Imagem Sérgio Augusto
Colunista
Sérgio Augusto
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A copa dos memoriosos

Para que acumular dados depois do Google? Eis o lapso do torneio de hipermnésicos

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

25 Maio 2014 | 03h11

XMT não é uma empresa de Eike Batista mas o acrônimo de um torneio reunindo as melhores memórias do planeta: X de Extreme, M de Memory e T de Tournament. É uma Copa do Mundo cerebral, confrontando os 16 maiores "atletas da memória", não uma olimpíada artístico-cultural como a que a Academia Sueca promoveu discretamente entre os Jogos de 1912 e 1948. Patrocinado pela empresa de pesquisas neurocientíficas Dart Neuroscience e a Universidade de Washington em St. Louis, sua arena este ano foi San Diego, na Califórnia.

Arena é modo de dizer. Os confrontos do XMT se dão no palco de um pequeno auditório. Apesar do enorme interesse pela gincana (quem não se amarra em qualquer coisa que diga respeito à memória?), sua plateia é sempre irrisória: uma centena de selecionados espectadores. Mais gente poderia comprometer a concentração dos contendores.

O formato inspirou-se nas tradicionais competições consagradas pela televisão, como o show Jeopardy e aqueles duelos entre estudantes versados em ortografia e cálculos matemáticos. Mais que um folguedo, como era, por exemplo, o velho Esta Noite se Improvisa, da TV Record, com celebridades musicais disputando quem mais rapidamente se lembrava da letra de uma música a partir de uma palavra sorteada pelo apresentador, o XMT tem ambições científicas: funciona como laboratório para testes cognitivos; seus participantes são como cobaias de um estudo sobre o que distingue os atletas da memória dos comuns mortais.

Os hipermnésicos pertencem a uma elite similar à da sociedade Mensa (que aglutina os maiores Q.I.s do mundo), e se algum dia formarem um clube internacional poderiam batizá-lo de Ireneo Funes, o memorioso uruguaio inventado por Jorge Luís Borges, há tempos o maior símbolo de uma longa linhagem de Zaratustras sinápticos. O rei persa Ciro sabia de cor o nome de todos os seus milhares de soldados; o pôntico Mitridates pontificava nos 22 idiomas de seu império; o missionário jesuíta Matteo Ricci tornou-se uma legenda com seu "palácio da memória"; mas minha incondicional admiração por Borges não me deixa abrir mão da candidatura de Funes a padroeiro de todos os memoriosos.

Apresentado este ano por Nelson Dellis, atual campeão americano da categoria, o jamboree da memória extrema apontou dois finalistas alemães: um advogado de 35 anos, Simon Reinhard, e um professor de 32, Johannes Mallow. Detalhe: o campeão americano tem 30 anos. Por motivos óbvios, a idade é um fator tão ou mais crucial no atletismo cerebral do que nos esportes puramente físicos. Mesmo na ficção. Ireneo Funes morreu com apenas 21 anos.

Reinhard já detinha o recorde mundial de memorização de cartas de baralho (decora um inteiro em 21 segundos) e Mallow, o de memorização de dígitos (501 em cinco minutos), quando se sentaram para o desafio final: decorar 50 palavras em um minuto e em seguida repeti-las na ordem original. Reinhard foi melhor nas palavras e Mallow nos testes numéricos. No cômputo geral, Reinhard superou o adversário e levou o prêmio de US$ 20 mil. A hegemonia teutônica tem uma explicação: a Alemanha é o país que mais incentiva as atividades mnemônicas.

Ainda não descobriram o que afinal distingue as pessoas de prodigiosa memória do resto da humanidade. Segundo Henry L. Roediger III, psicólogo que comanda a pesquisa do XMT, a única coisa que até agora ficou mais ou menos evidente é que a habilidade cognitiva dos memoriosos é mais fruto da atenção que de alguma conformação especial do cérebro. E também de uma técnica de memorização com pelo menos 26 séculos de bons serviços à tabelinha entre o córtex e o hipocampo, sem a qual nenhum cérebro seria capaz de decorar longuíssimos versos, centenas de pares de palavras e números, associando-os a imagens familiares (ruas, cômodos da casa, objetos da infância etc) e estocando-os num "palácio da memória".

O primeiro a utilizá-la foi o poeta helênico Simônides. Os gregos tinham a memória na mais alta conta. Homero beneficiou-se de uma poderosa tradição de memória oral para criar a Ilíada e a Odisseia. Platão acreditava que a escrita servia para ensinar o conceito de sabedoria, mas não a própria sabedoria, oralmente transmitida e conservada na memória.

Matteo Ricci aperfeiçoou a técnica entre os séculos 16 e 17, e encantou a China como um Houdini mnemônico. A quem quiser saber mais sobre o assunto recomendo a leitura de A Arte e a Ciência de Memorizar Tudo, de Joshua Foer (Nova Fronteira). Por não ser um manual de memorização; não espere aprender a lembrar-se de coisas que habitualmente lhe escapam; exercite ao máximo sua "musculatura" mental porque com a idade e o sedentarismo mental ela atrofia.

Ganhei um curso de memorização gratuito, no final dos anos 1960, que por muito tempo transformou minha cabeça numa barafunda associativa das mais esotéricas, como o são todos os palácios da memória. O número da placa do meu carro, por exemplo, era "Wall Street-Orwell", a maneira mais fácil que encontrei para me lembrar de 29 e 84. Estranho, sem dúvida, mas é assim que funciona.

Costumo pegar ao acaso um filme e, enquanto faço caminhadas, tento reconstituir sua ficha técnica completa: diretor, atores, roteirista, produtor, diretor de fotografia, etc. Preencho as lacunas ao chegar em casa. Pode-se fazer isso com times de futebol, com qualquer coisa enfim. Não basta para participar de um XMT, mas eu me pergunto: por que entrar num torneio dessa natureza? Para que acumular e processar tantos dados, depois do Google?

Mais conteúdo sobre:
Google memória

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.