A breve e cíclica modernidade do Brasil da Copa

Periodicamente, os brasileiros ocultam o duro tempo do sofrimento para pôr em seu lugar a páscoa da utopia

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2007 | 23h05

O Brasil já entrou em campo para sediar a Copa do Mundo de 2014. O presidente Luiz Inácio foi a Zurique, na Suíça, para receber a notícia por todos sabida de que a Copa será aqui. Notícia que ele poderia ler no jornal da manhã seguinte, como fazem os governantes dos países modernos. Mas essa Copa será evento de Primeiro Mundo em país de Terceiro Mundo. É preciso, pois, antecipar e esticar sua durabilidade. É o que dá sentido e importância política à festa popular nos países atrasados. Lula é a figura mundialmente emblemática da denúncia contra a pobreza e a fome no País, o pai miraculoso de programas anunciados e aplaudidos para resolver as misérias do capitalismo, o Fome Zero e o Bolsa-Família. Mas sua longa viagem não nos esclarece como a miséria proclamada já teria sido resolvida para que o País possa entrar no carnaval dos dispêndios milionários com a preparação da infra-estrutura necessária à disputa futebolística que paralisa países e consciências. E diverte, sem dúvida.Esse episódio se torna inevitavelmente parte do calendário eleitoral de 2014, o que fica mais claro com o desarquivamento pelo PT do projeto de emenda constitucional que permite a reeleição sem limites do presidente da República, verdadeiro golpe de Estado que aproveita a cortina de fumaça dos sete anos de euforia e de cegueira que se iniciam. O numeroso grupo de governadores e ministros presentes ao ato inútil já nos mostra o efeito dominó do evento. A viagem de Lula teve estrutura e funções de corrida armamentista: os outros não tinham como ficar de braços cruzados enquanto Luiz Inácio prepara seu retorno ao Palácio da Alvorada ou sua permanência nele.A opinião pública já está dividida em relação ao acolhimento da Copa, posta de um lado ou de outro da contradição do reaparecimento cíclico de evidências de que esta sociedade é regulada pela dialética do pão e circo. O núcleo significativo do discurso lulista e petista sobre a pobreza encontra no ato de Zurique um instrumento de desconstrução do partidariamente conveniente, discurso para povo de pavio comprido e de memória curta. Na verdade, nem o contra nem o a favor interessam prioritariamente. Lula e o PT não têm se empenhado em superar as contradições que personificam e em nome das quais chegaram ao poder. O PT é a nossa única corporação de interesses partidários que compreendeu e aceitou que a sociedade brasileira seja uma sociedade fraturada em duas humanidades, política e civilmente antípodas, que coexistem carneiril e pacificamente. O que nela politicamente cimenta os opostos é a festa litúrgica do advento do messias e do milênio. A esperança reduzida à espera permanente. Nesse cenário, o PT não é o partido do trabalho e do bíblico suor do rosto, das privações, como eram os comunistas de outro tempo. A festa politicamente necessária e planejada anula siglas e nomes. O PT é o partido da festa, da celebração, da ressurreição que passou por cima dos danos da morte sacrificial da realidade iníqua. Não é o partido dos dias de semana; é simbolicamente o partido dos sábados, domingos e feriados. O futebol, reiterada e metaforicamente presente nos discursos presidenciais de Luiz Inácio, aí não está por pobreza de pensamento. É expressão da mentalidade suburbana, construída em cima da polarização entre a fábrica em que se sua para viver e o campo de futebol de várzea em que se vive para suar. O estado de beatitude permanente, como se diz de Lula, não é expressão de alheamento em relação a essa dialética tropical e colonial. Ao contrário, nesse universo, a concepção de governante que nos rege é a de festeiro, a que se atribuía ao imperador no Império, cabendo as durezas dos dias de trabalho ao Conselho de Estado. É o festeiro da Festa do Divino, o celebrante das prendas, da partilha e da fartura. A monarquia milenarista de Antônio Conselheiro finalmente se tornou real. A proclamação da República, reunindo numa única figura o chefe de Estado e o chefe do governo, suprimiu a figura política do festeiro, criou uma orfandade política nacional que nos põe permanentemente à espera do redentor - El-Rei Dom Sebastião transfigurado em Getúlio, Jânio, Lula - e à espera das festas cíclicas da utopia. Precisamos até mesmo de grandes e festivos funerais, daqueles homens eminentes que morrem antes do tempo, mistura de sacrifício e ressurreição: Getúlio Vargas, Airton Senna, Tancredo Neves, Mário Covas, foram protagonistas de episódios relativamente recentes de grandes e comovidas procissões funerárias. Temos que remeter a morte à festa ressurreicional, porque essa é nossa ânsia de vida. Não é casual que o PT e Lula sejam agentes políticos e representantes do profetismo das religiões que os apóiam e a eles se submetem e nos submetem, das quais têm indulgência plena para todo tipo de contradição. E que sejam também expressões políticas da intelectualidade que nessa aliança partidária se faz trabalhadora, até mesmo fazendo greve, e se perdoa do pecado original do que é historicamente o ócio.A Copa de 2014, politicamente promovida e patrocinada, reafirma e amplia uma característica social e cultural de nosso País que é a realização cíclica e temporária da modernidade. Porque somos colonizados e dependentes, pobres e insuficientes, resolvemos os graves problemas de nossas deficiências fraturando a sociedade em duas humanidades distintas, a que tem e é moderna e a que pede e é arcaica. Mas fraturamos, também, o tempo histórico que nos preside. O tempo duro dos sofrimentos, privações, violências, do atraso e dos arcaísmos, é periodicamente colocado entre parênteses para que se abra por curto tempo a páscoa da utopia e da euforia, da paz e da festa. Tempo da modernização, nas construções e obras públicas vistosas, que será esvaziada dias depois pela crueza do que somos e não queremos ser, do superficial e do aparente. Como se fazia com os escravos no tempo da escravidão. Como aconteceu nos Jogos Panamericanos do Rio. *José de Souza Martins é professor de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP

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