David Gray/Reuters
David Gray/Reuters

A China pauleira

Migração han em Xinjiang, incentivada por Pequim, provoca orgulho étnico e a fé islâmica dos uigures

Edward Wong, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2009 | 23h43

Algumas mulheres olhavam enfurecidas através dos seus véus negros quando as tropas de choque as cercaram. Outras balançavam no ar carteiras de identidade de parentes perdidos . Punhos erguidos, lágrimas nos olhos, exigiam a libertação dos filhos e maridos capturados pela polícia dias antes, depois das rebeliões de uigures muçulmanos. E quando um grupo de mulheres, algumas centenas delas, suplicou a atenção de jornalistas que faziam uma visita patrocinada pelo governo à região, elas enfim tiveram a oportunidade de falar das preocupações mais profundas que estão na raiz desses violentos tumultos étnicos que atingem a China depois de décadas.

"Eles não respeitam nosso modo de vida", indignou-se uma uigur de 26 anos, chamada Guli. "Queremos nossa dignidade. Queremos apenas justiça, igualdade."

Uma série de medidas adotadas pelo governo dessa desértica região de Xinjiang, na porção oeste do país, uma área pouco povoada que abrange cerca de um sexto das terras continentais da China, há anos vem levando muitos dos 10 milhões de residentes uigures a acreditar que sua cultura e seu modo de vida estão sendo agredidos pelos hans, grupo étnico dominante no país. É o que dizem os moradores locais, estudiosos estrangeiros e recentes levantamentos sobre essa região. O governo impôs restrições à prática religiosa. O ensino da língua uigur nas escolas vem sendo eliminado gradativamente. E as melhores oportunidades econômicas vão para os hans, que abraçam desde funções empresariais a trabalhos migrantes.

Os uigures são o maior grupo étnico de Xinjiang, mas a migração han, estimulada em parte por incentivos do governo, mudou rapidamente a demografia da região. Dados de recenseamento mostram que, em 2000, os hans constituíam 40% da população, um salto enorme em comparação com os dados de 1949. Sob o Partido Comunista chinês, os hans sempre controlaram o poder em Xinjiang. Wang Lequan, secretário do partido da região, é da etnia han e suas políticas autoritárias inspiraram sistemas de controle em outras regiões de minorias étnicas da China, incluindo o Tibete. "Fundamentalmente, a relação entre as etnias uigur e han é de colonizado e colonizador", define Nicholas Bequelin, um pesquisador da Human Rights Watch que tem vários trabalhos escritos sobre as políticas adotadas em Xinjiang.

Essa dinâmica seguramente lançou as bases para o surto de rebeliões de domingo passado, em que 156 pessoas foram mortas e mais de mil ficaram feridas, quando uigures em cólera atacaram civis hans e enfrentaram as tropas de choque da cidade. Os tumultos começaram como um protesto contra a maneira como o governo estava tratando uma rivalidade entre uigures e trabalhadores de uma fábrica han no sul do país.

Na tarde de terça-feira, milhares de chineses hans armados com cassetetes, pás, canos e machadinhas tentaram marchar para o bairro uigur para vingar os civis hans mortos no domingo. Tropas paramilitares tentaram conter a multidão com gás lacrimogêneo, mas um primeiro grupo já tinha se lançado a uma batalha com uigures posicionados nos telhados das casas, perto do Mercado Erdaoqiao, exatamente onde os tumultos começaram no domingo.

Muitos chineses han dizem que os uigures, assim como as outras 55 minorias étnicas da China, já são generosamente beneficiados com as políticas do governo. As mulheres uigures, por exemplo, podem ter mais de um filho sem precisar pagar multa, ao contrário das mulheres hans. Os estudantes uigures têm pontos extra nas notas escolares quando prestam exames de ingresso na universidade. Mas, em se tratando de questões que dizem respeito basicamente à identidade étnica, o governo adota uma linha dura, alegam os uigures.

A grande maioria deles é muçulmana sunita, ainda assim a prática do islamismo é rigorosamente circunscrita. Funcionários do governo não têm permissão para praticar a religião. Os imãs não podem ensinar o Alcorão em particular, e o estudo do árabe só é autorizado em escolas do governo credenciadas para tanto. Dois dos cinco pilares do Islã - o Ramadã, mês sagrado de jejum, e a peregrinação à Meca - são estritamente controlados; os estudantes e funcionários do governo são obrigados a comer durante o Ramadã; e os passaportes dos uigures são confiscados para forçá-los a participar das viagens organizadas oficialmente à Meca. O governo começou a confiscar os passaportes em 2006, o que dificultou a vida especialmente dos empresários que viajam para países vizinhos.

Há três anos, em seu relatório anual sobre liberdade religiosa no mundo, o Departamento de Estado dos Estados Unidos criticou especialmente Xinjiang no contexto chinês: "As autoridades na Região Autônoma Uigur de Xinjiang controlam rigorosamente a prática religiosa, enquanto que, em outras áreas do país, os muçulmanos desfrutam de maior liberdade nesse campo". Na mesma terça-feira, Abudurehepu, líder religioso em Xinjiang afinado ao governo, afirmou numa coletiva de imprensa que "a nossa liberdade religiosa é respeitada", observando que a província tem mais de 2 mil mesquitas. Segundo Abudurehepu, "o partido e o governo têm uma política étnica muito boa, como a de enviar as crianças uigures para escolas de língua uigur".

Na verdade, o governo vem abolindo gradualmente o uso da língua uigur nas escolas. Muitos pais sabem que é importante que seus filhos aprendam o mandarim. No entanto, eles estão contrariados com o desaparecimento de sua língua nativa do sistema educacional. Existem algumas escolas no sistema bilíngue, mas no geral elas obrigam os alunos a estudar mais temas em mandarim, relegando a língua uigur a um segundo plano.

Um relatório da Anistia Internacional elaborado e divulgado este ano, em que são abordadas as ameaças à identidade uigur, traça um histórico do desaparecimento gradativo da língua uigur na educação, que teve início com uma política implantada nos anos 90. Ali se tratou de abolir o uigur como língua de ensino nas universidades. Hoje, na universidade de Xinjiang, em Urumqi, somente as aulas de poesia são dadas em uigur, segundo o mesmo relatório. Em 2006, medidas políticas adotadas pelo governo tornaram o mandarim a principal língua no pré-primário.

Desde que o governo central iniciou sua campanha de "desenvolvimento para o Ocidente", na década passada, a economia de Xinjiang cresceu rapidamente e o padrão de vida dos seus habitantes melhorou. Mas muitos uigures se queixam do alto nível de desemprego e da crescente diferença de salários em relação aos hans, que controlam os maiores e melhores setores da economia de Xinjiang: petróleo, agricultura e construção. A maior parte dos contratos e empregos são dados para outros hans. "Os uigures sentem-se excluídos do processo", diz um ex-morador de Kashgar, um oásis perto da fronteira ocidental da China, onde mais de 200 manifestantes se reuniram na segunda-feira.

As "bingtuan", enormes fazendas criadas pelo Exército na década de 50 para empregar soldados desmobilizados, são as grandes fontes de receita de Xinjiang. E também nelas o desequilíbrio de oportunidades parece gritante: o pesquisador Nicholas Bequelin garante que mais de 90% dos empregados nessas fazendas são da etnia han.

As autoridades chinesas negam que as políticas do governo contribuíram para esse conflito étnico. Afirmam que os responsáveis pelas tensões atuais são pessoas como o Dalai Lama, líder espiritual do Tibete, ou, no caso de Xinjiang, Rebiya Kadeer, empresária uigur e ex-prisioneira política que vive hoje em Washington. Na terça-feira, quando milhares de hans portando armas improvisadas tentaram atacar o bairro uigur, o secretário do partido de Urumqi subiu no capô de um carro e suplicou para que eles retornassem às suas casas. "Acabem com Rebiya", gritou e sugeriu o secretário Li Zhi.

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