Kunsthaus Zürich
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A diversidade de estilos na pintura de Félix Valloton

Artista suíço foi do estilo realista característico de sua época à transgressão de gravuras que se assemelham a cartuns

Roberta Smith, The New York Times

11 de janeiro de 2020 | 16h00

O pintor e gravador suíço Félix Vallotton era um artista intrigante e talentoso, mas também escorregadio. A exposição Felix Vallotton: Painter of Disquiet (Félix Vallotton: Pintor da Inquietação), no Metropolitan Museum of Art, faz quadro a quadro um pequeno inventário de sua carreira, no qual muitas vezes você não sabe o que esperar em seguida em termos de tema ou estilo, mesmo entre trabalhos de um mesmo ano.

A mostra começa com o emotivo Autorretrato aos 20 Anos, de 1885, pintado após três anos de estudo na Académie Julian, em Paris. O quadro mostra o artista perscrutando inteligentemente os anos à frente, já adepto de uma suave e sugestiva tendência a Manet, Ingres e Degas. Em A Menina Doente, uma esfuziante cena interior de 1892, seu estilo realista se endurece, parecendo ao mesmo tempo deslumbrante e ligeiramente frio.

No outro extremo está Cena de Rua em Paris, de 1897, que carrega as formas da pequena corte pós-impressionista autodenominada Os Nabis. O grupo incluía o amigo do artista Édouard Vuillard e o próprio Vallotton, embora ele não compartilhasse a preferência da turma por imagens acolhedoras e caseiras. Também de 1897 é seu retrato Thadée Natanson, no qual o realismo assume uma rígida ingenuidade que evoca o artista autodidata francês Henri Rousseau. Vattollon, que também fazia crítica num jornal de Lausanne, Suíça (onde nasceu, em 1865), fez sobre Rousseau uma resenha elogiosa. 

Mais adiante, em Nu no Quarto Vermelho (outro de 1897), o realismo de Vallotton se intensifica. A sinuosa, curvilínea, quase serpentina mulher do tema pode ter sido baseada numa fotografia. A pintura confirma que, enquanto Vallotton ignorava a maior parte do modernismo, ao mesmo tempo influenciava surrealistas como Dalí e Magritte, e também os pintores do Neue Sachlichkeit (novo realismo), dos pintores da Alemanha de Weimar.

Neste ponto da exposição, fica claro por que Vallotton não é considerado um pintor do primeiro time, ou talvez tivesse opções demais na ponta dos dedos. A variedade aqui às vezes lembra uma exibição grupal, ou a obra de algum artista pós-moderno excessivamente precoce que simplesmente curte sua arte.

Ajuda o fato de que a mostra começa com uma pequena e inesquecível galeria na qual o talento de Vallotton ocupa seu devido lugar. A galeria é devotada às suas inovadoras gravuras xilográficas dos anos 1890, que tornaram Valloton famoso, proporcionaram sua entrada na avant-garde parisiense e garantiram seu lugar na história da arte modernista. Suas ousadas composições em preto e branco mostram alguns dos prazeres, mas mais frequentemente esboçam as hipocrisias e desigualdades, da vida parisiense. Vallotton não via a vida cheia de finais felizes.

Vallotton fez suas primeiras gravações em madeira em 1891, inspirado nas inovações de artistas japoneses que eliminavam a riqueza de cores. Isso facilitou as formas curvas e as linhas básicas de sua arte.

Em um ano, Vallotton atingiu uma próspera carreira, ainda que não altamente remuneradora. Seus concisos trabalhos em claro e escuro apareciam em publicações e ilustravam livros e portfólios em Paris, Londres e Chicago. Eles foram quase instantaneamente vistos como radicais. Em meados dos anos 1890, Vallotton era ilustrador regular da revista esquerdista Le Cri, de Paris, e da Revue Blanche, de mesma tendência, que também cobria cultura (fundada por Alexandre e Thadée Natanson).

As gravuras têm a compressão e a legibilidade de cartuns e fotografias jornalísticas, o rigor formal da arte abstrata e a agudez literária de contos do modernismo. Elas retratam a ação nas ruas, como em A Manifestação, na qual forças policiais atravessam a golpes de espada uma concentração de anarquistas (com os quais o artista simpatizava). Corpos parecem ser arremessados para o alto até que a inventividade espacial da imagem se mostra: os militantes não estão no ar, mas sim estirados na rua, abandonados para trás à medida que o tumulto avança em nossa direção. A Carga reverte isso: a multidão se desloca freneticamente para a parte superior da imagem, dando a entender que policiais ainda não presentes na figura devem em breve preencher o espaço em branco, a rua esvaziada na parte inferior. 

Outras cenas do cotidiano mostram pedestres com guarda-chuvas; uma senhora resgatada de debaixo de uma carruagem; damas bem vestidas em uma loja de departamento examinando tecidos como se fossem especialistas; músicos solitários praticam com seus instrumentos. Se houvesse cinema noir no século 19, esses seriam seus storyboards. 

Vallotton fez muitos de seus melhores quadros no final dos anos 1890 e início dos 1900, quando juntou parte da própria tensão narrativa à pintura texturizada e de cores suaves dos Nabis. Sua Mulher de Vestido Púrpura Sob a Lamparina, de 1898, enfoca a pálida figura de uma mulher para a qual serviu de modelo Hélène Chatenay, companheira de Vallotton por uma década. Ela é vista no apartamento deles num sofá acima do qual está o quadro de Vuillard Interior Amplo com Seis Figuras, recentemente presenteado a Vallotton. A face da mulher é uma máscara de abatimento; seu braço está sobre a mesa a sua frente, estático, como se paralisado.

Vallotton procurou levar a seus quadros o simples e agressivo negro de suas gravuras, juntando-o a cores fortes, especialmente o vermelho. Um destaque dessa fase é A Visita (1899), um esboço de um homem recebendo uma mulher na silenciosa penumbra de um apartamento. No sombrio A Visita Sob a Luz da Lamparina, duas mulheres aparecem sentadas, em cores tão incaracteristicamente sombrias que lembram Walter Sickert, o pintor inglês da inquietação.

Depois de 1900, Vallotton parece entrar num declínio que se acentua após 1910. É difícil saber com certeza, pois, com 40 quadros e muitas gravuras, a exposição não é definitiva. Também não ajuda o fato de que a organização – de Dita Amory, do Met, e Ann Dumas, da Real Academia de Artes – tenha excluído dez pinturas vistas na exposição do último verão em Londres. A maioria delas era importante; muitas eram diferentes de tudo que está sendo na exposição do Met.

A mudança na arte de Vallotton é com frequência atribuída a seu casamento, em 1899, com uma mulher rica, através da qual ele chegou à alta burguesia que tanto desprezava. Duas amarras também foram eliminadas da vida de Vallotton: o relacionamento com Hélène Chatenay e suas gravuras. Ele também se tornou o relutante padrasto de três crianças, um dilema resumido em Jantar Sob a Luz da Lamparina (1899), uma cena sombria na qual o artista pinta a si mesmo como uma tênue silhueta encarando o rosto luminoso de uma menina através da mesa.

Sua crescente hostilidade com as mulheres chega ao auge com A Casta Susana, de 1922, pintura que beira o cartoon na qual a personagem bíblica tem traços de uma golpista. Após duas décadas nesse casamento, Vallotton se queixa em seu diário: “Que grande pecado o homem cometeu para merecer essa aterrorizante parceira chamada mulher?”

Mas três quadros pós-1900 se destacam na mostra pelo tamanho e ambição, apesar do crescente academicismo. O primeiro é maravilhosamente estranho: Os Cinco Pintores (1902-3), retrato de grupo dos Nabis (Vallotton incluído). Os artistas vestidos de negro surgem do fundo escuro, com mãos, rostos e cabelos endurecidos, como se Vallotton quisesse superar os retratos de grupo de Rembrandt por meio de Rousseau.

O quadro seguinte é um retrato da escritora Gertrude Stein (1907), um exercício mostrando um corpo sólido numa resposta conservadora ao colorido retrato protocubista da escritora feito por Picasso (o Met possui o Picasso, que entra na exposição). 

E, por último, A Branca e a Negra (1913), uma tentativa livre de inverter a dinâmica de poder entre a imperiosa cortesã e a empregada negra do Olímpia, de Manet. Aqui, a branca nua é mostrada com uma sonolência inocente, enquanto a negra, vestida de seda azul-acinzentada, senta-se ao pé da cama, pensativa e fumando. É uma pintura intrigante e conceitualmente absorvente – embora visualmente, nem tanto.

Como primeira exposição extensiva de Vallotton em Nova York em décadas, a mostra é inestimável, apesar de seus problemas. Ela reapresenta um artista que alcançou uma grandeza precoce no relativamente modesto campo da gravura e depois não conseguiu seguir caminho semelhante na pintura. Seu trabalho é um doloroso e fascinante espinho no corpo do ideal modernista da totalidade. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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