A Catalunha e o touro à unha

Numa eleição que promete agitar o Estado espanhol e a própria UE, os catalães vão hoje às urnas decidir se continuam parte da Espanha

NATÀLIA RODRÍGUEZ, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h14

Hoje, domingo, 25 de novembro, os catalães voltam às urnas após uma legislatura de apenas dois anos. Estas talvez sejam as eleições mais transcendentais das últimas três décadas não só na Catalunha, mas em todo o Estado espanhol. Depois das manifestações de 11 de setembro, quando 10% da população catalã lotou as ruas de Barcelona clamando pela independência, a política catalã pisou no acelerador. Em menos de quatro semanas, a herança da transição pós-franquista explodiu em mil pedaços. A questão catalã - o encaixe da Catalunha na Espanha - volta a ser o centro de todos os problemas. Depois de mais de 300 anos de tentativas, os catalães parecem decididos a pôr um ponto final em um casamento que tem mais de forçado que de conveniência.

Stunde null é como os alemães se referem à hora agá, o início de algo, o alfa, como diriam os gregos. No Café Canigó, na emblemática Praça del Diamant de Barcelona, estão sentados em torno da mesa dois homens e duas mulheres de idade mediana que, entre goles e mais goles de café, discutem sobre a stunde null da possível independência da Catalunha. Há várias opções na mesa. A manifestação de 11 de setembro, que inundou o centro de Barcelona com mais de 1 milhão de pessoas exigindo a independência, parece a mais plausível. Mas é também a mais evidente, e a stunde null nunca é óbvia. Outros propõem uma stunde null que não é uma data, mas um fato simbólico: uma bandeira independentista - conhecida como "a estrelada" por ter uma estrela muito parecida com a da bandeira cubana - ondeia solitária em um imenso bloco de apartamentos de Bellvitge.

Bellvitge é um dos resultados da imigração em massa que a Catalunha sofreu nos anos 1950 e 60, quando milhares de andaluzes, estremenhos e gente de outros lugares da Península Ibérica se instalaram na Catalunha para ser coprotagonista do "milagre espanhol". Bellvitge, onde a crise econômica é feroz, as taxas de desemprego elevadíssimas e os jovens não têm outro horizonte além de um muro de concreto coberto de grafites, é uma das pátrias dos outros catalães, dos que chegados de fora da Catalunha levam décadas sentindo-se a outra metade de um país que tem o coração meio partido. Ali, uma bandeira independentista é tão improvável como a foice e o martelo em Wall Street. E, no entanto, lá está ela. Ondeando desafiadora.

Seguramente, não se trata de uma única stunde null. Alguma coisa mudou na Catalunha e é evidente que o complexo maquinismo da história se pôs em marcha.

A transição dos anos 1970 supôs um pacto entre diferentes forças políticas e grupos de interesses. Esses atores encerraram o passado num passe de mágica e decidiram que o futuro seria produto do acordo. Mas a realidade é que a solução das tensões territoriais oferecida pelos pais da Constituição (ante realidades desiguais, propostas iguais, o famoso café para todos) acabou se revelando um fracasso. Tratar de forma igual um território como a Catalunha, com mil anos de história e língua e cultura próprias, e outras regiões em que jamais houve um vislumbre de sentimento nacional além do espanhol, foi um erro colossal. Se a isso somarmos a crise econômica e o fato de a contribuição catalã para o erário comum do Estado espanhol - quase 20% do PIB - não ser revertida proporcionalmente para a sociedade catalã, que vê como outros territórios gozam de maiores isenções fiscais ou infraestrutura melhor quando mal contribuem para esse erário comum, obteremos o caldo de cultura, a real stunde null do problema.

Artur Mas, o inesperado. Poucos podiam prever que Artur Mas chegaria a convocar os catalães para essa aventura. O presidente catalão é um homem fechado, um pouco taciturno e envolto em retóricas épicas que o fazem citar com demasiada frequência o poema de Kavafis sobre Ítaca e os destinos míticos. Numa sociedade pequeno-burguesa como a catalã, a recorrência constante às ilhas gregas é, no mínimo, desconcertante. Do tecnocrata cinzento, austero, sacerdotal, podia-se esperar um déjà vu, um mais do mesmo, mas não uma ruptura do conhecido e um salto no escuro.

Em vez disso, Artur Mas, o herdeiro do fundador do partido nacionalista catalão Convergència Democràtica de Catalunya, Jordi Pujol (um astuto político que conseguiu governar durante 20 anos, mas jamais questionou a estrutura territorial do Estado espanhol) decidiu, contra todos os prognósticos, carregar consigo o peso de uma decisão histórica: promover um referendo que permita à sociedade catalã expressar sua decisão sobre a permanência ou não no Estado espanhol. Uma decisão colocada em termos não de todo excludentes, mas inequívocos: o Estado espanhol ou o novo Estado catalão na Europa. O mais do mesmo ou o desconhecido. E ainda mais surpreendente é que os cidadãos da Catalunha parecem decididos a confiar nele. Não em seu partido político, mas nele, na pessoa.

Há outros elementos que podem ainda ajudar a decifrar esse panorama que se desenha hoje na Catalunha, e nós os citamos por ordem de importância: Pep Guardiola, a crise econômica e suas consequências para as classes médias e o desprestígio da classe política.

A revolução da classe média. A profunda crise econômica que vivem os catalães supõe um brusco fim para o sonho da classe média. Esgotada pela falta de crédito; pelas altas constantes dos impostos; pelos cortes em políticas sociais, educação e saúde; e pelo desaparecimento da transcendência, o sentido quase religioso de sua contribuição ao mundo, a consciência de que seu trabalho permitirá a seus descendentes viver em melhores condições que as que eles vivem na atualidade, a classe média catalã, a mais poderosa e articulada do Estado espanhol, disse basta. Foi ela que inundou as ruas de Barcelona em 11 de setembro. Na realidade, a classe média de hoje atua - em grande parte graças às redes sociais - como fazia a classe operária nos anos 1960. Daí que se possa falar de uma revolução pacífica na Catalunha - mas que o pacífico não nos impeça de ver o revolucionário de seu "basta".

Essa classe média é que caracteriza, na verdade, a exceção catalã, que faz da Catalunha uma raridade na Península Ibérica. E é essa classe social que vê como a crise põe em risco sua própria existência. Frente a uma situação limite, ela busca uma saída - e é aqui que o projeto de Estado próprio catalão aproveita para constituir-se em esperança. Depositar expectativas quase religiosas em um projeto político é perigoso, mas é melhor do que nada. Certamente, é muito melhor que continuar no status quo. Mais do mesmo não é uma opção.

A 'marca Espanha' em decadência. O desprestígio da classe política espanhola, acusada de não saber gerir a crise, de ter-se rendido aos interesses dos bancos que parecem sair incólumes sem pagar por seus desmandos, o ridículo da família real caçando elefantes em Botsuana, amantes vivendo no Palácio de la Zarzuela e um genro que abusou da posição para enriquecer sem que ninguém dissesse nada são o retrato da Espanha de hoje. A suspeita de corrupção e abuso permanente paira sobre qualquer cargo público. Nulla ethica sine aesthetica (não há ética sem estética), como disse em seu tempo o filósofo Jose Maria Valverde antes de partir para o exílio em 1964. Nem todos são culpados, mas desapareceu da política espanhola a estética necessária para continuar depositando a confiança nos gestores do poder público. Rasgou-se o sortilégio que permite a uma democracia funcionar sob os lemas do pacto de Rousseau. Daí a legitimidade de recolocar tudo em questão.

A famosa marca Espanha é hoje um mau negócio. Somente a Seleção Espanhola de Futebol parece legitimá-la e isso porque a maioria de seus jogadores provém do F. C. Barcelona e seu conceito de jogo é uma cópia do que praticam os blaugrana (azuis-grenás).

O modelo Barça. Sempre o F. C. Barcelona. O treinador Pep Guardiola, quase sem querer (ou querendo), constitui-se em modelo, em referência vital e política para a sociedade catalã. Um novo líder, o guru preferido. O reivindicador dos valores que os catalães levamos décadas ouvindo de nossos avós durante a sobremesa a cada domingo: trabalho, esforço, frugalidade, honestidade e seriedade.

Com seu exemplo, o F. C. Barcelona de Pep Guardiola representa em escala o modelo da Catalunha que muitos anseiam. Um modelo integrador (Messi não fala catalão e ninguém o censura por isso), coeso na perseguição de um objetivo comum, um modelo respeitoso com o adversário (embora vulnerável, recordemos como Guardiola perdia as estribeiras com José Mourinho), um modelo em que o importante não é o êxito a qualquer preço, mas o trabalho constante e bem feito.

Hoje, Guardiola já não está, mas Artur Mas aprendeu a lição. O discurso do presidente dias antes de convocar as eleições de 25 de novembro não deixou lugar a dúvidas: é preciso ouvir o povo catalão como sublimação da democracia. E o povo, que não sabe muito bem o que vai se passar com ele, esgotado por mais de cinco anos de notícias nefastas sobre seu futuro, farto do ambiente de sem-vergonhas e ardilosos que pastam à vontade pela política em geral e em Madri em particular, vai falar. Apenas dois meses depois ter deixado claro nas ruas de Barcelona que era imperioso mudar de rumo, Artur Mas convoca os eleitores para decidir que rumo querem tomar.

Ninguém pode prever com exatidão qual será sua resposta. As sondagens desenham um mapa eleitoral bastante claro: a aliança entre Artur Mas e a classe média parece determinada e capaz de se articular em uma votação contundente. Se isso ocorrer, se a outrora prudente e sensata classe média catalã engolir o medo com que de Madri se tenta barrar o processo, se os catalães, sempre desconfiados e com uma leve tendência a se fazerem de vítimas, derem passagem a uma certa esperança, o 25 de novembro pode se converter numa data histórica.

No Café Canigó alguém pediu uma nova rodada de café. É verdade que a ambiguidade entre medo e esperança faz de todos nós marionetes ao vento. Mas, que se saiba, o primeiro nunca pode com a segunda. Uma das frases mais citadas de David Foster Wallace, o improvável escritor americano, podia se aplicar à realidade catalã de hoje: "You've got to decide what to worship" (tens de decidir o que venerar). Steve Jobs, em seu famoso discurso na Universidade Stanford, o reinterpretou como "you've got to decide what to love" (tens de decidir o que amar). Com essa combinação tão ianque de candura e ingenuidade, a Catalunha decidirá o objeto de seus amores.

Mercè Rodoreda, uma das escritoras de maior prestígio em língua catalã, vivia nessa mesma Praça del Diamant. Encerrada havia muitos anos em seu pequeno mundo do bairro de Gracia e enquanto passeava pela praça, ela disse que "a Catalunha é um país de surpresas". Quanta razão tinha sempre a boa Rodoreda! / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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