A efeméride do efêmero

Nas comemorações do centenário, há pouca preocupação com o futuro do legado da imigração japonesa

Hugo Segawa*, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2008 | 21h36

O mandarim está em alta. Os estrategistas apontam a China como o país do momento. Cerca de três décadas atrás, o mandamento era aprender japonês. A China é o Japão de ontem. Há algum tempo, qualquer museu europeu ou norte-americano deveria imprimir seus folhetos em japonês. Os chineses ainda não "invadiram" os pontos turísticos do planeta, como o fizeram os nipônicos, de modo tão característico. Para as vendedoras da Printemps ou da Harrods, não deve importar se essa gente de olhares e falas diferentes vem do Japão, da Coréia ou da China.O Japão não é mais o país atração da mass media ocidental, pela sua economia outrora pujante, pela exótica tradição milenar e pela tecnologia e inovação, como há 40 anos. Todavia, resta muita curiosidade por sua cultura invulgar, que ainda pode arrebatar o mundo. A antenada São Paulo Fashion Week, que em 2007 embarcou no oportuno e planetário tema da sustentabilidade, este ano homenageia os cem anos da imigração japonesa no Brasil. A escolha temática é bem local, contrariando a pretensão internacional do evento, mas com convidados ligados ao mundo fashion japonês, globalizado. Paira a sensação de que esse centenário tem servido de álibi para muitas iniciativas. Álibi, substantivo masculino: "justificação ou escusa aceitável".O circuito cultural é termômetro de prestígio. Os espaços carioca e paulistano do Centro Cultural Banco do Brasil promoveram eventos relacionados ao centenário da imigração. As mostras Nippon: 100 Anos de Integração Brasil-Japão, em cartaz no Rio de Janeiro, e Um Círculo de Ligações: Foujita no Brasil, Kaminagai e o Jovem Mori, encerrada no começo deste mês em São Paulo, são antípodas no trato do tema para cuja comemoração foram organizadas. Aracy Amaral tornou visível uma pesquisa de décadas, tirando da obscuridade brasileira a não obscura personagem, no panorama internacional, de Tsuguharu Foujita (1886-1968), um artista franco-japonês que visitou e dialogou com a América Latina e o Brasil. A curadoria assinalou a pouco conhecida trama de Foujita com artistas imprescindíveis da arte nipo-brasileira: o japonês Tadashi Kaminagai (1899-1982) e o brasileiro Jorge Mori (1932-). A exposição estabelece um círculo de ligações entre Japão e Brasil nunca antes ressaltado, com sutileza e beleza plástica. Em nenhum momento ostentando a questão da imigração, embora completamente imersa na mobilidade dos personagens. Por outro lado, a curadora da mostra do CCBB do Rio de Janeiro, Denise Mattar, espanta-se de que ela, uma não-descendente, "realize uma das exposições comemorativas do centenário", e afirma "mergulhar num mundo novo e fascinante". É curioso constatar que, apesar de o título da exposição alardear a "integração Brasil-Japão", cerca de 15% do catálogo seja dedicado a documentos de imigração, 16% seja sobre arte nipo-brasileira e 69% exiba manifestações exclusivas do gênio japonês: pipas, samurais, quimonos, arquitetura, ukiyoe, ikebana, shodô, origami, porcelana, chadô, mangá, anime, cosplay, robôs. Para completar o repertório básico que quase toda a mídia brasileira dissemina para estereotipar a cultura japonesa, só faltou uma seção dedicada às gueixas, que comparecem, belíssimas, retratadas nas estampas ukiyoe. Sem dúvida percorrer os ambientes do CCBB carioca é uma festa para os olhos. No entanto, esse fascínio fácil poderia ser oferecido a qualquer tempo, em qualquer lugar. O catálogo poderia se desmanchar em bonitos livros menores, desses vendidos em livrarias de aeroportos ou butiques de museus, sem a chancela do centenário da imigração.Duas belas exposições em São Paulo também retratam atitudes distintas a propósito da mesma celebração: O Japão em cada um de Nós, no Banco Real e, no Instituto Tomie Ohtake, Laços do Olhar. Esta é uma mostra de artes plásticas, fotografia e arquitetura de sofisticada elaboração. Diria também que é labiríntica. Não em termos físicos (aparentemente impossível nos generosos espaços do ITO), mas no que pretendeu mostrar. São segmentos pequenos, às vezes microssegmentos, nos quais há o intento de estabelecer "relações entre o Brasil e o Japão desde o século 19", numa disposição acumulativa, quase sem transições. Do japonismo ao fascínio de Haroldo de Campos sobre cultura nipônica, da onipresente (nestas comemorações do centenário) exposição de artistas nipo-brasileiros à tentativa de estabelecer alguma reciprocidade entre o Pavilhão do Japão na Exposição Internacional do Rio de Janeiro de 1922 e os pavilhões de Paulo Mendes da Rocha (1970) e Ruy Ohtake (1990) no Japão, de tudo há um pouco, sem o risco de aprofundamentos. A mesma coleção de fotografias feitas por Pierre Verger no Japão na década de 1930, tão bem desdobrada em imagens e explicações na mostra realizada na Caixa Cultural São Paulo (encerrada em maio), comparece compactada e sem maior informação em Laços do Olhar.O Japão em cada um de Nós é a mostra com um enfoque inteligente, simpático e mais correlato ao centenário. Diferentemente de boa parte das iniciativas mencionadas (e não mencionadas também), ela não trata do Japão, mas dos imigrantes japoneses - servindo como espelho, apalpando suas memórias. Sua abordagem é tradicional e simples, e pode-se especular se a montagem não poderia ter uma índole menos colecionista, que a aproxima de um gabinete de curiosidades (aliás, cenário que ronda também outras exposições). Talvez isso promova, nessa exposição, mais interatividade com seus visitantes do que o deslumbramento oferecido pelas demais mostras. O Japão em cada um de Nós evi-dencia por contraste, entre as várias celebrações do centenário da imigração japonesa, que o que está mais presente é o Japão. E menos presente, os imigrantes japoneses.Sente-se no conjunto das várias iniciativas - para além das citadas também - uma boa dose de improviso. Imaginaria que este centenário seria uma data de chegada, de consolidação de projetos como coroamento de uma comemoração. Ao contrário, 2008 está sendo um ano de partida para propostas. Como foi 1998. Ou 1988. Ou 1978. São efemérides do efêmero. Caberia, nesta altura, autoquestionar: partida para onde, para quê? Estas são reflexões que pairam sobre os descendentes de japoneses.Na página web da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil consta uma pesquisa na qual se pergunta: qual o objetivo principal do centenário? As alternativas de respostas e a tabulação parcial: homenagear os primeiros imigrantes (47,4%); aumentar o intercâmbio Brasil-Japão (25%); divulgar a cultura japonesa no Brasil (24,6%); divulgar a cultura brasileira no Japão (3%). Sintomático que, entre as respostas predeterminadas, não haja alternativa apontando algum futuro. Destaca-se, com expressiva vantagem, um traço genuinamente nipônico: o culto ao antepassado. No filme Balada de Narayama, o magistral diretor Shohei Imamura narra uma pungente prática num pobre vilarejo japonês do final do século 19. Para diminuir o número de bocas famintas, os septuagenários devem se recolher à gelada montanha para morrer. Mas antes do auto-sacrifício, a personagem central, a zelosa senhora Orin, aos 69 anos, se empenha em conseguir uma esposa para seu filho. O contexto não é muito diferente daquele dos passageiros do Kasato Maru. Felizmente as comemorações do centenário são o avesso do doloroso hábito do vilarejo. Mas nesse roteiro de avessos, está faltando a atitude sábia da velha Orin: quem está preocupado com o futuro do legado da imigração japonesa? *Hugo Segawa é arquiteto, professor livre-docente da FAU- USP. Foi professor visitante da Tokyo University of ScienceQUARTA, 18 DE JUNHOMaratona do sorrisoO protocolo foi trocado pela informalidade na visita do príncipe Naruhito ao Congresso. Ele provavelmente nunca apertou tantas mãos em um só dia, além de ser tocado, encarado, fotografado de todos os ângulos. Naruhito manteve um sorriso congelado no rosto.

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