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A crise econômica e o G-20

É ilusão esperar que os ricos transfiram o poder regulatório a órgãos fora de seu controle

Rubens Ricupero*, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2008 | 21h23

A crise econômica é como o incêndio que destruiu o Teatro Cultura Artística: o fogo deixou a casa de máquinas e começa a propagar-se pelo palco e o auditório. Não sabemos se vai sobrar o painel da fachada, nem quando se apagarão as chamas. Só depois disso é que se poderá principiar a reconstruir o prédio à prova de incêndio.Neste momento a prioridade absoluta é impedir que a crise se instale como depressão profunda e prolongada. Em setembro e outubro desapareceram nos EUA 524 mil empregos e mais 844 mil foram reduzidos a tempo parcial involuntário. A taxa de desemprego (6,5%) cresce 0,3% ao mês e logo ultrapassará 7%. A falência dos gigantes automobilísticos, a GM ou a Ford, afetaria 2,5 milhões de empregos diretos e 1,4 milhão de indiretos. Suspenderiam o pagamento de dívidas 7,3 milhões de famílias entre 2008 e 2010 e 4,3 milhões se veriam ameaçadas de perder a casa.É a vida de milhões de pessoas que está em jogo, não as perdas de papel dos financistas culpados pelo colapso. Apenas agora, pouco antes da eleição e posse do presidente, a crise alcançou a economia real da produção e do emprego. A situação de Obama é a mesma de Franklin Roosevelt em 1932: precisa ter pronto pacote de impacto para evitar a depressão e apressar a recuperação da economia. Se não der certo, será o presidente fracassado de um só mandato.Fala-se em estímulo fiscal de 2% a 3% do PIB, entre US$ 300 bilhões e US$ 450 bilhões, parte para encorajar o consumo, parte para investir numa infra-estrutura envelhecida. Será preciso salvar as vítimas do desastre das hipotecas. Ademais, socorrer a indústria de automóvel, as linhas aéreas, reforçar a rede de segurança social: prolongar o seguro-desemprego para além de 26 semanas, aumentar os cupons de alimentação, recuperar os devastados fundos de aposentadoria. Levando em conta os US$ 700 bilhões aprovados, o gasto total pode chegar a 10% do PIB (US$ 1,5 trilhão). Há espaço para o aumento do déficit, pois o país tem dívida pública ainda três vezes menor que a do Japão.É inevitável a aproximação entre o "Big Bang" de Obama e o New Deal de Roosevelt devido à coincidência de uma crise avassaladora com a eleição e posse. Até a enervante espera sem poder fazer nada é semelhante. Durante os cinco meses em que tudo parecia ruir, Roosevelt rejeitou o "abraço de afogado" do presidente Herbert Hoover, recusando-se a endossar as medidas do governo moribundo. Emendou-se a Constituição para cortar a espera pela metade, mas o problema permanece. O que fará Obama? Até que ponto se comprometerá com o mais impopular governo da história? O secretário do Tesouro é responsabilizado pelo erro fatídico de deixar falir o Lehman Brothers. Depois de aprovar a duras penas o pacote de aquisição de ativos tóxicos, acaba de mudar de idéia, resolvendo usar o dinheiro para comprar ações e capitalizar os bancos. Não é com esse ziguezague que vai conseguir reconquistar a confiança da população. É por isso que idéias ambiciosas como a de Bretton Woods II, de uma nova arquitetura, ordem financeira ou governança global, caras aos europeus e aos emergentes, terão de esperar pelo novo governo dos EUA. O que essas propostas têm em comum é visarem à mudança radical na distribuição do poder decisório em organismos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.Os americanos, principais beneficiários e guardiães da ordem que criaram no apogeu de sua influência, sabem que, em hora de redução do poder relativo dos EUA, uma redistribuição para valer teria de ser feita às expensas deles. Não há registro na história de potência hegemônica que tenha aceito tal coisa.Os europeus falam bonito, mas suas cotas de voto no sistema de Bretton Woods - acima de 30% comparadas a menos de 20% dos EUA - não se justificam no caso da Alemanha, França, Itália, Holanda e Bélgica, países de moeda única e com um só banco central. Nenhum deles, contudo, cogita de abrir mão de parcela da cota para permitir, digamos, o aumento da representação da África. O poder continua a realidade determinante da ordem política e econômica mundial. Não será uma crise financeira que vai mudar essa realidade.O discurso do presidente Bush em Nova York em 13 de novembro indica a linha que os EUA seguirão na reunião do G-20 em Washington: não há nada de errado com os mercados do ponto de vista sistêmico. Alguns ajustes e aperfeiçoamentos técnicos bastarão para que tudo volte ao normal. Daí a Bretton Woods II, a distância se mede por anos-luz.O mais provável é que os presidentes do G-20 solicitem aos ministros que preparem as melhorias técnicas, criando talvez um grupo de trabalho para acompanhar a execução. Emergentes como a China, com excesso de poupança e saldos em conta corrente, serão instados a estimular a demanda global. Não é o caso do Brasil, cuja precária situação está longe da gabolice de autoridades que só se distinguem pela gastança improdutiva. A fim de avançar na regulamentação, terá de se ampliar o Fórum de Estabilização Financeira mediante a inclusão de alguns países emergentes, sem alimentar grandes ilusões. Como a de que os governos das maiores praças financeiras do mundo, Nova York e Londres, aceitem transferir o poder regulatório a qualquer órgão internacional não controlado por eles. Difícil também será os mercados admitirem eliminar as brechas de intermediação não-bancária (hedge funds, entre outros) e a regulamentação rigorosa das transações responsáveis pelo derretimento atual: as securitizações e os derivativos. Sem esquecer a abertura e transparência dos mercados, limitando a possibilidade das operações over-the-counter (acima do balcão).De qualquer forma, essa é agenda que só vai avançar depois de apagado o incêndio. Antes, a prioridade para os governos, a começar pelo chefiado por Obama, é coordenar um vigoroso esforço para abreviar a crise, permitindo o início da recuperação em fins de 2009, devolvendo a confiança aos consumidores e a esperança aos que precisam de emprego. *Rubens Ricupero, diplomata e ex-ministro da Fazenda, foi secretário-geral da Unctad - Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. É diretor da Faculdade de Economia da Faap

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