meses para (tentar) salvar o INF da completa obsolescência, cuja ruína significaria tanto uma versão ainda mais temerária da Guerra Fria, dados os mais recentes avanços tecnológicos, quanto a derrocada da luta humanista de Mikhail Gorbachev, o líder soviético que efetivamente tentou dar fim à bipartição belicista do mundo entre Leste comunista e Oeste capitalista. 

Diante da trágica e iminente retomada da Guerra Fria que, em nossa época, arrastará o gigantesco poder militar e econômico da China, torna-se importante a leitura da autobiografia política Minha Vida (Editora Amarilys, tradução de Rodrigo Botelho e Júlio Sato), ao longo da qual Mikhail Gorbachev nos revela momentos fundamentais de sua formação que, em meados dos anos 1980, o alçaram ao cume da superpotência que, em contraposição aos EUA, comandou o bloco socialista a partir do fim da 2ª. Guerra Mundial (1939-1945). 

Em junho de 1941, o então menino Mikhail teve que interromper um passeio em um parque de Privolnoye, a vila rural onde nascera, no Cáucaso Norte, por causa de um informe que um cavaleiro trouxera a plenos pulmões: “Estamos em guerra! Todos devem estar ao meio-dia na praça central, pois Molotov (1890-1986) vai fazer um discurso”. Segundo Gorbachev, “não havia rádio em Privolnoye. Iriam instalar, excepcionalmente, uma rede elétrica para transmissão por alto-falantes. Nós, crianças, entendíamos tudo aquilo de maneira diferente dos adultos que, por sua vez, ficaram ali com os rostos petrificados com essa notícia. Nós, crianças, pensávamos: ‘Vamos fazer bonito perante os fascistas!’”

Engajado politicamente desde sua entrada na União da Juventude Comunista durante a adolescência, Gorbachev foi ascendendo na hierarquia do PCUS e, no início de 1956, já atuando como representante partidário de sua região, o futuro premiê soviético participou de um acontecimento que chocou toda a nação: o 20.º Congresso do PCUS e o relatório de Nikita Khruchev (1894-1971), sucessor de Stalin (1878-1953) à frente da URSS, sobre o culto à personalidade do ditador e sobre os crimes do período stalinista. Gorbachev revela que “uma descrição pormenorizada desse relatório foi enviada para todas as filiais do partido. A reação ao relatório e à resolução do congresso foi variada. Contei minhas impressões a um dos secretários do partido no Comitê Central. Ele respondeu: ‘Mikhail, cá entre nós: nós mesmos não sabemos o que fazer – as pessoas não querem acreditar’”.

Além da colonização e da torrente de (contra)informações ideológico-totalitárias, Gorbachev passou a entrar em contato de forma mais aprofundada, já como secretário do PCUS na região caucasiana de Stavropol, em meados dos anos 1970, com o grave processo de obsolescência, burocratização e corrupção da economia soviética sob o governo de Leonid Brejnev (1906-1982). Como futuro arquiteto da perestroika, a reforma econômica que pretendeu dar sobrevida ao combalido socialismo da URSS, Gorbachev pôde se confrontar com o sistema de resoluções de uma economia planificada e de um Estado altamente centralizado, em meio ao qual, para cada questão, era necessário se pronunciar diante da Comissão de Planejamento Nacional e receber a aprovação de uma dúzia de ministérios e autoridades, assim como de centenas de funcionários públicos. Segundo Gorbachev, “a profunda centralização, pela qual tudo tinha de ser decidido no centro desse enorme país, paralisava a sociedade. O menor desvio ou experimentação que ocorresse fora daquele sistema era imediatamente interrompido”. 

Em meio à (suposta) sociedade sem classes, a inércia/oposição de poderosos grupos de interesses, tais como a alta burocracia ministerial, as Forças Armadas e a KGB, representou um enorme entrave para que Gorbachev erigisse, segundo suas próprias convicções progressistas, “um socialismo humano e democrático”. O ímpeto reformista do último premiê soviético se assentava sobre o princípio de que “as pessoas conseguem lidar com a liberdade quando tomam o caminho das reformas e do desenvolvimento gradual. O caminho em direção à revolução conduz ao caos, à destruição e, não raro, também a uma nova sujeição”. A análise de Gorbachev sobre as contradições históricas que enredam os movimentos revolucionários decanta a tragédia perpetrada sob a égide de Stalin, cujo autoritarismo bem pode ser descrito por uma máxima tão sábia quanto cínica do ditador fascista (e socialista quando jovem) Benito Mussolini (1883-1945): “Após a revolução, resta o problema dos revolucionários”. 

Ao fim e ao cabo, Gorbachev se mostra espirituoso e aberto a (auto)críticas ao relatar uma piada popular à época de sua perestroika: “Em algum lugar de Moscou, as pessoas formam uma fila com mais de um quilômetro em busca de vodca. Todos praguejam contra as autoridades públicas e, sobretudo, contra o secretário-geral. Súbito, alguém sentencia: ‘Vou agora mesmo ao Kremlin para matar Gorbachev’. ‘Ora, vamos’ – respondem, rindo, os que estão na fila. Mas o homem, de fato, vai ao Kremlin. Depois de uma hora, ele volta. A fila avançou um pouco, mas ainda falta muito para chegar ao balcão. ‘Ué, você matou Gorbachev? – perguntam ao homem. ‘Não. Lá a fila está ainda maior’”. 

 

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