MARCIO FERNANDES/ESTADÃO
MARCIO FERNANDES/ESTADÃO

A demolição do barroco em livro de ensaios

Com "Agudezas Seiscentistas', o professor João Adolfo Hansen dá início a uma trilogia de artigos inéditos e dispersos

André Jobim Martins, Especial para O Estado

28 de setembro de 2019 | 16h00

Agudezas Seiscentistas e Outros Ensaios é o primeiro de três volumes de ensaios de João Adolfo Hansen, até agora inéditos ou dispersos em coletâneas e revistas acadêmicas, que a Edusp começa a publicar. Apesar de o livro não se organizar em torno de um eixo argumentativo linear, preservando a forma original dos artigos, quem procura uma introdução ao estudo de nossa literatura colonial não fará mal em começar por esta coletânea.

Os textos do professor de literatura da USP alcançam um patamar de excelência raramente encontrado entre nós. Isso se deve, em primeiro lugar, a uma compreensão aguçada da operação historiográfica como artifício de reconstrução do passado. É nesse sentido que Hansen evita o termo “barroco”, amplamente consagrado na designação de artefatos culturais luso-brasileiros produzidos entre o final do século 16 e o início do 19.

Ao evitar o “barroco”, Hansen toma uma providência necessária para que saibamos ler e ver as expressões da cultura luso-brasileira seiscentista por trás da espessa camada de categorias de interpretação anacrônicas sedimentada pela historiografia da arte e da literatura romântica e iluminista. As categorias associadas ao “barroco” implicam uma série de juízos inadequados à compreensão daqueles artefatos históricos. Desfazer o estrago é mais difícil do que parece. 

É preciso deixar de lado grande parte dos preconceitos que regulam nossa própria forma de pensar a cultura e reconstituir tentativamente os quadros mentais de uma época radicalmente diferente da nossa. Apesar de escreverem numa língua que acreditamos entender, os autores luso-brasileiros seiscentistas compreendem o mundo numa configuração que nos parecerá exótica, talvez até absurda.

Com Hansen aprendemos que, na conformação mental dos letrados do século 17, não existe “história” como processo linear progressivo ao longo do qual as configurações e perspectivas da existência humana variam qualitativamente em função do surgimento de novidades – essa é uma “invenção” de meados do século 18 – mas somente o desdobramento eternamente prefigurado dos acontecimentos ordenado pela Providência divina – assim, Antônio Vieira pôde escrever uma História do Futuro

Também não existem, no século 17, “ a arte” ou “a literatura”, e os assim chamados “barrocos” nunca poderiam imaginar que um dia suas composições cuidadosamente elaboradas seriam tomadas por “sombrias”, “góticas”, “sensualistas”, “decadentes”, ou como “antecipação” do expressivismo romântico.

Diferentemente do que podemos ter aprendido em lições colegiais de literatura, a sátira de Gregório de Matos não é a obra de um ‘enfant terrible’ inconformista e libertino. Somos tentados a ver na poesia de Gregório a imagem romântica do “homem contra seu tempo”, mas as noções de obra de arte como expressão livre e autêntica de uma subjetividade psicológica autodeterminada (em suma, a moderna noção de pessoa, de “eu”), e de “tempo histórico” como horizonte de surgimento de novidade e de crítica da “realidade” seriam inacessíveis ao poeta seiscentista. A pena de Gregório (ou dos autores dos poemas a ele atribuídos) não se insurge indistintamente contra a ordem das coisas; antes, ela se inscreve nos gêneros autorizados nos quais a sátira e a maledicência são convenientes e “discretas”. Sua poesia é perfeitamente conforme a um ideal (piedoso) de prudência e cortesia, elemento constitutivo e legitimador de uma civilização na qual a ordem das palavras é tão importante quanto a das coisas.

Entre os letrados seiscentistas, a natureza não é um conjunto de coisas desprovidas de intencionalidade, mas um “livro vivo” de imagens com as quais Deus se comunica com os homens, contraparte do livro escrito, a Bíblia. Assim, por exemplo, a imagem da cruz formada pelas sementes no corte transversal de uma banana é um signo profético do destino cristão do mundo. Assim como as histórias do Novo Testamento são interpretadas como revelações análogas de imagens prefiguradas no Antigo, a natureza se deixa ler por meio das semelhanças e analogias que se estabelecem entre os frutos da Criação. “Representar” não é dar corpo literário a uma percepção do “real” como “material” empiricamente observado e soberanamente julgado, mas formar, segundo o acervo compartilhado de argumentos literários disponíveis (os “lugares-comuns” da retórica, que não são compreendidos como “clichês”, mas como garantia da boa comunicação), imagens que a luz natural da Graça oferece ao nosso intelecto e cuja causa primeira é Deus.

Os textos representam, com imagens, as figuras da consciência que são, elas próprias, imagens – a leitura do mundo não se dá, como no humanismo pós-iluminista, por meio de uma semiótica que remete “significantes” a “significados”. A “realidade” está inteiramente inscrita numa “lógica da imagem” por meio da qual as práticas de representação, amparadas pelas autoridades clássicas (como Aristóteles, Cícero e Quintiliano) e seus intérpretes modernos (como Tesauro, Gracián e Pallavicino), são capazes de figurar e ordenar o mundo. Nesse sentido, as práticas letradas seiscentistas (da poesia até os documentos administrativos) não separam “retórica”, “estética” e “política”, mas reúnem esses domínios na constituição do horizonte possível de expressão nas monarquias católicas contrarreformadas.

O mundo que Hansen nos apresenta desafia os limites de nossa capacidade de compreensão. Como, em nossa cultura organizada em torno dos valores romântico-iluministas da liberdade, individualidade, originalidade e autenticidade, podemos compreender um sistema de representações que pressupõe um repertório dado e restrito de figuras, articulações e circunstâncias nas quais elas são aplicáveis? E por que estudá-lo? Considerar o conhecimento histórico como algo instrumental talvez seja ignorar seu valor intrínseco, mas é possível arriscar uma resposta. A disposição de entender esse mundo codificado pode significar uma aptidão maior para a compreensão e crítica dos modos menos explícitos de controle do discurso e do imaginário que apareceram desde o declínio da instituição retórica no século 18, como o “livre mercado” das ideias e obras de arte e, mais recentemente, para usar as palavras de Hansen numa aula magna recentemente proferida na USP, a “blindagem pop-fascista” do real pela (pós) moderna indústria cultural.

 

Agudezas Seiscentistas. 

Autor: João Adolfo Hansen

Editora: Edusp,  344 Págs., R$ 60 

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