A crise se foi. Ou seja, esta crise

Em economia, achar que o pior já passou não é boa ideia, sugere Norman Gall

Antonio Corrêa de Lacerda (*), O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2009 | 03h38

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A recente debacle financeira global, efeito da maior crise da economia mundial depois dos anos 30, é o objeto central de O Terremoto Financeiro: A Primeira Crise Global do Século XXI, de Norman Gall, com prefácio de Arminio Fraga Neto e apresentação de Rubens Ricupero. O livro consolida alguns ensaios originalmente publicados no Braudel Papers do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, do qual Gall é fundador, diretor executivo e principal pesquisador.

Na crise em questão, chama a atenção a rapidez e profundidade do contágio mundo afora, o que gerou fortes impactos sobre o nível de atividades, emprego e renda, especialmente dos países centrais. Ao mesmo tempo, também tem sido surpreendente o grau de mobilização, inédito no que se refere não só à articulação e montantes financeiros envolvidos. Bancos centrais, governos e órgãos multilaterais foram pródigos em socorrer o sistema financeiro global e empresas com pacotes de trilhões de dólares.

Da mesma forma, salta aos olhos a rapidez da aparente saída da crise, relativamente aos precedentes históricos, levando em conta seus efeitos no nível de atividade e fluxos de comércio e de capitais. Decorrido apenas cerca de um ano do auge da crise, temos as economias voltando a crescer, as bolsas de valores retomando e os preços das commodities em franca ascendência novamente.

Ou seja, assim como a gravidade da crise exigiu esforços significativos para combater seus efeitos, o combate às suas causas parece relegado a mais pra frente, já que o clima de "fim de festa" para o mercado financeiro rapidamente se transformou em "a festa continua". O aparente consenso de meses atrás quanto à necessidade de novas regras, na tal da "nova arquitetura financeira global", já se dissipa na acomodação propiciada pelo socorro e pela sensação de que "o pior já passou".

No meio termo entre a pesquisa e o ensaio, como destaca Ricupero, esse livro de Gall reelabora, com um texto elegante, os pressupostos, o desenrolar e o pós-crise. O autor se vale da sua vasta experiência para abordar temas complexos de uma forma inteligível inclusive ao leitor não especializado em economia e finanças.

A questão das finanças globais ganhou destaque com a crise recente. Mas sempre foi objeto de abordagens de profundidade ao longo da história. Karl Marx tratou do capital fictício, o capital portador de juros, que se multiplica endogenamente e sem vínculos com a produção. John Maynard Keynes desenvolveu análises bem interessantes sobre a não neutralidade da moeda, a instabilidade inerente ao capitalismo e outros importantes contrapontos à visão ortodoxa da economia neoclássica.

Inspiradas nesses autores, as análises que tratam da questão da financeirização da economia já alertavam para os efeitos do extraordinário descolamento do volume de ativos financeiros relativamente ao PIB (Produto Interno Bruto) global. A desregulamentação dos mercados das últimas três décadas, os novos produtos financeiros, especialmente os derivativos, assim como a interligação online das praças financeiras internacionais, propiciaram a formação de um grande cassino global.

Por um lado, essa exuberância financiou a expansão do comércio internacional, das inovações e a expansão além fronteiras das grandes corporações, muitas delas com faturamento superiores ao PIB dos países, e a expansão do consumo. Por outro lado, ela fez aumentar muito a volatilidade dos mercados financeiros. A instabilidade implicou crises recorrentes ao longo das últimas duas décadas: México, Rússia, Tailândia, Coréia, Argentina, Turquia e Brasil foram algumas das vítimas, na periferia do capitalismo. A diferença é que desta vez a crise se deu no centro do capitalismo e daí a sua dimensão.

O Brasil tem sido festejado na mídia e meios econômicos internacionais como um dos vencedores da crise. De fato, ao adotar medidas econômicas anticíclicas, que aproveitaram o dinamismo do mercado doméstico, isso nos colocou fora do turbilhão. No entanto, a conjugação de fatores internos positivos e a ainda persistente taxa real de juros elevada nos torna alvos fáceis da especulação. Enquanto isso, Estados Unidos, Europa e Japão reduziram a quase zero os juros praticados. A consequência dessa disparidade entre cenário doméstico e internacional tem sido um forte influxo de capitais que valorizam a taxa de câmbio, em um processo de arbitragem, ou carry trade, no jargão do mercado.

Essa semana ganhou grande repercussão a entrevista de Paul Krugman alertando para o risco de uma bolha no mercado brasileiro. O que, aliás, já havia sido preconizado por bons economistas brasileiros, sem tanta ressonância. Agora, em inglês, e da lavra de Prêmio Nobel de Economia, reverberou merecidamente.

Como, talvez inconscientemente, de forma premonitória, alerta o subtítulo do livro, A Primeira Crise Global do Século XXI, o que vivenciamos pode ser apenas a ponta de um longo processo de crises superpostas, mesmo que intercaladas com períodos de aparente calmaria. As crises tenderão a ser tão recorrentes e profundas quanto maiores forem a acomodação e a resistência às mudanças. Essas, se não evitam, poderiam minimizar o risco de novos terremotos financeiros globais. A escolha é nossa, ou melhor - deles.

 

*Professor do Departamento de Economia da PUC-SP, doutor pelo IE/Unicamp

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