A borboleta de aço ainda voa alto

Viúva de ditador filipino é reabilitada em musical de sucesso nos EUA e anuncia volta à política

KATHERINE ELLISON, THE NEW YORK TIMES - É GANHADORA DO PRÊMIO PULITZER, AUTORA DE IMELDA: STEEL BUTTERFLY OF THE PHILIPPINES , (IUNIVERSE), O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h07

Como uma barata depois da explosão de uma bomba nuclear, o charme de Imelda Marcos sobreviveu a um golpe que deveria ter sido mortal. Em 1986, uma revolta popular pôs fim aos seus 20 anos de reinado como primeira-dama das Filipinas. Com o marido, Ferdinando, fugiu para o Havaí, deixando para trás um macabro histórico de violações dos direitos humanos, corrupção e mais de mil pares de sapatos.

Na semana passada, os notórios calçados de Imelda voltaram à luz depois que autoridades do Museu Nacional das Filipinas, em Manila, descobriram que parte da coleção havia sido destruída pelos cupins e pelo mofo. Uma equipe de curadores foi chamada para remediar o dano.

Entretanto, quaisquer que sejam os prejuízos sofridos pelos vários Charles Jourdans e Jimmys Choos, o poder sedutor da Borboleta de Aço permanece intacto, como revelou o musical que a retrata de maneira surpreendentemente simpática, Here Lies Love, produzido por David Byrne. O espetáculo foi exibido durante o verão em Massachusetts com casa cheia e deve estrear na próxima primavera no Public Theater de Nova York. O título corresponde à frase que Imelda deseja como seu epitáfio, sentimento tipicamente hipócrita dessa mulher que se referiu aos nove anos de repressão militar impostos por ela e pelo marido como a "lei marcial com um sorriso".

Como parceira de Ferdinando na "ditadura conjugal", Imelda fascinou funcionários, diplomatas e jornalistas americanos. Valsou com Reagan e Johnson, cedeu a cama a Nixon durante uma visita oficial deste e ajudou a convencer os americanos de que só os Marcos se interpunham entre a ordem e o caos comunista - ao mesmo tempo que desviava a atenção das evidências de tortura e desaparecimentos. Marcos considerava Imelda sua "arma secreta". Contudo, depois que a poeira baixou, ficou óbvio que sua arrogância acelerara a queda do marido.

Suas orgias de compras incluíam imóveis americanos adquiridos secretamente, entre eles o Crown Building, na 5ª Avenida, e uma propriedade em Long Island que está novamente à venda. Fontes do Departamento de Estado disseram que Imelda pode até ter planejado o assassinato do líder da oposição Benigno S. Aquino, em 1983, morto na pista do aeroporto de Manila diante de um avião lotado de jornalistas estrangeiros. Testemunhas ouviram Marcos rosnar para ela "é tudo culpa sua", enquanto esperavam os helicópteros americanos que os levariam do palácio.

Mas a prestação de contas de Imelda foi breve. Depois de cinco anos em confortável exílio no Havaí, foi declarada inocente das acusações de crime organizado e de fraude nos EUA. Regressou a Manila em 1991, dois anos depois da morte de Marcos. Perdeu a vaga para a presidência em 1992 e em 1998, mas em 1995 e 2010 conseguiu eleger-se para o Congresso e, no início dessa semana, anunciou que se candidataria a novo mandato.

Aos 83 anos, Imelda lidera uma dinastia na qual sua filha governa uma província e seu filho é senador da república e forte concorrente nas próximas eleições presidenciais. A grande maioria das 900 ações civis e penais contra o casal Marcos, ajuizadas nas Filipinas e nos EUA, foi arquivada.

Here Lies Love, baseado numa coletânea de músicas de 2010 que Byrne produziu com o britânico Fatboy Slim, quer que o público "simpatize, ainda que relutando" com Imelda. É uma afronta aos sobreviventes dos Marcos, como Hilda Narciso, que trabalhava para a Igreja e foi levada para um esconderijo para ser "interrogada" e estuprada por um bando de soldados em Davao City, em 1983. Ou Mariano Pimentel, preso por quatro anos sem acusação formal, que foi espancado, enterrado até o pescoço em um campo afastado e ali deixado como morto até ser salvo por umas crianças.

Embora as histórias de Hilda e Mariano não se prestem à batida disco, elas representam 7.526 autores de um processo contra o espólio de Marcos, uma das maiores ações coletivas sobre violações de direitos humanos do mundo, ajuizada pela primeira vez em 1986. Nove anos mais tarde, um juiz americano ordenou o pagamento de quase US$ 2 bilhões às vítimas. Mas as autoridades filipinas se recusaram a distribuir o dinheiro, apesar de uma reprimenda da ONU e de um projeto de lei pendente no Senado filipino. Muitos parlamentares também foram vítimas da era Marcos.

Quando ouço a pulsação fútil de Here Lies Love, lembro o relato de Imelda quando a entrevistei no Palácio Malacañang, em 1985, poucos meses antes de ser obrigada a fugir. Ela trajava um vestido vermelho fogo, muito decotado, e usava enormes brincos de argolas de diamantes. Estava sentada embaixo de um retrato seu, em tamanho natural, no qual aparecia jovem surgindo de uma concha e envolta numa névoa cor de água-marinha. "A história será muito mais bondosa comigo", assegurou, batendo no peito com as unhas cor de sangue. "Quando todas as paixões e emoções tiverem amainado, eles saberão que esta foi a minha primeira preocupação: o ser humano." Suspirando, acrescentou: "Este mundo é maravilhoso". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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