A cilada do populismo

Ao analisar o fenômeno Sarah Palin, a mídia americana não deveria abdicar de seu papel questionador

Lúcia Guimarães*, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2008 | 21h35

Sacudir a cabeça num estupor de incredulidade tornou-se um gesto freqüente na televisão americana, nos últimos dez dias. Na quinta-feira à noite, ao ouvir um trecho da entrevista que John McCain concedera a dois jornalistas conhecidos, no ambiente platônico de um fórum da Universidade Colúmbia, um moderado comentarista nova-iorquino perguntou ao âncora da CNN: "Posso dizer um palavrão?" Ele perdera a paciência quando o senador John McCain disse que condenava o sarcasmo republicano contra o passado de ativismo comunitário de Barack Obama. Afinal, presa ao script dos redatores da campanha, em comícios ao lado do senador que sorria e aplaudia, Sarah Palin havia repetido exatamente a mesma acusação contra Obama, feita do pódio da Convenção. A não ser que o ex-prisioneiro de guerra do Vietnã esteja sofrendo de surdez, a afirmação de McCain, diante da "elitista" platéia da Colúmbia, era pura desfaçatez.Num esforço calculado e coordenado, a Convenção Republicana deu o pontapé inicial numa tática preferida de Karl Rove, o articulador das duas vitórias de George W. Bush. Os jornalistas voltaram a ser empacotados como a elite liberal do nordeste americano, insensível ao homem comum. Gente que come rúcula e se formou nas melhores e mais tradicionais universidades do país. Como se a nata republicana tivesse feito telecurso, concluído apenas o segundo grau, fizesse todas as refeições gordurosas em cadeias de fast-food e não tivesse comandado oito anos de erosão do padrão de vida do homem comum que tanto manipula a seu favor. Numa guinada do destino digna de tragédia grega, foi o mesmo Rove que, em 2000, a serviço de Bush, articulou ataques pessoais tão virulentos que McCain foi trucidado na primária da Carolina do Sul. Em 2004, McCain passou a noite final da convenção, que mais uma vez consagrava Bush, comemorando seu aniversário com um grupo de estrelas do jornalismo americano, "nossa gente", como disse então um de seus assessores.O ataque à mídia surtiu efeito. Vários comentaristas passaram da perplexidade sobre o despreparo de Sarah Palin a declarações baba-ovo sobre o novo fenômeno do Alasca. A mídia americana, como bem lembrou o articulista E. J. Dionne Jr., no Washington Post, tem uma dívida com o público e ela não será paga com apelação populista. Nem com timidez para não correr o risco de ser acusada de partidária.Uma coisa é analisar a origem da popularidade instantânea da mulher que tem uma narrativa pessoal eloqüente e deu uma injeção na veia da campanha republicana. Outra coisa é abdicar do papel da imprensa. Fazer perguntas, radiografar as escolhas do candidato e não ter medo de falar na "Nevasca de Mentiras", título da última coluna do comedor-de-rúcula Paul Krugman, no New York Times. Mesmo os mais blasé observadores da baixaria na política ficaram perplexos com o anúncio da campanha de McCain na televisão em que Barack Obama é acusado de ser a favor da educação sexual no jardim de infância, uma distorção patética de uma proposta do democrata para proteger crianças de predadores sexuais.Em 2000, a imprensa abandonou Al Gore, o legítimo vitorioso daquela corrida presidencial, na contestação do resultado da eleição. Em 2002, até a imprensa liberal e pró-rúcula falhou na investigação dos argumentos que precederam a invasão ao Iraque.Ao sentar-se na quinta-feira diante do sisudo âncora Charlie Gibson, da rede ABC, para a primeira entrevista desde que caiu de pára-quedas no cenário nacional, Sarah Palin tinha sido treinada como uma atleta para o triatlo. Ela não sabia o que estava dizendo, mas sabia dizê-lo. (Atenção vestibulandos, Sarah recomenda o método das fichinhas com "talking points" para cada assunto - Economia, Israel, Comércio Internacional, Meio Ambiente, etc.) Ela demonstrou coragem e sangue-frio num momento emblemático - o sessentão culto e patrício sabatinando a interiorana de aparência jeca, que freqüentou seis universidades fracas em cinco anos. A imagem dos dois ilustrava a velada luta de classes vendida nos discursos da governadora. Sarah Palin saiu-se bem, como se saem bem concorrentes dos programas de auditório. Sabe-se que o establishment republicano, quando os microfones estão desligados, exprime seu desgosto pela escolha. Demonizar Sarah Palin é perda de tempo. Ao repetir como ventríloqua que veio para desbancar a rede dos "old boys" na política, ela projeta a imagem quixotesca que é uma constante irresistível no imaginário norte-americano. Só que Karl Rove e seus old boys não são moinhos de vento. A popularidade da candidata a vice de McCain ainda vai sugerir múltiplas explicações. Mas não é injusto suspeitar que ela atrai um tipo de eleitor marginalizado pelas transformações econômicas, negligenciado pelos dois partidos e alistado pelo populismo de direita a ponto de votar contra seus próprios interesses. Sarah Palin é gente como a gente. Assim como meu nome é Napoleão Bonaparte. *lgsamambaias@gmail.com

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