A Doutrina Obama

O presidente não mudou a história como queria, mas seu novo pragmatismo lhe dá vantagem sobre Romney em política exterior

JOSEPH S. NYE É PROFESSOR DA , UNIVERSIDADE DE HARVARD, AUTOR , DE O FUTURO DO PODER (BENVIRÁ), O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h10

JOSEPH S. NYE

Pesquisas nos Estados Unidos sugerem uma eleição presidencial acirrada em novembro. Embora nas sondagens o presidente Barack Obama hoje vença o candidato republicano rival, Mitt Romney, em termos de política externa, crescimento econômico lento e um alto índice de desemprego - principais temas em debate nas eleições -, as pesquisas favorecem Romney. E mesmo no campo da política externa, os críticos do presidente dizem que ele não conseguiu pôr em prática as iniciativas transformadoras prometidas há quatro anos. Estão certos?

Obama chegou à presidência quando a economia dos Estados Unidos e do mundo estavam em meio à pior crise financeira desde a Grande Depressão. Na verdade, assessores econômicos o alertaram de que, se medidas urgentes não fossem adotadas para estimular a economia, havia uma possibilidade em três de o país entrar numa depressão total.

Assim, embora tenha herdado duas guerras em curso, ameaças de proliferação nuclear pelo Irã e Coreia do Norte e o persistente problema do terrorismo da Al-Qaeda, os primeiros meses de seu governo foram consagrados a resolver a crise econômica doméstica e externa. Os esforços não resultaram em sucesso completo, mas Obama conseguiu evitar um resultado muito pior.

A retórica de Obama na campanha eleitoral de 2008 e nos primeiros meses da presidência foi ao mesmo tempo inspiradora como estilo e transformadora quanto aos objetivos. No primeiro ano de governo, ele fez um discurso em Praga em que estabeleceu como meta um mundo livre de armas nucleares; depois, no Cairo, prometeu um novo enfoque sobre o mundo muçulmano; e, no discurso ao receber o Prêmio Nobel da Paz, prometeu "levar a história na direção da justiça".

Em parte, essa série de discursos foi tática. Obama precisava cumprir sua promessa para dar novo rumo à política externa e, ao mesmo tempo, fazer malabarismos para solucionar problemas herdados do antecessor George W. Bush que, se deixados de lado, poderiam ainda provocar uma crise em sua presidência. No entanto, não há razão para acreditar que Obama estivesse sendo desonesto quanto a seus objetivos. Sua visão de mundo fora moldada pelo fato de ter passado parte da juventude na Indonésia e ter um pai africano.

De acordo com um recente livro da Brookings Institution, Obama tinha uma "visão ativista de seu papel na história", pretendendo "reformular a imagem dos EUA no exterior, especialmente no mundo muçulmano; pôr fim ao envolvimento do país em duas guerras; estender a mão para o Irã; restabelecer as relações com a Rússia com vistas a livrar o mundo das armas nucleares; desenvolver uma importante cooperação com a China em assuntos globais e mundiais; e pacificar o Oriente Médio". Mas seu histórico de realizações nesse campo tem sido ambivalente.

"Aparentemente, circunstâncias insolúveis fizeram do possível arquiteto de uma nova ordem global um líder mais concentrado em restaurar relações e responder a crises - especialmente a crise econômica global", continua o estudo. E, apesar de ter eliminado Osama bin Laden e debilitado a Al-Qaeda, algumas estratégias na área do contraterrorismo corroeram a atração exercida por ele em lugares como Oriente Médio e Paquistão.

Parte desse lado negativo resulta de eventos imprevisíveis; parte é produto de uma certa ingenuidade do presidente na primeira abordagem com relação a Israel, China e Afeganistão. Mas Obama foi rápido e prático em se recuperar dos erros. Como disse um seu partidário, ele é um "idealista pragmático".

Nesse sentido, embora não tenha abandonado a retórica em metas transformadoras como mudança climática ou armas nucleares, na prática seu pragmatismo lembra o de líderes presidenciais como Dwight Eisenhower ou George W. Bush. Apesar de sua relativa inexperiência em assuntos internacionais, Obama mostrou-se hábil ao reagir a uma complexa série de desafios de política externa. Isso ficou demonstrado pela nomeação de assessores experientes, administração cuidadosa dos problemas e, sobretudo, uma aguda inteligência contextual.

Isso não quer dizer que Obama não tenha obtido resultados transformadores. Ele mudou o curso de uma política impopular no Iraque e no Afeganistão; adotou táticas de contrainsurgência baseadas no uso menos dispendioso do poder militar e cibernético; intensificou o poder brando americano em muitas partes do mundo; e começou a mudar o foco estratégico dos Estados Unidos com relação à Ásia, uma região cuja economia é a que mais rápido cresce no mundo.

Com respeito ao Irã, Obama lutou para as Nações Unidas aprovarem sanções, evitando uma guerra prematura. E, embora as revoluções da Primavera Árabe tenham sido uma surpresa inoportuna, depois de alguma hesitação ele acabou tomando partido pelo que considerou ser o lado da história.

Num novo livro, Confront and Conceal, David Sanger descreve o que qualificou de "Doutrina Obama" (embora critique o presidente por não expô-la de modo mais claro): menos uso do poder militar, combinado com a vontade de usar unilateralmente a força somente quando a segurança dos americanos estiver diretamente envolvida; apoio das coalizões para lidar com problemas globais que não ameacem diretamente a segurança dos Estados Unidos; e mudança de enfoque "dos atoleiros do Oriente Médio para o continente que mais promete no futuro, a Ásia".

O contraste entre a morte de Bin Laden e a intervenção na Líbia ilustra a Doutrina Obama. No primeiro caso, o presidente administrou pessoalmente o uso unilateral da força, com um ataque surpresa em território paquistanês; no segundo, em que os interesses nacionais não estavam muito claros, ele esperou até a Liga Árabe e as Nações Unidas adotarem resoluções que conferissem legitimidade à retórica do poder brando e depois compartilhou a liderança das operações, com uso do poder duro, com os aliados da Otan.

Será preciso mais tempo para avaliar os efeitos da Doutrina Obama, mas à medida que as eleições presidenciais se aproximam, o presidente tem na política externa uma vantagem sobre o oponente. Ele não mudou a história como aspirava há quatro anos, mas o fato de ter adotado um enfoque mais pragmático é bom, particularmente se os eleitores continuarem com dúvidas sobre a economia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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