A celebridade longeva

Aos 100 anos, Niemeyer saboreia a fama que despontou quando era um rapaz de 30 e poucos

Hugo Segawa*, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2007 | 23h42

O sr. Arata é o dono da Naniyodo, livraria especializada em arquitetura em Tokyo. No segundo piso de sua livraria ele exibe alguns livros antigos ou raros, que não estão à venda. Entre as obras expostas está a versão japonesa de The Work of Oscar Niemeyer, de Stamo Papadaki (o primeiro livro estrangeiro sobre o arquiteto, publicado originalmente nos Estados Unidos), uma edição especial da revista Kokusai Kentiku de maio de 1952.Esse reconhecimento não é um episódio isolado. Em 2006, durante a 9th International DOCOMOMO Conference em Ancara, Turquia, uma arquiteta marroquina comentou comigo que, ao examinar a biblioteca de um arquiteto moderno de seu país, encontrou diversas publicações sobre Niemeyer naquele acervo. Desde meados dos anos 40 Oscar Niemeyer é uma celebridade.A Organização das Nações Unidas (ONU) foi criada em 1945 como um esforço de cicatrização das feridas da 2ª Guerra Mundial. Niemeyer foi um dos arquitetos da equipe que se reuniu em Nova York em 1947 para o projeto da sede ONU. Na cobertura da revista Time, as matérias sempre se referiam aos "ten top architects". Os anais da arquitetura pouco se recordam da maioria deles. Mas invariavelmente, Time elegia suas estrelas: "No alto no Rockefeller Center, em Manhattan, dez dos mais importantes arquitetos do mundo, reunidos na semana passada numa sala de conferências de paredes cinza, estiveram ocupados com argila e pranchetas. Eles estavam lá para o projetar uma sede para as Nações Unidas. O mais jovem, um brasileiro de 39 anos chamado Oscar Niemeyer, não tem motivos para se desculpar por sua juventude, porque ele tem experiência para além da idade. Enquanto a guerra imobilizava a maioria dos arquitetos no mundo, Niemeyer e o Brasil estavam construindo".A matéria da Time de maio de 1947 dedicava vários parágrafos a Niemeyer. Era um termômetro de seu prestígio: "O Brasil tropical enfrenta problemas arquitetônicos especiais. A luz do sol é ofuscante, o ar úmido e quente. Para circunscrever essa conjunção de elementos, Niemeyer, como outros jovens colegas, primeiro experimentou com sacadas e grandes janelas. Então, em 1936, um novo vento soprou na arquitetura brasileira. O famoso arquiteto francês Le Corbusier veio com suas colunas de concreto e o brise-soleil. Niemeyer aproximou-se do modernismo de Le Corbusier tão prontamente como uma geração anterior de brasileiros se apropriou do estilo belas artes do Segundo Império. Mais notavelmente, ele ajudou a projetar a nova sede do Ministério da Educação e Saúde (no Rio de Janeiro). O resultado, que parece algo como uma colméia sobre estacas, é freqüentemente descrito pelos arquitetos contemporâneos como um dos mais belos edifícios públicos no mundo".Desde então, Niemeyer se consolidou no coração dos conterrâneos. Na Pampulha, ele projetou um grupo de estruturas curvilíneas com panos de vidro (iate clube, cassino, restaurante). Lá ele também construiu uma igreja à Nissen-hut (um abrigo para guerra em abóbada inventada durante a 1ª Guerra) tão estranha na forma que o arcebispo católico se recusou a consagrá-la.As três matérias do semanário Time publicadas entre 1947 e 1949 relacionadas à sede das Nações Unidas mencionam apenas Le Corbusier e Oscar Niemeyer, além de Wallace Harrison, o coordenador do projeto. A construção do discurso sobre a curva na arquitetura, registrada em reminiscências do arquiteto evocando "as igrejas de Minas Gerais, as mulheres belas e sensuais que passam pela vida, as montanhas recortadas e esculturais e inesquecíveis de meu país", nasceu nesse período, mas provavelmente não como uma elaboração do próprio Niemeyer. É Lucio Costa quem escreveu em 1939, comentando o Pavilhão do Brasil na Feira Internacional de Nova York - cuja autoria divide com Niemeyer -, a primeira alusão à forma curva, presente no edifício: "Essa quebra de rigidez, esse movimento ordenado que percorre de um extremo a outro toda a composição, tem mesmo qualquer coisa de barroco - no bom sentido da palavra-, o que é muito importante para nós, pois representa de certo modo uma ligação com o espírito tradicional da arquitetura luso-brasileira". Do mesmo modo, foi Costa quem chamou a atenção para a referência feminina numa carta a Le Corbusier em 1939: "Oscar teve a idéia de aproveitar a curva do terreno - bela como uma curva de mulher - e o resultado foi uma arquitetura elegante e graciosa, com um espírito um pouco jônico, ao contrário da maior parte da arquitetura moderna, que se aproxima mais do dórico". Foi no final de 1946 que a revista francesa L?Architecture D?Aujourd?Hui publicou o mais lisonjeiro artigo e decerto a apreciação instauradora que acompanharia a crítica e mesmo o discurso do próprio Niemeyer dali em diante. Em artigo assinado por Pierre Guegen (de quem se sabe apenas que era poeta, gramático e amigo de Le Corbusier), a apreciação é metafórica e hiperbólica: "Que arquitetura surpreendente! E posto que nada mais nos desconcerta em arte depois do cubismo, dizemos bem rápido e alto: que deslumbrante, para os amantes de formas novas, pois aqui a originalidade sabe envolver a beleza. Mas o golpe de gênio do arquiteto Niemeyer é não se deixar submeter, a importância do objeto o supera. Esse jovem arquiteto soube, tirando proveito das lições do grande Le Corbusier, construir durante a guerra, com uma vibrante equipe o já célebre Ministério da Educação no Rio de Janeiro. E eis que ao deixar o triunfo da Linha Reta, do paralelismo de escaninhos, dessa retitude de arquivos gigantes, na qual se exprime um cartesianismo monumental, ao deixar também a escola lecorbusieriana, ele concebe um triunfo da Linha Curva, que é uma afirmação de sua própria originalidade".Ao que se saiba, trata-se do primeiro texto a apontar a rebeldia contra a linha reta, contra o discurso lecorbusieriano, identificando a originalidade de Niemeyer com a curva.Harry Seidler (1923-2006) foi o mais importante arquiteto moderno australiano. Vienense de nascimento, graduou-se em arquitetura no Canadá em 1944, obteve seu master em arquitetura em 1945-46 em Harvard, com Walter Gropius, foi assistente de Alvar Aalto no projeto do alojamento de estudantes no MIT, estudou design com Josef Albers e entre 1946-48 trabalhou com Marcel Breuer em Nova York. Seidler deixou os Estados Unidos rumo à Austrália com 25 anos de idade, e a caminho de lá se estabelecer numa virtuosa e vitoriosa carreira, ele fez uma escala no Rio de Janeiro para trabalhar com Oscar Niemeyer. Em seu livro The Grand Tour: Travelling the World with an Architect''''s Eye, editado em 2003, registrando as impressões pessoais e fotográficas da arquitetura de todos os continentes, Seidler rememora o motivo pelo qual decidiu passar pelo Brasil: "A influência arquitetônica portuguesa foi predominante durante o período colonial do país, entre os séculos 16 e 19. As cidades históricas preservadas, como Ouro Preto, são ricas em admiráveis igrejas barrocas do século 17. Mas, apesar de estas serem bem protegidas e merecerem visita, o foco no Brasil está em sua arquitetura moderna. Era isso que eu tinha como determinação de experimentar durante minha estada lá, a caminho para a Austrália, em 1948. Durante três meses trabalhando com Oscar Niemeyer, o comovente desenvolvimento de sua arquitetura teve um duradouro efeito em mim. Naquele tempo, logo após a 2ª Guerra Mundial, virtualmente não havia arquitetura moderna comparável nos Estados Unidos e edifícios como o novo Ministério da Educação no Rio eram irresistivelmente convincentes como arquitetura apropriada para nosso tempo". Não obstante ter estudado e trabalhado diretamente com os avatares da Bauhaus nos Estados Unidos, as únicas palavras sobre a época de sua formação são dedicadas a Oscar Niemeyer. E conclui sua apreciação sobre o mestre - que servem para concluir estas minhas anotações: "Um de seus mais recentes trabalhos (aos 90 anos de idade!) é o museu de Niterói. Esta ousada concepção e estrutura está além da crença ou descrição. Depois de uma visita pode-se sentir confiança de que há esperança para nossa época, que a arquitetura se desenvolverá para uma forma de arte que pode tomar seu lugar ao lado do melhor que o homem já construiu no passado". *Hugo Segawa é arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São PauloSÁBADO, 15 DE DEZEMBROO legionário e sua obra Niemeyer, que projetou a sede do PC francês em Paris, recebeu a comenda da Legião de Honra da França, em cerimônia no Rio, na quarta. Ontem, o Estado publicou Oscar Niemeyer, 100 anos/O escultor de horizontes, um caderno em homenagem ao centenário.

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