A condessa e a poeta

De como a atrapalhada espiã italiana Giuseppina Paci tentou chantagear a Nobel Gabriela Mistral por seu antifascismo

Wilson Tosta , O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h08

Um relatório mantido secreto por 70 anos no Arquivo Histórico do Itamaraty indica que a poeta chilena Gabriela Mistral, cônsul no Brasil nos anos 1940, foi, por causa de suas posições antifascistas, alvo de desastrada operação de chantagem movida por espiões da Itália, em 1941 e 1942. Em depoimento no Ministério da Justiça e Negócios Interiores encaminhado ao ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, a escritora descreve a ação dos agentes em Petrópolis, nos primeiros anos da 2ª Guerra Mundial. E apresenta como vilã uma personagem cômica: a condessa italiana Giuseppina Paci, suposta comandante da tentativa de chantageá-la.

"(A condessa) Anda comumente mal vestida, estando até com as meias rotas quando de uma das visitas à senhora Mistral", assinala o autor do relatório, o secretário da Seção de Segurança Nacional do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, Cândido Álvaro de Gouvea. "Queixa-se de dificuldades, alegando que uma sua filha que se acha em Roma e que se encarrega da propaganda radiofônica fascista para a América do Sul não pode auxiliá-la, o mesmo acontecendo a um filho que se acha em Buenos Aires (...)" Gouvea, porém, adverte: "A senhora Mistral afirma que, conquanto sejam muito estranhas as atitudes da condessa Paci, não se trata absolutamente de uma louca (...)".

Gabriela Mistral - nome literário de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga - conhecera a condessa por meio do consulado geral do Chile no Rio. Assim, não estranhou quando Giuseppina, no início de 1941, a procurou no consulado, em Petrópolis, para uma visita, acompanhada de um "senhor muito bem trajado e aspecto muito correto", apresentado como marquês de Terragona, título explicado porque antepassados do visitante teriam lutado na Espanha. A poeta também não achou esquisito o convite para participar de uma conferência que seria presidida, em Petrópolis, por um representante da Embaixada da Itália. E não viu problema em receber Giuseppina em maio de 1942, quando, depois do rompimento do Brasil com o Eixo, o cerco italiano aumentou.

"(A condessa) desejava (...) que (a cônsul) escrevesse uma carta ao presidente Vargas, apresentando-a, pois tinha grande interesse em obter uma entrevista com o presidente", diz o texto. A diplomata recusou-se, dizendo que não lhe cabia se dirigir ao presidente apresentando um cidadão de um terceiro país. A condessa, então, sugeriu que sua nacionalidade italiana fosse omitida e ditou os termos da carta, em que dizia querer tratar de assunto político. Chegou a mostrar a carta de um suposto secretário de Vargas, dizendo que teria muito prazer em obter a entrevista com o presidente. A diplomata sugeriu-lhe que insistisse nesse caminho para tentar a audiência, e Giuseppina foi embora.

Duas horas depois, a condessa reapareceu. Perguntou à diplomata se conhecia o sr. Grecco, "representante da Agência Stefani, no Rio de Janeiro" e funcionário da embaixada italiana, onde não tinha posto por ser "um dos funcionários de Mussolini". Grecco, disse Giuseppina, tinha duas cartas de Gabriela com acusações políticas ao embaixador e ao cônsul-geral do Chile no Brasil. Giuseppina "convidou-a" para um encontro com Grecco "para tratarem do resgate dos dois documentos". A diplomata afirmou que sua assinatura seria fácil de falsificar, o que irritou a visitante, segundo quem "o senhor Grecco era pessoa incapaz de uma falsificação".

Furiosa, Giuseppina foi embora, e Gabriela advertiu sua secretária que a italiana deveria ser despachada caso voltasse. Foi o que ocorreu uma hora depois, quando a condessa armou um escândalo para falar com a poeta, tentando fazê-la escrever uma carta a Grecco na qual reconheceria a existência das cartas comprometedoras e dando à italiana poderes para resgatar os documentos. Fracassada a tentativa, Giuseppina disse que a obstinação de Gabriela "talvez lhe custasse muitos dissabores".

"Posteriormente a esses fatos lembrou-se a senhora Mistral de que, após o falecimento do presidente Aguirre, de quem era amiga, escrevera a sua viúva confessando nunca ter dado a conhecer aquele (o presidente) os motivos que a impediam de frequentar a embaixada de seu país no Rio, para não juntar mais um aborrecimento às suas múltiplas preocupações, visto como muito haveria ele de se preocupar, afirmava, se soubesse das doutrinas políticas adotadas e pregadas na embaixada pelo representante de seu governo no Brasil", conta o relatório. A diplomata recordou outra carta, a um amigo de Washington, relatando que a opinião pública chilena não estava de acordo com a orientação de seu representante na conferência de chanceleres (possivelmente a realizada no Rio, em 1942, na qual Chile e Argentina foram contra romper relações com o Eixo).

Gabriela ressaltou nunca ter feito críticas por carta ao cônsul-geral chileno, mas especulou que os documentos em poder de Grecco poderiam ser aqueles que mandara à viúva de Aguirre e ao amigo americano. "Tal hipótese a coloca numa situação de permanente receio, pelo temor de que sua correspondência esteja sendo desviada de seu destino (...)", prossegue o texto. "A condessa Giuseppina Paci, cujo nome figura na relação das pessoas que devem deixar o país, acompanhando a representação diplomática italiana, tem ido várias vezes a Petrópolis. Não figura na referida lista pessoa com o nome de 'Grecco'".

O relatório, de 21 de maio de 1942, não detalha o destino dos supostos agentes da Itália. Gabriela Mistral, poeta que escrevera sobre o amor materno, recebeu o Nobel de Literatura em 12 de dezembro de 1945. Morreu em 10 de janeiro de 1957, vítima de câncer no pâncreas, em Nova York.

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