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'A crítica ou é estética ou não é nada', disse Harold Bloom em uma entrevista de 1991

Crítico morto recentemente aos 89 anos falou à professora da USP Aurora Bernardini sobre literatura

Aurora Bernardini*, Especial para o Estado

26 de outubro de 2019 | 16h00

“O senhor também utilizou alguma lei geral que une natureza e arte em seus trabalhos de crítica?” 

Esta foi a primeira pergunta que fiz a Harold Bloom, crítico literário morto este mês aos 89 anos, e que entrevistei durante uma bolsa de estudos em 1991. Ele ficou alguns instantes perplexo e, em vez de responder, quis saber o porquê de tal pergunta e o porquê do “também”. 

Expliquei-lhe que estivera pesquisando a obra do cineasta Serguei Eisenstein (1898-1948) o qual tinha inserido no tempo e no espaço de seus filmes conceitos que provinham de leis da natureza, como fez, por exemplo, com a famosa cena da escadaria de Odessa em O Encouraçado Potemkin (1925), utilizando uma aplicação temporal do segmento áureo, que, conforme os gregos haviam descoberto, vem da projeção da espiral do crescimento visível, por exemplo, nas seções dos troncos das árvores ou na casca dos caracóis.

Ele olhou-me fixo e depois respondeu: “Não, eu não usei nenhuma lei natural”.

Eu disse-lhe que havia encontrado em seu livro Cabala e Crítica (1975) algumas dessas correspondências. Uma das mais surpreendentes era que, segundo a primeira parte do livro, dedicada à Cabala, era dito que Deus havia criado o mundo num momento de vazio, de “expiração”, e isso coincidia com o fato – como salientava em suas aulas a psicanalista Regina Schnaiderman – que a natureza humana é tal que as grandes criações são precedidas, também, por uma fase de grande depressão.

“Sim”, disse ele, “no livro há muitos paralelos entre a Cabala judaica, que é tradição, e a crítica literária, da poesia, principalmente. Mas a questão da expiração de Deus e da criação do mundo, na Cabala, é muito mais complexa”.

Os paralelos e as afinidades (como Eisenstein, Bloom era filho de judeus russos) abriram caminho para que a entrevista se transformasse numa conversa, de modo que pedi a ele que me esclarecesse certos conceitos, alguns deles já tornados famosos em publicações anteriores como A Angústia da Influência e A Necessidade da Desleitura, ambos de 1973.

“A crítica ou é estética ou não é nada”, disse Bloom ao ser perguntado sobre o que seria a crítica literária para ele, e me apontou um trecho de um ensaio de Walter Pater (1813): “O que são esta música, este quadro, este poema esta personalidade atraente que me é apresentada por um livro, para mim? Que efeito produzem? Me dão prazer? Se sim, que espécie de prazer? Como pode minha natureza ser modificada por eles?” 

As respostas a essas questões são os fatos originais com os quais o crítico estético deve lidar, de acordo com Bloom.

De fato, entre os 26 autores “que dão prazer” e que mereceram longos ensaios em seu livro O Cânone Ocidental (1994), apenas Samuel Beckett está lá por ter sabido – como diz Bloom – “expressar a incapacidade de expressar”. Isso explica também os ataques a certos reducionismos linguísticos e semióticos da história da literatura.

Entre os outros paralelos que Bloom apontou está o da “Emanação dos Sefirot”, da Cabala, que podem ser chamados poemas da criação, pois cada um deles vela e revela uma diferença no poder criativo de Deus, e o da influência em literatura.

A influência poética, essencialmente, pouco tem a ver com empréstimo de imagens, ideias, ritmos, etc. de um poema. Veja a explicação do cabalista Gershom Scholem (1897-1982), fundador dos modernos estudos da Cabala: “Certos Sefirot específicos estão em particulares relações de radiação com outros Sefirot (embora não necessariamente com todos eles). A face de um Sefirah está voltada para a face de outro Sefirah, de modo que, entre eles, se desenvolve um ‘canal’ ou influência que não é idêntica à emanação real. Esses canais são caminhos de influência recíproca entre diferentes Sefirot”.

Como se vê, a ideia de influência é bem mais complexa do que pareceria à primeira vista, mas vale, para simplificar, a conclusão de Valery, que Bloom colocou como prefácio à Necessidade da Desleitura (terceira e última parte de Cabala e Crítica): “Há obras que se parecem muito umas com as outras, e há obras que são o oposto de outras, mas há também obras em que sua relação com as precedentes é tão intrincada que nos deixa confusos a ponto de atribui-las à intervenção direta dos deuses”.

Leia um trecho dessa entrevista com Harold Bloom de 1991: 

Passando da teosofia à poesia,qual seria o equivalente dessa contração criativa? 

A imagem da limitação está centrada na ausência, vazio e exterioridade, enquanto todo poema preferiria gozar de plenitude, presença e interioridade. No movimento seguinte, de restituição, após todas as limitações inaugurais, a substituição é o processo real no qual trabalha o poema, por e com imagens de inteiridade, altura e precocidade que trabalham para representar o desejo e a restituição. Mas a leitura de qualquer leitor, em relação a qualquer texto, é uma relação posterior, tardia. Segue daí que interpretar é revisar, é problematizar a influência.

Como o senhor explica o conceito de desleitura? 

O leitor está para o poema como o poeta está para o precursor, de modo que cada leitor é um efebo, cada poema é um precursor e cada leitura é um ato de influência: cada leitor é influenciado pela leitura e influencia qualquer outro leitor a quem sua leitura é comunicada. Cada leitura é, portanto, uma desleitura, porque um texto é necessariamente leitura de um inteiro sistema de textos e o significado é sempre um vaguear entre os textos. 

Isso significa intertextualidade? 

Poesia são poemas falando a um poema e este poema respondendo com seu discurso de defesa e poemas são litanias apotropaicas, sistemas de tropos defensivos e de defesas em tropos. Não há poemas per se, como não há poetas per se. Um poeta é forte quando poetas, depois dele, trabalham para fugir dele. Um crítico é forte se sua leitura provoca leituras outras. O que alia poeta e crítico fortes é que em sua respectiva desleitura há um elemento de necessidade.

*AURORA BERNARDINI É PROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO DE LITERATURA RUSSA NA USP

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