A desmoralização da coerência

A torcida pode ter até aproveitado a oportunidade para se inspirar nos xingamentos ao técnico da Seleção, mas, justiça seja feita, quem meteu a mãe do Dunga no meio desta vez foi ele próprio ao responsabilizá-la em entrevista coletiva pelas noções de educação e patriotismo que conserva até hoje. Em defesa de dona Maria devo dizer que, muito provavelmente, o filho não entendeu bem suas lições.

Tutty Vasques, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 01h41

Uma ex-professora de história jamais cultivaria em casa o sentimento de que "quem não viveu a época da escravidão não pode falar se ela era boa ou não". Para não dar margem a mal-entendidos, Dunga completou seu raciocínio: "Do mesmo modo que quem não viveu a ditadura não pode saber se ela era boa ou ruim".

Disse isso sem mais nem menos, salvo engano para explicar por que não poderia se pronunciar sobre o desastre do Brasil na Copa de 2006. Na época, como se sabe, Dunga não estava na Seleção. Entendeu? É muito difícil interpretar o que ele diz, especialmente quando tenta ser coerente:

"Fui ver o Mandela, um dos maiores sonhos da minha vida, porque era um líder sem poder, só com a mente e com a inteligência. Minha mãe me ensinou: meu filho você tem que ser educado. Não leve ninguém para a casa dos outros sem avisar. E aí fui criticado porque não disse para ninguém que ia lá. Disseram: "O Dunga quer voltar com o apartheid. Apartheid? Que coisa feia. E falam isso sem ter vivido".

Nem Joel Santana, tentando se expressar em inglês é tão confuso, embora engraçado, coisa que Dunga faz questão de não ser. "Eu falo o que as pessoas não querem ouvir!" Ninguém merece, né não?! É sério candidato a entrar para a história como o sujeito que desmoralizou a coerência.

Já pensou?

Tudo bem que a causa é nobre - ajudar Hillary Clinton a pagar dívidas de sua fracassada campanha presidencial -, mas e se Monica Lewinsky for a sorteada na rifa que promete ao vencedor "um dia com Bill Clinton em Nova York"? Qualquer um pode concorrer, a troco de US$ 5 de doação.

Em nome do Pai

O senador Mão Santa, célebre no Piauí, fez um discurso contundente a favor do nepotismo no Congresso: "Até Deus, quando teve que mandar alguém à Terra, escolheu quem? O Filho!" E ninguém na época cobrou do Pai abertura de concurso público para Jesus!

Trauma de campanha

Depois do susto que tomou dia desses na chegada ao Expocenter Norte, em São Paulo, José Serra já tem mais medo de escada rolante que de injeção.

O papa é português

Os portugueses que esperavam a visita do papa para chorar suas mágoas estão frustrados! Enquanto esteve no país, Bento XVI falou o tempo todo dos pecados, da culpa e do sofrimento da Igreja. Foi praticamente consolado pelos fiéis!

Cheio de dedos

FHC deu agora para dizer por aí que Lula escolheu Dilma Rousseff "no dedaço". Isso quer dizer o seguinte: o presidente não pode, depois, botar a culpa no torno de novo!

Acredite se quiser

A eleição de Kadafi no Conselho de Direitos Humanos da ONU é passo importante para a aceitação de Ahmadinejad na Agência Internacional de Energia Atômica.

Faz sentido!

José Serra está certo quando diz que "o Banco Central não é a Santa Sé"! Pelo menos não se tem notícia sobre denúncias de que o Henrique Meirelles tenha tentado acobertar casos de pedofilia no Copom.

Quem não tem?

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