A censura russa,como nos velhos tempos

O processo de um autor contra um crítico que falou mal de seu livro abre precedente perigoso

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 22h36

As gazetas daqui nos sonegaram uma notícia importante, de cujos detalhes só me inteirei acessando a versão online do jornal Moskovskii Komsomolets. Um jornalista da província russa do Daguestão resenhou um livro de contos, o autor não gostou do piche que levou, meteu um processo no crítico por "danos morais", pediu uma indenização - e ganhou. Que eu saiba, um caso inédito no mundo.

É um alívio saber que o Daguestão, fronteiriço à Chechênia e ao Azerbaijão, fica muito longe daqui e razoavelmente distante até de Moscou, mas a condenação do crítico (a pagar o equivalente a US$ 1.000 ao autor melindrado) abriu um precedente perigoso. Criou-se uma jurisprudência de consequências imprevisíveis, observou um colunista do Moskovski Komsomolets. Se um autor pode processar um crítico por conta de um comentário adverso, o que impediria um leitor de levar aos tribunais o autor de um livro que o tivesse desagradado profundamente?

Que ninguém se iluda: a condenação do crítico, ainda que de uma longínqua província caucasiana, não desafina muito dos absurdos jurídicos que vêm ocorrendo em Moscou e outras grandes cidades da Rússia, desde que Vladimir Putin assumiu o poder.

Veja o caso do escritor Vladimir Sorokin, o festejado autor de A Fila. Primeiro intelectual molestado pelo governo depois da abolição da censura, acusaram-no, em 2002, de haver escrito um romance pornográfico e só não o desterraram para um gulag porque os gulags foram desativados quando a União Soviética se esfarinhou. Mas o perseguiram implacavelmente; a ele e a seu editor, Alexandre Ivanov. Como nos velhos tempos? Como nos velhos tempos. Sem os campos de trabalhos forçados. O modelo de Putin não é Stalin, mas, segundo ele próprio, Pedro, o Grande. Audácia do blefe.

Publicado em 1999, O Toicinho Azul (Goluboe Salo), o romance que complicou a vida de Sorokin, é um misto de thriller político com ficção-científica surrealista, uma vertigem pós-moderna no compasso de J. G. Ballard e Pasolini, segundo Jamey Gambrell, tradutor de vários textos de Sorokin para o inglês (o mais recente, Ice, foi há pouco editado pela New York Review of Books). Começa numa Rússia futurista, com cientistas e fanáticos religiosos em pé de guerra, e pula de volta à Rússia stalinista, com um meteorito caindo sobre o Teatro Bolshoi, imbricando gozações em comunistas, nacionalistas, liberais, dissidentes e crentes de todas as religiões. É bastante ecumênica a lâmina de Sorokin.

"Meu romance é sobre a morte da literatura russa", defendeu-se o escritor. Gambrell detectou no livro pastichos de Tólstoi, Boris Pasternak e outros patrícios. Seus desafetos, porém, só tiveram olhos para as passagens mais polêmicas, mais escabrosas, mais pasolinianas, por assim dizer, como uma cena de sexo protagonizada por Stalin e Kruchev.

Quem deflagrou a campanha contra o romance foi a organização Idushchie Vemste (Andando em grupo), massa de manobra juvenil que as más línguas dizem servir a Putin como a Juventude Hitlerista serviu ao Führer. Fanáticos defensores dos valores tradicionais da velha Rússia e moralistas ao extremo, saíram às ruas, sete anos atrás, insuflando a população a desfazer-se de livros "amorais" e "marginais" (leia-se: inspirados pela cultura ocidental). Nesse auto-da-fé, em que até as obras de Marx foram trocadas por autores patrióticos e reminiscências heróicas da Segunda Guerra, Sorokin e companheiros de geração, como Viktor Erofeyev e Dmitri Prigov, sofreram os golpes mais pesados.

Não é segredo para ninguém, na Rússia, que o governo incentiva e protege a garotada do Idushchie Vemste. Somam milhares, são muito organizados e sempre desfilam nas cerimônias cívicas com a efígie de Putin na camiseta. Não têm por que se preocupar com despesas de passagens de trem, ingressos para shows, cinemas e teatros, benesses asseguradas pelo governo. Talvez não sejam, a longo prazo, 100% controláveis, mas até agora serviram bem às "reais intenções" de Putin e seus comandados. O principal alvo da campanha contra Sorokin teria sido o então ministro da Cultura, Mikhail Shvydkoi, tido como o mais liberal e intelectualmente sofisticado ocupante do cargo até hoje (acabou substituído por Alexandre Sokolov, em 2004), e o editor Ivanov, que tem diversos autores controvertidos sob contrato, além de Sorokin.

Tudo isso é parte de uma luta intestina, em marcha desde a década passada. Muitos russos, arrasados com a transformação do país numa potência de segunda classe e incomodados com o "bespredel" (o caos, a ausência de lei e ordem) que se instalara no governo de Boris Yeltsin, passaram a identificar toda e qualquer forma de liberdade como algo nocivo, venenoso, antirrusso. Até hoje sonham com uma restauração das "antigas regras", com a centralização do poder; só usam a palavra democracia acoplada a adjetivos como "direta", "da lei", mas não "do proletariado", por ser de outro tipo o totalitarismo pelo qual suspiram. Certas manobras de Putin sugerem um "pinochetismo russo".

Putin manipula com eficácia as frustrações, o espírito nostálgico e o inflamado nacionalismo de boa parte do eleitorado, construindo sua própria mitologia histórica, com elementos estatísticos do império russo, anterior a 1917. Stalin? Funciona, para ele, como uma espécie de Rebeca, o líder inesquecível. Reconheceu seus crimes, publicamente, mas não quer que ninguém mais, muito menos historiadores estrangeiros, continuem remexendo no lodaçal. Uma pesquisa revelou, em 2005, que 42% dos russos e 60% dos russos com mais de 60 anos acalentam o surgimento "de um líder como Stalin". "Como" nem sempre é sinônimo de "igual". Putin percebeu a sutileza.

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