PAULO WHITAKER | REUTERS
PAULO WHITAKER | REUTERS

A crise da seleção brasileira

Ao menos desde o fatídico 7 a 1 na Copa, torcedores parecemindiferentes às humilhaçõessofridas pelo futebol brasileiro

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2016 | 06h00

 

Luiz Zanin Oricchio

Com sua inegável competência, Tite é bem capaz de fazer a seleção voltar a jogar bola. Mais difícil, porém, será fazer a seleção voltar a ocupar o lugar privilegiado no imaginário do brasileiro, como tempos atrás. Um bom técnico pode resolver um problema de conjuntura. Mas tudo indica que as grandes questões da seleção são de ordem estrutural.

Senão, vejamos o que aconteceu nos últimos anos. Os 7 a 1 para a Alemanha, o pior vexame da história. A má campanha nas Eliminatórias para a Copa da Rússia em 2018, com boas possibilidades de, pela primeira vez na sua história, não chegar à competição. As eliminações seguidas na Copa América, esta última num grupo que tinha Haiti, Peru e Equador como adversários.

Os resultados surpreendem, em se tratando de um país badalado anos atrás como pátria do futebol-arte e único, até agora, cinco vezes campeão mundial. Terra de jogadores fabulosos como Pelé, Garrincha, Leônidas, Domingos da Guia, Gérson, Didi, Rivellino, Zico e tantos outros. Através desses boleiros, o Brasil fez-se potência mundial do futebol, instituição global no âmbito desse esporte. O cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini cunhou o conceito de futebol-poesia para nos definir. O historiador Eric Hobsbawm escreveu que ninguém que tenha visto jogar a seleção brasileira de 1970 poderia negar ao futebol a condição de arte.

Por isso, os resultados recentes surpreendem. Mas surpresa maior é a relativa indiferença com que são recebidos. A maior humilhação esportiva do futebol brasileiro, a goleada histórica de 7 a 1 para a Alemanha, em plena Copa do Mundo no Brasil, foi recebida com inesperada sobriedade. Claro, a comissão técnica caiu, os colunistas insistiram que o futebol no Brasil tinha de ser passado a limpo, mas a população logo se refez. Nada que fizesse lembrar o cataclismo emocional causado pela derrota diante do Uruguai na Copa de 1950.

Esta, a acreditar nos narradores, colocou o País num estado de prolongada prostração. As cenas do Maracanã em silêncio com seus 200 mil torcedores desolados estão ainda no nosso imaginário coletivo.

Grandes narrativas se seguiram, como as de Nelson Rodrigues, que dizia ser o jogo uma hecatombe “maior que Hiroshima, pior que Canudos”.

Houve quem dissesse que havia deixado de crer em Deus após o gol de Gigghia, que deu o título ao Uruguai. Paulo Perdigão, que estava no estádio, escreveu um clássico dessa desolação, Anatomia de uma Derrota, que termina com um conto, muitos anos depois filmado por Jorge Furtado, tendo por título Barbosa, o infeliz goleiro da seleção responsabilizado pela tragédia.

Tudo isso aconteceu em 1950. Bem diferente do que houve em 2014. Bem analisada, a derrota para a Alemanha foi sete vezes pior que aquela para o Uruguai, mas as reações foram muito diferentes. Desespero num caso, tristeza passageira em outro. O que nos leva a formular a hipótese de que a seleção era muito mais viva no imaginário do brasileiro dos anos 1950 do que no dos contemporâneos.

O País mudou, nós mudamos e também a seleção mudou. Antes, a seleção nos era mais próxima. Nos representava, como hoje se diz. Melhor dizendo: fazia parte de nós. Desse modo, a euforia na vitória e a dor na derrota eram muito mais intensas porque sentidas na própria carne.

Atingir a seleção era como golpear o nosso narcisismo, e isto aconteceu em 1950 e também em 1982, com a derrota em Sarriá para a Itália.

É verdade que o futebol ainda nos representa, e isso acontece com os clubes de coração e também com a seleção. Mas seria ilusório achar que esses sentimentos se mantêm imutáveis ao longo da passagem do tempo.

Podemos supor, por exemplo, que as seleções pareçam muito próximas aos cidadãos em épocas nas quais predominam sentimentos nacionalistas. Era o caso de 1950, em que se depositava nas costas da seleção a responsabilidade da afirmação de um país com dificuldades de autoestima no contexto internacional. Quando surge a falha, a derrota sempre possível no âmbito do jogo, vem a depressão profunda. Tanto assim que Nelson Rodrigues – sempre ele! – cunhou a expressão famosa “Complexo de Vira-lata” para definir a sensação de inferioridade do brasileiro diante do estrangeiro. Síndrome, segundo ele, que seria curada com uma grande vitória internacional, como as que viram em 1958, na Suécia, e em 1962, no Chile. Mas, como acontece com algumas doenças, esta também está sujeita a recaídas...

Em todo caso, a partir do final dos anos 1980 e, em especial, dos anos 1990, o futebol de alto nível tomou de maneira decidida o caminho da globalização. Os grandes clubes europeus abriram-se para jogadores de outros países vizinhos, simbolismo futebolístico da União Europeia, utopia do continente sem fronteiras e com moeda única. Mais que isso, os clubes poderosos tornaram-se multinacionais da bola, buscando talentos em qualquer canto do planeta. A emergência de mercados secundários, porém, de grande poder econômico, fez o resto do serviço. Os melhores jogadores passaram a ter o exterior como meta e o êxodo esvaziou campeonatos locais e descaracterizou seleções.

Isso não aconteceu apenas com o Brasil, mas talvez aqui os efeitos tenham sido mais fortes. Em especial porque a CBF viu na seleção uma mina de ouro global e decidiu expô-la aos olhos do público internacional, mais rentável que a plateia interna. O País adotou um modelo francamente exportador, de estilo extrativista, sem qualquer consideração para com as questões como manutenção de um estilo de jogo único e admirado, representação simbólica e identidade nacional. O futebol-negócio matou o futebol-arte.

Resgatar o prestígio da seleção e, principalmente, reconquistar o amor do brasileiro são tarefas que vão além da troca de um comando técnico. Envolvem visão política, estratégica e sensibilidade cultural (e estética) para perceber que a seleção, mesmo em tempos globais, deve ser um bem simbólico do povo brasileiro. Dá para esperar esse discernimento da cúpula da CBF?

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.