A dura vida do intérprete

População afegã não gosta dele. Patrões americanos são ingratos e bomba não vê neutralidade

Joshua Foust*,

27 de setembro de 2009 | 03h09

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Em contrainsurgência, a coisa mais importante é ganhar a população local. O general Stanley McChrystal, comandante supremo de todas as forças da Otan no Afeganistão, estava certo ao advertir que uma "crise de confiança entre afegãos" põe em risco o esforço de reconstruir o país. Para a maioria dos soldados americanos, porém, a única conexão com os moradores locais - sejam eles soldados do Exército afegão ou os aldeões que estão tentando proteger - é mediada por intérpretes.  

 

AÍ O SARGENTO DISSE... - Marine e civis afegãos: ganhar simpatia da população pesa mais do que matar taleban

A doutrina do Exército dos Estados Unidos descreve intérpretes como "vitais", o que é bastante óbvio levando-se em conta a quantidade de línguas faladas no Afeganistão: dari, pashto, tajique, usbeque e outras. Mas a maneira como os militares usam tradutores é com muito frequência casual e, algumas vezes, perigosamente negligente. Muitas unidades consideram os intérpretes um mal necessário, e mesmo os que são americanos de descendência afegã são com frequência escarnecidos ou maltratados por serem muito obviamente "diferentes".

A Mission Essential Personnel, principal empresa que fornece intérpretes no Afeganistão, tem diretrizes básicas,como as de que os intérpretes precisam receber um lugar para dormir e ser alimentados. Fora disso, a maneira como são tratados é deixada com frequência a critério da unidade em que estão. Muitas vezes, eles são tratados como deveriam: como membros vitais de uma equipe. Às vezes, porém, são claramente desrespeitados.

No início do ano viajei pelo centro do Afeganistão como membro civil de uma Equipe Americana de Reconstrução Provincial. Levávamos uma tradutora - nós a chamávamos Brooklyn - que havia nascido e crescido na Califórnia. Durante a apresentação inicial antes de o comboio partir, porém, o comandante da equipe, um coronel da Força Aérea, pediu que Brooklyn saísse, referindo-se a ela como "a mulher local".

Os slides da apresentação estavam marcados como SECRETO, o que causou um compreensível alarme no coronel. Brooklyn, porém, tinha autorização da segurança para que estivesse presente. O problema real talvez fosse o fato de ela estar usando um lenço de cabeça, como seria de se esperar de uma muçulmana devota.

No dia seguinte, enquanto viajávamos entre duas bases, caímos num congestionamento de trânsito numa ponte, com dezenas de soldados e policiais afegãos espalhados por ali. Nosso coronel, que havia deixado o próprio tradutor na base, desceu de seu Humvee e pediu a Brooklyn para começar a traduzir para ele. Após discutir a questão com as forças afegãs, ela explicou que eles haviam encontrado várias bombas embaixo da ponte e estavam esperando a chegada de uma equipe americana de desativação. Eles provavelmente haviam salvado nossas vidas, mas só recebemos essa mensagem porque tínhamos uma intérprete, aquela que o coronel tratara como uma espiã inimiga na noite anterior.

"Nosso intérprete é bem mais importante que nossa arma", disse-me Cory Schulz, um major do Exército que chefiava uma equipe tática incorporada a tropas afegãs na Província de Paktika. Com um intérprete, explicou, pode-se comandar centenas de soldados afegãos; com uma arma, só podemos nos defender.

Intérpretes fazem mais que falar e ouvir. Depois de oito anos de guerra do Afeganistão, as tropas americanas só recebem um treinamento cultural mínimo antes de ser mobilizadas. Assim, os intérpretes com frequência servem como consultores culturais - ajudando americanos a conhecer as nuances do comportamento típico afegão.

O major Schulz disse que seu terp, como eles são muitas vezes chamados, salvou sua vida mais de uma vez. Numa ocasião, o intérprete ajudou sua unidade a identificar um terrorista suicida numa grande multidão antes que o homem pudesse acionar os explosivos escondidos embaixo das roupas. O homem estava agindo de maneira nervosa reconhecível por afegãos, mas não por americanos, e o tradutor captou isso.

Oficiais americanos e soldados me contaram em diversas ocasiões como os intérpretes são vitais. No entanto, não existe uma maneira padronizada para seu uso pelas unidades, o que pode causar incidentes aviltantes como o sofrido por Brooklyn.

Com frequência, os insultos são mais sutis, mas mais pessoais. Na Província de Khost conheci um intérprete chamado Afzal, que trabalhava para uma equipe de civis do Exército que fazia pesquisa econômica e cultural. Afzal havia ajudado a equipe por muitos anos, passando por três mudanças de chefia. Havia muito que ele vinha tentando obter visto do Departamento de Estado para os Estados Unidos, algo que muitos intérpretes esperam conseguir em razão das ameaças a suas famílias. Os extremistas começaram enfim a colar cartas ameaçadoras em sua porta durante a noite.

Azfal me contou que, dois anos antes, o então chefe da equipe, um tenente-coronel, havia prometido encaminhar a papelada para o visto e avalizar seu status de intérprete, mas aparentemente nunca o fez. O chefe de equipe seguinte, outro oficial, fez a mesma promessa, mas também aparentemente nunca a levou avante. Foi somente com a chegada do terceiro chefe de equipe, um civil, no início deste ano, que Azfal conseguiu encaminhar sua petição. A demora complicou o procedimento - pois este ano o Departamento de Estado reduziu o número de vistos disponíveis para intérpretes do Afeganistão e do Iraque de 500 para 50.

Brooklyn me contou que o ocasional oficial resmungão não era seu único problema. Ela se queixou também da administração negligente da Mission Essential Personnel, dizendo que a empresa tendia a contratar intérpretes idosos, inadequados para uma viagem acidentada numa zona de guerra, só porque eles passaram num teste do idioma. Ela disse que a empresa não era receptiva a queixas sobre maus-tratos e molestamento sexual.

Para ganhar corações e mentes, a maneira como tratamos afegãos como indivíduos pesa mais que quantos taleban matamos ou quantas estradas construímos. Se não conseguimos tratar nossos intérpretes militares com um mínimo de respeito, por que os civis afegãos confiariam em nós para ajudá-los a reconstruir sua nação?

*Consultor para inteligência e defesa, especialista em Afeganistão, escreveu este artigo para The New York Times

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