A escolhida

Na novela de 2010, Lula já teria optado por Dilminha - nossa sempre discreta amiga dos bailinhos

Humberto Werneck*, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2008 | 23h14

Em Minas Gerais não acontece nada, mas o pessoal se lembra de tudo - e neste momento estou me lembrando de algo que não me aconteceu, e que poderia ter sido decisivo para o meu destino: dependendo das eleições presidenciais de 2010, corro o risco de passar à História como aquele panaca que, tendo tido a chance, não tirou a Dilminha para dançar. Poderia, no mínimo, ter sido o pai do PAC. Agora é tarde: um outro, Luiz Inácio Lula da Silva, já tirou a moça - e, em certo sentido, talvez eu é que tenha dançado. Nisso é que deu, uma vez mais, não ter ouvido o que a minha mãe dizia, quando, na remota adolescência, eu saía para os bailinhos, que em Belo Horizonte, naquela Idade Média, se chamavam "hora dançante". Dizia a dona Wanda: não dance apenas com as bonitinhas, meu filho; tire também as feinhas, porque elas muitas vezes têm encantos insuspeitados. Vou me desmentir: dancei, sim, com meninas que não eram bonitinhas, sendo que algumas eram feias, e até minuciosamente feias, o que não as impedia de portar encantos escondidos, não necessariamente sob os recatados vestidos da época.A Dilminha, perdão, a ministra e presidenciável Dilma Rousseff, não era feia, justiça lhe seja feita, embora a alguns de nós, os frangotes da turma do bairro São Pedro, seu rosto, com aqueles dentinhos, sugerisse um esquilo, sim, um daqueles esquilos que a gente tinha visto nos desenhos de Walt Disney nas matinês do Cine Tupi. Nossa possível futura presidente, então simplesmente Dilminha, em seu simpático esquilismo, não era, repito, feia. Estava mais para bonitinha. Mesmo porque, lembra o meu amigo Jaime Prado Gouvêa, esquilo não é marmota, e, entre os roedores de Brasília, até que faz boa figura.Dava, porém, o azar de pertencer a uma turma em que cintilavam a Neninha, a Doia, a Sandra, a Sheila. Ou mesmo a Inês, em cujos ombros uma discreta adiposidade adolescente cavara covinhas, uma de cada lado, ideais, ao ver dos cafajestes que éramos, para armazenar rapé, o único pó que podia entrar em nossas bem-comportadas aspirações. Digamos que o contraste com quatro ou cinco indiscutíveis beldades não era favorável à Dilminha. Mas nenhuma delas acabou ministra, veja você a nossa falta de descortino. Com a mesma cara de esquilo, a antiga moradora da Rua Major Lopes subiu a altas cavalariças federais, na qualidade - por enquanto - de "a mãe do PAC". Havia também o fato de que a eleita de Lula talvez não fosse, aos olhos preconceituosos de algumas famílias arraigadamente mineiras, "gente do nosso meio". Não era mesmo. Seu Rousseff, o pai dela, era búlgaro, o que ali na Major Lopes e adjacências soava como bizarria, para não dizer anomalia. Salvo nos anos em que foi construída, no final do século 19, quando acolheu magotes de italianos, Belo Horizonte, ao contrário de São Paulo, nunca teve fartura de estrangeiros; na minha rua, quase chegava a ser um corpo estranho "o" alemão, e no meu colégio havia quem se arregalasse à vista dos irmãos Kamei, tudo aquilo que nos era dado conhecer em matéria de japoneses naquela cidade de 600 mil habitantes. Imagine então o pasmo que poderia causar a nacionalidade de seu Rousseff a quem, como eu, não conhecia sequer O Púcaro Búlgaro, romance que Campos de Carvalho iria lançar anos depois. Não sendo diretamente búlgara nem inapelavelmente feia, a Dilminha era acolhida sem restrições por nossa turma, a turma do Butantã, assim batizada porque em basquete, vôlei e futebol de salão (ainda não se dizia futsal) não nos considerávamos menos do que "cobras". Com bastante freqüência, improvisávamos "horas dançantes" na casa de um, na casa de outra, o que muitas vezes incluía, no dia seguinte, um mutirão para devolver à sala de visitas um aspecto menos caótico. Quer dizer, sem restos de comida, fatalmente biscoito salgadinho Piraquê, nem os copos que na véspera tinham se enchido de cuba-libre ou de hi-fi, drinque no qual coabitavam vodca e Crush. Hi-fi também era o equipamento de som, que se chamava "eletrola", e em cujo prato girava obsessivamente a longa série de LPs Feito para Dançar, de Waldir Calmon, alternando com a série "S" (S?Music, S?Wonderful, etc.), de Ray Conniff. Bem à mineira, mas com os hormônios em ebulição, ficavam os rapazes num lado da sala, e, no outro, as meninas, sentadas em fila, como num mostruário, com seus vestidos rodados, seus cabelos armados e os saltinhos baixos que lembravam os sapatos anchos da Vovó Donalda. Ali permaneciam, coitadas, a anos-luz do feminismo, à espera de que os mancebos se dignassem atravessar aquele espaço e, às vezes com um mero aceno de cabeça, as tirassem para dançar. Quando isso acontecia, a escolhida confiava à vizinha o seu banlon ("joga um casaquinho nas costas", prescreviam as mães, ainda que fosse verão) e ia bambolear pela sala, a maioria delas pelejando para manter decorosa distância do rapaz, cujos propósitos eram exatamente opostos. Mandava a etiqueta que antes de dizer "com licença" a menina concedesse ao moço pelo menos três músicas, e, desde que não fosse com você, era divertido ver o encabulado "branco" que nos intervalos das faixas se instaurava entre os pares menos à vontade, o rapaz a chutar seus próprios calcanhares. Mais de três músicas já seria, em linguagem de hoje, bonus track. Aí tem coisa, maliciavam invejosos dos dois sexos.Olhando para trás, para dentro desse tempo longínquo, vejo a Neninha, a Doia, a Sandra, a Sheila, vejo sobretudo a Inês, a das covinhas de rapé, que, embora não fosse a mais bonita, era a que melhor dançava, convertendo-se mesmo em grande espetáculo quando nos braços do Rubinho, de longe o nosso mais competente pé-de-valsa. Vejo todas elas - mas não vejo a Dilminha, a quem os fados (musicais, inclusive) não davam a chance de abandonar por um momento o seu banlon. Também não me lembro de uma única serenata - e fazíamos tantas - que tivesse ressoado ao pé das búlgaras janelas dos Rousseff. Incompetentes na prospecção do futuro, O Zoiúdo e o Polinômio, os jornaizinhos mimeografados da turma, só muito en passant se ocuparam da Dilminha. Um pouco mais adiante, naquele momento em que, tendo chegado ao fim o socialismo da adolescência - os mesmos pais chatos, as mesmas proibições, a mesma semanada curta -, as turmas se dispersam, ou se fracionam em duplas, trios, no máximo quartetos, naquele momento perdi a Dilminha de vista. Dela passei a ter raras e ralas notícias, e me pergunto se naquela vã espera com o banlon no colo ela não estaria a ruminar outro tipo de dança em que acabaria se embalando, a da política. Dança literalmente marcial, saberíamos mais tarde, quando os jornais noticiaram a prisão da perigosa guerrilheira Dilma Rousseff, integrante do grupo subversivo Colina, desmontado pouco depois de baixar sobre nós o Ato Institucional n.º 5 - flagelo que, entre outros efeitos nefastos, deu oportunidade a que alguém criasse a expressão "anos de chumbo".Corte rápido no tempo: estou eu, semanas atrás, lançando um livro em Belo Horizonte quando na fila de autógrafos ressurge um rosto desaparecido fazia três, se bobear quatro décadas. "Saudações aeroviárias!", disse eu me levantando para apertar a mão do camarada simpático cujo nome prefiro não dizer aqui. Tinha à minha frente ninguém menos que o autor do primeiro seqüestro de avião realizado no Brasil, um Caravelle da Cruzeiro do Sul desviado para Cuba. Pois bem, um pouco antes de embarcar nessa aventura o intimorato aeronauta havia tirado a militante Dilminha, ou que codinome tivesse, não para dançar, mas para casar. Depois de autografar o livro, tive a idéia provavelmente infeliz - qualquer que tenha sido o desfecho daquela dança conjugal - de lembrar a meu leitor que ele por pouco não estaria hoje morando em Brasília. Desconfio que, não só naquele avião, o moço foi passageiro.Voltou-me então a lembrança de uma quadra pós-adolescência, pós-turma do Butantã, em que as cobras seriam outras, peçonhentas, e em que aquele camarada, antes de voar nas asas da Cruzeiro e nos braços da Dilminha, não exatamente nesta ordem, podia ser visto no Bucheco, efêmero bar que veio a ser um clarão na bocejante noite e nos comedidos costumes daquela Belo Horizonte. Clarão em sentido figurado apenas, porque lá dentro o que imperava era uma propiciatória penumbra. O Bucheco ficava na sobreloja de um prédio algo soturno, ainda não inteiramente concluído, no centro da cidade. Point de "mudernos", dir-se-ia hoje, a "mudernidade" podendo consistir no inusitado das sandálias com que o escritor e jornalista Ivan Angelo calçava a franciscana sobriedade belorizontal. Fernando Gabeira, que também batia ponto no Bucheco, lucubrava uma novela-cabeça da qual chegou a escrever 34 laudas. Moças de ar enfastiado, no que se julgava ser uma atitude existencialista, bebericavam batida e, subitamente revoltadas, esmagavam o cigarro no cinzeiro: "Destesto meu pai!", algum desaforo assim. No Bucheco, o freguês é que fazia a conta. A trilha sonora era o jazz cerebral de Milt Jackson, Dizzie Gillespie ou Miles Davis, era também Bach, Mozart e, insistentemente, a Missa Luba. Não me levem a mal se abro aqui um livro de 1992, O Desatino da Rapaziada, para citar a mim mesmo: a casa "tentava copiar o estilo do mitológico Juão Sebastião Bar, que o jornalista Paulo Cotrim abrira em São Paulo e que vinha funcionando um pouco como o centro da boemia cultural paulistana. O Bucheco não chegou a tanto, mas alimentou, no imaginário erótico-existencial de Belo Horizonte, um folclore desproporcional ao que de fato lá se passava. Desproporcional, também, a seu brevíssimo tempo de vida, menos de dois anos. Acabou no golpe de 1964, não porque em suas mesas se tramassem revoluções, mas porque os proprietários, longe do balcão, militavam em organizações políticas clandestinas". Um deles, de quem já se falou, tempos depois voaria para Havana sem pagar passagem. Sua ex-companheira também deve ter viajado de graça, rumo ao Planalto, quando, muitos anos mais tarde, o presidente Lula tirou-a para dançar.Deve estar assim de gente brigando para segurar o banlon da Dilma. * Humberto Werneck é jornalista e escritor, autor de O santo sujo (Cosac Naify) e O desatino da rapaziada (Companhia das Letras)

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