A desconstrução da guerra fez o herói

Isidore Stone deu uma lição de jornalismo ao mundo ao desnudar o conflito que Truman provocou e Eisenhower não entendeu

Sérgio Augusto - O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2010 | 09h38

1951. Soldados da infantaria americana vistoriam aldeia abandonada pelos civis durante a Guerra da Coreia

 

Sempre que a fervura aumenta na Península Coreana, eu me lembro, proustianamente, de Heron Domingues e William Holden. Que posso eu fazer, se são essas duas figuras - um locutor de rádio e um ator de cinema - e não Kim Il-sung, Sygman Rhee, Harry Truman e Douglas MacArthur que me assomam à memória quando um novo conflito armado ameaça incendiar a Coreia?

 

Pela voz tonitruante de Heron Domingues, o Repórter Esso da Rádio Nacional, ouvi, bem menino, as primeiras referências à longínqua Coreia e à guerra que lá eclodiu há 60 anos. Fascinava-me o modo como o locutor escandia o trissílabo "Pa-mun-jong, Coreia", acrescido de pelo menos dois pontos de exclamação. Era de Pamunjong ou Seul que procediam as "últimas notícias" do confronto militar entre os coreanos do Norte e os do Sul. William Holden foi meu primeiro herói da guerra na Coreia, onde morreu duas vezes, como jornalista (no filme Suplício de uma Saudade) e como piloto da Força Aérea (em outro drama cinematográfico, As Pontes de Toko-ri).

 

Àquela altura, meu segundo (e último) herói da guerra na Coreia já entrara em ação, mas eu só tomaria conhecimento de sua real e gloriosa existência com quase duas décadas de atraso. Isidor Feinstein Stone, mais conhecido como I. F. Stone (1907-1989), não era militar, mas jornalista. Não cobriu a guerra, desconstruiu-a.

 

Stone foi o jornalista independente americano mais brilhante, íntegro e seminal de todos os tempos. Com ele aprendemos o que era preciso saber sobre o macarthismo, as duas guerras na Ásia (Coreia e Vietnã), a mendacidade institucional ("Todo governo é mentiroso", vivia dizendo e provando) e até sobre o julgamento de Sócrates, tema de seu único trabalho investigativo traduzido no Brasil. Seu livro The Hidden History of the Korean War (A história oculta da Guerra da Coreia), publicado em 1952, no auge da Guerra Fria e da caça às bruxas oficiada pelo senador Joe McCarthy, depois reeditado em 1970 e desde então difícil de ser achado, foi um divisor de águas nas especulações e análises sobre quem primeiro, e por que razões, transgrediu o Paralelo 38, a linha imaginária que desde 1945 separava (e ainda separa) as duas Coreias: ao norte, a Coreia comunista, então sob influência da União Soviética; ao sul, a Coreia apadrinhada pelos Estados Unidos e seus aliados europeus.

 

Não havia inocentes nessa história. Em nenhum dos lados.

 

Por algum tempo, a versão corrente resumia-se ao seguinte: em 25 de junho de 1950, a Coreia do Norte, presidida a mão de ferro pelo stalinista Kim Il-sung (pai do atual líder supremo, Kim Jong-il) e supostamente instigada pela União Soviética e pela China, invadiu a Coreia do Sul, presidida por Sygman Rhee. Até a Casa Branca se disse pega de surpresa. Dois dias depois, invocando compromissos que os Estados Unidos teriam firmado com a ONU sobre envio de tropas americanas a zonas conflagradas, o presidente Harry Truman ordenou uma intervenção militar no Paralelo 38, sem consultar o Congresso, estabelecendo um padrão que George W. Bush honraria 53 anos depois, invadindo o Iraque sem pedir licença ao Poder Legislativo. A guerra durou três anos.

 

Batizaram-na de "a guerra de Truman", embora o sucessor de Roosevelt pudesse ter dividido esse ônus com o general Douglas MacArthur, o plenipotenciário interventor militar dos Estados Unidos no Japão desde a rendição dos japoneses ao final da 2ª Guerra Mundial. Se Truman dava as ordens, era MacArthur quem controlava o fluxo de informações sobre a situação na Ásia, manipulando seus comandados, omitindo dados para os serviços de inteligência do governo, isolando a imprensa e censurando jornalistas. Por culpa do general, o conflito entre as duas Coreias durou 37 meses, em vez de 5 ou 6.

 

Estudando e cotejando apenas documentos oficiais e informações colhidas nos mais respeitáveis jornais europeus, Stone desmontou a versão do governo americano e desmoralizou a retórica jingoísta de MacArthur, cujas asas seriam cortadas pelo próprio Truman, com a guerra em andamento.

 

O ataque norte-coreano era algo esperado, só não se sabia quando, exatamente, se daria. MacArthur precipitou-o, com provocações e escaramuças na fronteira, pois era do seu interesse manter um clima tenso naquela região, para justificar a permanência de seu reinado em Tóquio. A Syngman Rhee também interessava o confronto: com a popularidade em baixa, perdera uma eleição e precisava de um bom motivo para demover sua base parlamentar da ideia de unificar o país. Chiang Kai-chek, já refugiado em Formosa, vislumbrou na intervenção americana a oportunidade que lhe faltava para recuperar a China que Mao lhe tomara. Truman, por sua vez, carecia de uma crise internacional para convencer a oposição republicana a liberar milhões de dólares para a nascente Otan.

 

Todo mundo saiu lucrando com a guerra, menos, é claro, suas vítimas: em torno de 500 mil soldados norte-coreanos mortos, 400 mil sul-coreanos, 900 mil chineses, 39 mil americanos, muitos milhares de civis.

 

Se os russos planejaram a invasão, por que a programaram para quando estavam a descoberto no Conselho de Segurança da ONU? Se o plano de mobilização da Coreia do Norte previa uma concentração de 13 a 15 divisões na fronteira, por que havia apenas 6 divisões quando a invasão teve início? Por que hostilizar a Coreia do Sul com Syngman Rhee pela bola sete? A partir dessas e outras dúvidas, Stone montou uma rigorosa investigação, cujas conclusões acabariam perfilhadas até por políticos conservadores e confirmadas por documentos secretos liberados na Rússia depois do fim da União Soviética.

 

Antes de virar um livro de 368 páginas, editado pela Monthly Review Press, Stone publicou dois capítulos na França, um deles na revista Les Temps Modernes, de Sartre. O governo americano fez de tudo ao seu alcance para boicotá-lo, tirá-lo de circulação, e difamar seu autor. Mas Stone afinal venceu sua guerra solitária. A outra, a da Coreia, chegou ao fim pelas mãos do sucessor de Truman, Eisenhower, que tampouco nunca entendeu por que seu país se metera, daquela forma, numa guerra civil que não afetava diretamente a segurança dos EUA.

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