Karsten Moran/The New York Times
Karsten Moran/The New York Times

A diversidade da arte produzida ao sul do deserto do Saara

Exposição em Nova York demonstra a pluralidade da cultura da região desde o século 2 a.C. até o século 19

Holland Cotter, The New York Times

07 de fevereiro de 2020 | 17h11

As listas de desejos se formam cedo. Quando eu tinha, talvez, dez anos, folheando livros na casa do meu avô, deparei-me com uma fotografia da Grande Mesquita de Djenné, no Mali, na África Ocidental, e pensei: este é o edifício mais estranho, mais maravilhoso e com visual mais fora do comum que já vi. 

De cor bege e com torres, tinha arestas suaves como um castelo de areia, mas as pessoas na rua caminhando perto dele pareciam anãs. Eu queria ir para lá. E acabei indo – fiquei de pé, extasiado, olhando as paredes da Grande Mesquita sob a luz do Sol e da lua. 

Semana passada, em uma visita à exposição Sahel: Arte e Impérios às margens do Saara no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, eu me senti um pouco como se estivesse lá novamente, mas agora com outras atrações inesperadas, incluindo esculturas tão sublimes quanto a própria mesquita.

Sahel deriva da palavra árabe para costa ou fronteira. Foi o nome dado pelos comerciantes que cruzavam o oceânico Saara séculos atrás às pradarias acolhedoras que marcavam a margem sul do deserto, terreno que agora inclui o moderno Mali, a Mauritânia, o Níger e o Senegal. 

Com base na arte produzida na região do Sahel, a cultura que os viajantes encontraram deve ter parecido um híbrido rico, porém confuso. A arte da região ainda parece assim, o que pode ser uma das razões pelas quais ela se posiciona no Ocidente, um pouco fora de um cânone “africano” aceito.

O Ocidente sempre viu a África de maneira limitada e categorizada como uma forma de exercer controle. Portanto, arte africana significaria escultura feita em madeira ou em metal em estilos chamados “primitivos”, que seriam independentes e imutáveis. 

Ou motivos musicais emprestados de outro lugar – da Europa renascentista, digamos, ou do vasto mundo islâmico. De um jeito ou de outro, a arte africana é tratada como um mero objeto. Você poderia reconhecê-la instantaneamente e colocá-la isolada em uma caixa com um rótulo estereotipado.

Mas a exposição no Metropolitan demonstra o contrário. Uma olhada ao redor diz que a história aqui é variedade dentro de variedade, diferença conversando com diferença. 

Novas ideias surgem do solo local e chegam de longe. Etnias e ideologias colidem e se abraçam. As influências culturais são trocadas, descartadas e recuperadas em um sequenciamento com caminhos diversos que é a própria definição de história.

Defender que a arte da África tem uma história, ou melhor, diversas histórias, é basicamente o objetivo da exposição. E se a história da arte do Sahel é difícil de mapear, é porque muita coisa desapareceu. 

A natureza e a destruição ideologicamente orientada cuidaram de fazer esse serviço. Muitos artefatos foram deslocados por escavações e saques amadores ao longo das décadas. Quantidades incontáveis de material ainda estão escondidas sob o solo.

Dado tudo isso, os 200 objetos reunidos no Metropolitan são, simplesmente por estar aqui, uma maravilha de se ver. E os organizadores da exposição – Alisa LaGamma, curadora responsável pelo departamento de artes da África, Oceania e Américas; Yaëlle Biro, curador associado; e Hakimah Abdul-Fattah, pesquisador associado – conseguiram organizar magistralmente essa maravilha como uma narrativa linear.

Começa-se com a apresentação de duas esculturas que estão entre as mais antigas já vistas e parecem monumentais de maneiras muito diferentes. Um megálito de mais de dois metros de altura, datado do período do século 8 ao 9, é de longe a maior obra da exposição. Mas com sua superfície avermelhada e formato em V rechonchudo, ele tem uma delicadeza intensa. 

A segunda escultura é muito mais antiga – anterior ao período de 2000 a.C. – e menor: do tamanho de uma pedra de seixo. Mas com alguns ajustes e entalhes de leve, um artista engenhoso conjurou um ícone do poder feminino de procriação.

Qual era o significado pretendido ou o uso ritual desses objetos? Não sabemos. Mas eles fornecem uma linha de base da antiguidade para os curadores construírem uma história da arte do Sahel africano. 

E eles o fazem, traçando-a quase esquematicamente, por datas e temas, em duas fileiras de minigalerias com um amplo caminho entre elas, que é alinhado com uma espécie de guarda de honra de uma dúzia de esculturas equestres em terracota, metal e madeira.

A cavalgada é uma bela ideia. As imagens, produzidas ao longo de um amplo período de tempo, dos séculos 3 ao 19, por culturas que hoje pertencem ao Mali e ao Níger, são amplamente variadas em material, estilo e provavelmente funcionariam isoladas, mas, em conjunto, sugerem uma espécie de solidariedade simbólica, uma afirmação da integridade e complexidade, passado e presente, de algo chamado Sahel.

Mas é a escultura e, especificamente, cerca de 20 figuras de terracota e madeira do Níger Médio, que formam o coração visual e emocional da exposição. 

Pelo menos uma dessas peças é mundialmente famosa: uma figura de terracota meio reclinada, andrógina, sem cabeça, com detalhes soberbos e encontrada pelos arqueólogos no sítio arqueológico de Djenné-Djeno, uma cidade antiga onde hoje é o Mali e que foi misteriosamente abandonada por volta de 1400 d.C.

Qualquer que tenha sido a crise – política, econômica ou ambiental – que levou ao desaparecimento dessa cidade, isso parece ter afetado toda aquela região. E ela foi precedida por uma onda quase convulsiva de criatividade artística, que gerou algumas das melhores esculturas em movimento até então feitas, incluindo as que estão exibidas na exposição.

Em uma delas, uma figura de gênero ambíguo pressiona a cabeça no solo como se estivesse sofrendo ou rezando. Em outra, uma mulher cruza os braços sobre o peito nu, em um gesto de devoção ou autoproteção. Em uma terceira, uma figura alta, curvada e esculpida em madeira, com traços hermafroditas, tem a elegância de um santo esculpido na cidade de Chartres, ao norte da França. 

Algumas formas são quase abstratas; fiéis com corpos de diapasões erguem-se suplicantes em direção ao céu. E algumas exibem uma espécie de realismo patológico, como no caso de uma figura de terracota cujo corpo brota botões de tipo tumoral. (Como a maioria das figuras de barro de rituais da época, esta provavelmente foi feita por uma mulher.)

A exposição termina com mais esculturas do Sahel, um conjunto magnífico de figuras em grande escala esculpidas em madeira pelo povo Bamana do Mali entre os séculos 18 e 20. Juntas, elas representam um tipo de “arte africana” que estamos acostumados a pensar como típico ou “clássico”. No entanto, quando você chega a esse ponto final da exposição, já aprendeu que, na cultura do Sahel, não há um único estilo “típico” ou um estilo que represente apenas uma “África”, e essa é uma lição inestimável.

Nesses próximos dias, a exposição no Met é o lugar para aprender isso. Grandes áreas do Sahel, especificamente o Mali, são politicamente turbulentas e difíceis, se não impossíveis, de acessar. (Recentes alertas de viagens do governo dos Estados Unidos declararam a parte norte e central do país, que inclui Djenné, como uma zona proibida para turistas. “Não viaje para o Mali, pois há risco de crime, terrorismo e sequestro”, é como eles avisam.) 

Não será assim para sempre. Mal posso esperar para voltar. Ainda está na minha lista de visitas obrigatórias. E nunca vai sair dela./ TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA 

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