A crise de um futebol sem rosto

Lá fora, a excelência da seleção continua indiscutível, mas não existe estrela de inegável grandeza à vista

Hans Ulrich Gumbrecht*, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2009 | 02h02

Isto não é sobre a - até agora - muito medíocre performance da seleção nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010. O time certamente sobreviverá a seu jogo no Equador. Ele mais provavelmente empatará e depois continuará sobrevivendo a isso até que, no fim, o Brasil certamente jogará na África do Sul no próximo ano e terá uma boa chance, como qualquer outra seleção nacional, de vencer o grande torneio. A presente crise não é tampouco, especificamente, sobre má administração e escândalos potenciais na Confederação Brasileira de Futebol, ou sobre um treinador absolutamente inexpressivo (que já foi um jogador muito pouco impressionante). Todos esses sintomas têm uma tradição de longa data e o futebol do Brasil conseguiu conviver com eles, mesmo nos momentos de sua maior glória. Seria possível até dizer que sua vitalidade única, durante o último meio século, consistiu precisamente em nunca se deixar perturbar por seu ambiente sempre medíocre.

 

O último: ele levava 100 mil ao êxtase antes mesmo de o jogo começar

A estrutura particular da nova crise parece ser, ao menos quando vista de fora, que embora a aura do futebol brasileiro continue a existir e embora nenhum outro país chegue perto do Brasil no que toca à excelência do esporte mais popular do mundo, não sobrou nenhum rosto e nenhuma figura à qual essa aura poderia se conferir. Não existe hoje, de fato, nenhum grande jogador de futebol brasileiro na ativa. Se ficarem estarrecidos e quiserem um argumento sólido, ei-lo. Sem a menor dúvida, as duas ligas de futebol mais fortes no mundo atual são (nesta ordem) a Primeira Divisão inglesa e a Primeira Divisão espanhola. Nenhum jogador brasileiro se destacou na Inglaterra ou na Espanha desde a Copa do Mundo de 2006 com o brilho de Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi. Os leitores e fãs brasileiros devem estar bastante familiarizados com a sequência interminável de mini-histórias decepcionantes: Robinho deixa Madri pelo inglório Manchester City e não consegue fazer a diferença; Ronaldinho Gaúcho se transfere para o Milan e nem sequer joga; Adriano não passa de um bom jogador; e mesmo um astro potencial do inegável talento de Kaká sofre com lesões que nenhum médico sério consegue sequer identificar.

Isso tudo é apenas uma crise; não é certamente o fim do futebol brasileiro. Pelo contrário, nenhum outro país tem tantos jogadores sendo bem-sucedidos nas ligas europeias de segunda linha, isto é, na Alemanha, França, Portugal e, cada vez mais, na Rússia. A questão é, porém, que esses jogadores parecem apenas bons - como Lúcio, por exemplo, que, em nove entre dez jogos é um defensor muito confiável do Bayern de Munique, um clube europeu de poucas conquistas. Alguns dos atuais jogadores brasileiros parecem simplesmente efêmeros, como o atacante Grafite, que tem a chance de levar o time da Volkswagen Corporation a vencer a Bundesliga, mas todos na Alemanha, injustamente talvez, esperam que suma do mapa no próximo ano. Diferentemente daqueles jovens jogadores da Espanha que conseguiram vencer o campeonato europeu para sua seleção nacional no último verão após terem adquirido o status de astros no Liverpool e no Arsenal, a presente geração de jogadores brasileiros parece ter menos confiança até que estamina.

Quem foi o último jogador brasileiro de inegável grandeza e predomínio, o último jogador brasileiro a quem o mundo preferia ver jogar - a ver o seu time vencer? Quem foi o último verdadeiro craque capaz de se ombrear com os pais fundadores da glória do futebol brasileiro de 1958, com Garrincha, Didi, Vavá e Pelé, e com seus sucessores como Tostão, Rivelino, Sócrates, Romário? Foi, sem dúvida, Ronaldinho Gaúcho durante seus anos de glória no Barcelona. Eu ainda consigo me lembrar de como Ronaldo Gaúcho era capaz de levar 100 mil espectadores no Camp Nou a um estado de êxtase com seus truques, sua alegria, sua absoluta concentração durante os aquecimentos, antes mesmo de o jogo começar. O que aconteceu com ele?

Para essa questão, também, ninguém ignora a resposta óbvia. Foi a Copa do Mundo de 2006, foi provavelmente a distância e o contraste sem precedente entre as mais altas expectativas de todos os tempos com respeito à seleção nacional e sua série de jogos embaraçosamente medíocre que diluíram a confiança de Ronaldo Gaúcho e destruíram seu talento. Detesto lembrar esses exemplos de impotência, quando ele estava parado no meio do campo, sem intuição, graça ou vigor - como se estivesse ali apenas para mostrar sua bandana Nike e, mesmo assim, se esquecesse de deixar o logotipo visível. Não quero lembrar daquelas vitórias tenazes sobre Japão e sobre Gana - que era superior e simplesmente não conseguiu acreditar em como o Brasil estava vulnerável naquele dia -, pois esses jogos "bem-sucedidos" me causam mais dor que a derrota final para a França, a qual, unida em torno de Zidane, ao menos jogou admiravelmente então. Ronaldinho Gaúcho e o futebol brasileiro nunca se refizeram daqueles momentos, daquelas imagens e daquelas impressões, e sendo eu o fã que era, temo que ele esteja acabado, para sempre, sem ter realizado plenamente seu maravilhoso potencial.

Curiosamente, a - de novo: ao menos vista de fora - vitória muito impressionante na final contra a Argentina no último campeonato sul-americano não foi suficiente para a seleção se recuperar e para Dunga ganhar status. O que continua errado? Evidentemente, o futebol brasileiro pode retornar a seu meio século de glória sem paralelo em cada próximo jogo. Mas se, no longo prazo, ele não o conseguir, então serão feitas perguntas tão grandes como aquelas primeiras formuladas por Gilberto Freire que acompanhou a ascensão do Brasil à - então exclusivamente estética - glória do futebol no final dos anos 1930 e a explicou como o resultado de uma energia e graça específicas resultantes da intersecção dos temperamentos africano e europeu. Como podemos explicar hoje - ainda que apenas como jogo intelectual - a triste figura de Ronaldinho Gaúcho como uma alegoria da decadência do futebol brasileiro? Talvez ele - e as centenas de jogadores brasileiros que se saem apenas bem em tantas ligas espalhadas pelo mundo - talvez ele e esses jogadores bastante bons sejam a personificação de uma compreensão fraca de democracia social: ainda é possível ganhar muito dinheiro no segundo escalão do futebol - e mesmo sentado no banco; não há necessidade de assumir responsabilidades enquanto se encontra uma maneira de se esconder atrás de lesões e técnicos medíocres, para ficar jogando videogames numa casa de US$ 2 milhões. Sobretudo: não se exponha ao esforço extremo.

Romário, por contraste, o pícaro, meio criminoso, brilhante e duro Romário, que quase sobreviveu a si mesmo como jogador bem-sucedido, Romário ainda emergira de um mundo de força proletária.

*Professor de literatura na Universidade de Stanford e autor de Elogio da Beleza Atlética (Cia. das Letras)

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