Adolfo Frediani/Editora Zahar
Adolfo Frediani/Editora Zahar

'A ciência é poderosa, mas não pode ser guiada pela arrogância', diz o físico italiano Guido Tonelli

Cientista foi um dos responsáveis pela descoberta do bóson de Higgs e agora publica no Brasil 'Gênesis', um livro em que explica a origem do universo

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2021 | 09h00

“Para os bacubas do Congo, quem criou o universo foi o grande Mbombo, senhor de um mundo obscuro que vomitou o Sol, a Lua e as estrelas para se livrar de uma terrível dor de barriga.” Essa passagem caberia em algum livro de antropologia, mas é um trecho de um livro do físico italiano Guido Tonelli. O professor da Universidade de Pisa e pesquisador da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern) é um dos responsáveis pela descoberta do bóson de Higgs, apelidado de “partícula de Deus”, em 2012, e publica agora no Brasil Gênesis: A História do Universo em Sete Dias, em que narra, com impressionante grau de detalhamento, como surgiu o universo. 

Em vez de ser um livro para aficionados por física, Gênesis propõe um paralelo interessante entre as mais recentes descobertas da ciência sobre o Big Bang e as cosmogonias presentes em religiões e mitologias ao redor do mundo. Tonelli mostra que, embora as lendas sejam diferentes entre si, quase sempre o universo surge do caos até que uma intervenção sobrenatural traz ordem. Para o cientista, essa passagem dos mitos é fundamental, pois “quando a natureza é plasmada de modo a seguir as regras ditadas por quem trouxe ordem ao mundo, a frágil comunidade humana pode então sobreviver e se reproduzir”.

A ênfase nos sete dias do Gênesis bíblico foi pensada, segundo Tonelli, quando ele notou que queria narrar sete grandes eventos críticos que decidiram a origem e evolução do universo como o conhecemos. Na verdade, apesar da magnitude desses acontecimentos, dizer que são “grandes” é uma imprecisão: mais da metade do livro se passa antes de o universo completar um segundo – e, no capítulo seguinte, o cientista pula 380 mil anos, para a formação dos primeiros elementos químicos. 

Ao ir do infinitamente grande ao infinitamente pequeno, o livro ludibria nosso senso de escala de primatas e empreende uma viagem abstrata que fica entre o psicodélico e o poético pela fronteira do conhecimento humano. Tonelli define com bastante honestidade até que ponto trata de fatos comprovados e onde começa a especulação, embora nada ali seja mero palpite. 

Por meio do contraste entre mitologia e ciência, Tonelli mostra ainda que, embora o progresso do conhecimento tenha produzido um mundo desencantado, sem divindades nem explicações mágicas para os fenômenos, nós não devemos nos deixar de maravilhar com as explicações da física moderna: “A ciência narra nossas origens a partir de uma história muito mais imaginativa e poderosa do que as narrativas mitológicas.”

Guido Tonelli respondeu às seguintes perguntas do Estadão por videoconferência:

O sr. narra tudo o que sabemos sobre a origem do universo, mas também fala de muitas questões que ainda não solucionamos. Quando resolveremos essas dúvidas, se é que resolveremos? E se isso acontecer, teremos perguntas ainda mais complicadas?

Separei o que sabemos com certeza e o que ainda buscamos comprovação. Descobertas como essas são contadas em décadas, mas estou muito convicto de que os grandes pontos de interrogação serão resolvidos em poucas décadas. Então, isso abrirá caminho para questões adicionais. Vi esse mecanismo acontecer diversas vezes: quando descobrimos algo, começamos a fazer perguntas que nem poderíamos conceber antes. 

Logo no início, seu livro explica o funcionamento do vazio que precedeu o Big Bang, e mostra que, pelas pequenas flutuações quânticas, esse vazio não é tão vazio assim. Isso significa que o desequilíbrio que provocou o Big Bang era previsível e ocorreria de qualquer forma, dado o devido tempo? 

Se esse mecanismo estiver correto, não há razão por que não poderia produzir nosso universo, e até múltiplos outros universos, como nas teorias de multiversos. Mas esse ponto ainda é apenas especulação. Não pudemos ainda provar que isso é correto, tampouco descobrimos outros universos. No entanto, logicamente, intelectualmente, o mecanismo é tão simples que não deveríamos considerar que nosso universo seja muito especial. Ele pode ser só um em uma infinidade de universos. Ou seja, nós já olhamos para o céu e nos consideramos pequenos; então deveríamos nos considerar ainda menores. De um lado, podemos ver a beleza do mecanismo no qual estamos vivendo. É realmente extraordinário. Mas então nós devemos nos sentir um inseto, menores que um inseto, uma parte muito, muito pequena de algo imenso. Deveríamos ser muito humildes, não podemos ser arrogantes em um cenário como esse.

O sr. teve medo de escrever um livro de física criando um paralelo com algo tão polêmico quanto a religião?

Eu temi um pouco, pois não queria ser ofensivo e desrespeitoso com as pessoas que acreditam nos mitos de criação como o da Bíblia. Muitos conhecidos e amigos religiosos com quem falei, porém, ressaltaram que a descrição do Gênesis bíblico é simbólica, não é algo para se levar ao pé da letra. Eu queria escrever para o público em geral, até para quem odeia ciência ou quem nunca leu um livro de ciência porque acha um assunto muito distante de sua vida. Então ordenei sete catástrofes que moldaram o universo para ele ser como é hoje. Essa foi a origem do paralelismo, que eu gosto porque nos lembra de que a necessidade de ter um mito de origem está enraizada em cada um de nós. Particularmente agora, nesse período trágico, precisamos ainda maisnos lembrar de onde viemos. Quem tiver um entendimento melhor de suas origens terá ferramentas mais eficientes para poder continuar com sua vida.

Nos últimos três séculos, a ciência nos trouxe um mundo desencantado, sem magia ou misticismo. O que perdemos e o que ganhamos com esse processo?

Em uma questão de poucas semanas, cientistas foram capazes de detectar um vírus novo; em meses, puderam descobrir seu funcionamento; em menos de um ano, produziram várias vacinas. Essa é uma demonstração do poder da ciência em poucas centenas de anos. Isso seria impossível há cem anos. Porém, também há algo que perdemos, e que eu não falo no livro, mas que é importante. Há sempre o risco de nos tornarmos narcisistas, de achar que podemos fazer tudo, de acreditar que temos superpoderes. A ideia de que, se não há um deus e nós compreendemos a natureza ao nosso redor, então nós somos deuses. Essa é uma atitude arriscada. Vivemos em um sistema de equilíbrio extremamente frágil e, se quebramos esse equilíbrio, não há proteção, porque o sistema em que vivemos é muito mais complexo do que cada indivíduo. Isso é perigoso, pois podemos quebrar mecanismos que estão aqui há milhões de anos. A ciência é poderosa, mas não pode ser guiada pela arrogância. A biologia pode manipular genes para criar terríveis desastres ou produzir curas miraculosas; temos uma faca em mãos para cortar uma maçã ou matar uma pessoa. Devemos cultivar o sentimento de ser uma espécie diminuta num planeta pequeno em uma galáxia anônima entre muitas.

A pandemia de covid-19 nos mostrou a importância da ciência de uma forma prática, mas ainda assim muitas pessoas e até governos se recusam a aceitar fatos científicos básicos para lidar com essa crise. A ciência falhou na guerra de narrativas?

É um paradoxo. Temos o exemplo de nosso primeiro-ministro [da Itália, Giuseppe Conte], de Boris Johnson, Bolsonaro, Trump, que tentaram negar no começo e depois tiveram que tomar medidas. Eles negaram fatos básicos provavelmente porque tentaram atrair votos, nunca fazem uma declaração sem pensar na possibilidade de ser reeleitos. Essa atitude vem do fato de que uma parte, não a maioria, mas uma significativa da sociedade é extremamente hostil à ciência. Eu tenho uma explicação para isso. Todo mundo hoje usa produtos da tecnologia que parecem mágicos. Usamos carros e trens modernos, televisores, smartphones, GPS, mas não sabemos o que está por trás disso, que é a ciência. É a mecânica quântica e a relatividade geral. Às vezes, os políticos vêm visitar o Cern e eles querem saber a aplicação prática da nossa pesquisa para a sociedade, e eu tenho de explicar que a nossa sociedade é o produto das descobertas da ciência do último século. Se eu tivesse um botão vermelho que desliga a física quântica, o mundo todo pararia. Sem o conhecimento científico, as empresas nunca seriam capazes de produzir tecnologia. Com objetos que são tão poderosos, as pessoas começam a se tornar medrosas. Há algo muito poderoso cujo funcionamento é completamente obscuro. Então elas começam a acreditar em teorias conspiratórias, não acreditam que o homem foi à Lua, acham que vacinas são perigosas. E todas essas pessoas usam tecnologias modernas para divulgar essas ideias pela internet. Esse é o paradoxo: se você usa a tecnologia e não sabe como ela funciona, você se torna paranoico. Mas eu sou paciente. Alguns argumentos são irritantes, mas sempre tento ouvir e explicar. A ciência é a capacidade de explicar.

 

Tudo o que sabemos sobre:
ciêncialivroBig Bang

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.