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A bruxa magiar

Petra Laszlo se celebrizou como a quintessência da covardia, da xenofobia e da abjeção jornalística

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

13 Setembro 2015 | 02h02

Já estávamos preparados para entregar uma simbólica Vassoura de Ouro a Kim Davis, aquela escrivã do Kentucky que prefere ver o sol nascer quadrado a sancionar um casamento gay, quando uma repórter e cinegrafista húngara convenceu o mundo inteiro que ela, sim, não Kim Davis, merecia ser eleita a Bruxa do Mês. Para tanto, Petra Laszlo precisou de apenas 20 segundos, o tempo de duração do vídeo que na terça-feira passada a celebrizou na internet como a quintessência da covardia, da xenofobia e da abjeção jornalística.

A serviço da N1TV num campo aberto de Röszke, na fronteira da Hungria com a Sérvia, a cobrir a rota de fuga de refugiados sírios a caminho da Áustria e Alemanha, Petra trocou suas obrigações profissionais por uma inesperada adesão aos meganhas que tentavam impedir a entrada dos migrantes em território húngaro. Ao primeiro erro acrescentou outro, ainda pior, atacando dois adultos e uma criança em fuga - com uma rasteira e um chute. Flagrada pela câmara de um colega do canal alemão RTL, sua agressão chegou em minutos ao Twitter e dali para o site do jornal espanhol El País, viralizando-se a seguir.

Mundialmente execrada, xingada em todas as línguas, Petra foi dormir na terça como o maior judas das mídias sociais depois de Walter Palmer, aquele dentista americano que matou o mais famoso leão do Zimbábue dois meses atrás. Na manhã seguinte acordou sem emprego.

Considerando-se que a emissora que a demitiu é linha auxiliar do Jobbik, partido de extrema-direita, xenófobo e antissemita, hoje a terceira força política da Hungria, muitos receavam que ela não fosse defenestrada, apenas deslocada para outras funções. "Que tal enviá-la para cobrir o Estado Islâmico?", gracejou o frequentador de uma rede social, sem se dar conta de que Petra poderia aderir aos jihadistas.

Para o bem do jornalismo e alívio das pessoas civilizadas, a bruxa magiar foi mesmo para o olho da rua, amaldiçoada por milhares de internautas num "Muro da Vergonha" erguido no Facebook e aglutinados na hashtag #PetraLazlo do Twitter. De lambujem, ela pode pegar de um a sete anos de cadeia, processada que foi por dois partidos de oposição ao governo de direita de Viktor Orbán, que fez do Jobbik o seu PMDB.

O primeiro-ministro Orbán proibiu que os canais de TV do país exibam imagens de refugiados crianças para não amolecer o coração dos húngaros, que por ora fecham com o governo: 66% consideram os refugiados "uma ameaça à estabilidade" e 46% são radicalmente contrários a conceder-lhes asilo, ainda que provisório. Alentado por esses números, Orbán encasquetou de armar uma cerca na fronteira com a Sérvia e não perde uma oportunidade de criticar o plano da União Europeia de distribuir 120 mil refugiados entre Alemanha, França e Espanha.

Este ano 167 mil migrantes entraram ilegalmente na Hungria, país de passagem para outros mais procurados porque mais ricos, mais extensos e receptivos, como a Alemanha, onde 60% da população apoia o socorro aos refugiados. Os conterrâneos de Petra Laszlo queixam-se de que os migrantes comem suas frutas, suas verduras e ainda sujam seus bosques e quintais, mas por enquanto só ela foi vista agredindo sírios em desesperada corrida para um país vizinho.

Queixas similares se repetem na Polônia, na República Checa e na Eslováquia. Robert Fico, premiê eslovaco, cismou que 95% dos sírios e africanos que procuram asilo na Europa não são refugiados políticos, mas "migrantes econômicos" à cata de empregos, e já avisou que só abriria as fronteiras do país para imigrantes cristãos.

O que aconteceu com a proverbial solidariedade polonesa? Como explicar esse "déficit de compaixão" nos países do Leste Europeu?, perguntou-se o cientista político búlgaro Ivan Krastev. Embora seja tentador justificá-lo pelo fato de os europeus do Leste não se sentirem culpados pela miséria, as guerras tribais, as ditaduras e as consequentes diásporas que o colonialismo da Europa Ocidental ajudou a semear na África e no Oriente Médio, o fator preponderante é o medo de novas decepções que se abateu sobre a pequena e pobre Hungria e outras ex-repúblicas soviéticas depois que a inserção na economia de mercado não lhes trouxe prosperidade. "Nos prometeram turistas, não refugiados", reclamam os húngaros, e não há como não sentir pena deles também.

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