'A escuta não era imprescindível'

Para promotor, investigação de 2005 já provava a lavagem de dinheiro na simbiose Corinthians/MSI

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2007 | 12h28

Há doenças chamadas doenças de livro, dessas clássicas, em que o paciente chega para a consulta com todos os sintomas à flor da pele. E há investigações de livro, com sinais claros do crime em questão. O promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro vê assim a apuração do caso doentio entre a MSI e o Corinthians: uma investigação de livro sobre lavagem internacional de dinheiro. "Ali temos todas as etapas do crime acontecendo como na teoria", diz, em seu gabinete no Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco). Carneiro, juntamente com o promotor Roberto Porto, foi quem deu o pontapé inicial na investigação que envolve diretores do Corinthians, magnata russo, testa-de-ferro iraniano, jogadores "distraídos", ex-esposa atenta e sabe-se lá mais quem num processo enciclopédico. "Em abril de 2005, quando apresentamos nosso relatório final com 13 volumes, já sabíamos que Boris Berezovski estava por trás da parceria, mas queriam uma prova matemática, como se alguém fosse passar recibo de lavagem de dinheiro", afirma. Ele conta que, até a denúncia do Ministério Público Federal, dois anos depois, a parceria Corinthians/MSI continuou leve e solta, o que fortaleceu os envolvidos e esfacelou ainda mais a estrutura do clube. Promotor também do caso Celso Daniel e da máfia do apito, que investiga o caso Edilson Pereira e está suspensa por liminar, Carneiro traça a seguir os passos que levaram ao primeiro diagnóstico de um crime evidente. A SUSPEITA"A investigação começou com uma representação do deputado estadual Romeu Tuma Júnior ao procurador-geral da República, em 20 de janeiro de 2005. O deputado, que é conselheiro do Corinthians, mostrava a preocupação de que o time estivesse sendo usado num esquema internacional de lavagem de dinheiro envolvendo a parceria Corinthians/MSI e o magnata russo Boris Berezovski. O procurador-geral determinou que a investigação fosse realizada pelo Gaeco. Muitos achavam que o fato de Berezovksi ser estrangeiro implicava, de imediato, uma investigação federal. Mas um estrangeiro pode cometer crimes de competência da Justiça Estadual. Num primeiro momento, cabia ao Gaeco fazer a investigação. O ENCANTAMENTO"Antes da MSI não havia, na história do Ministério Público do Estado de São Paulo, investigações misturando crime organizado e futebol. Foi um marco. Tínhamos de fazer uma série de diligências. Falamos com o iraniano Kia Joorabchian, com os diretores do Corinthians, com representantes das offshores, que tentavam acobertar os parceiros internacionais do clube. Perguntávamos tudo, menos se Boris Berezovski participava da parceria. Afinal, estavam todos treinados para dizer que não. Ao final de cinco horas de depoimento, já de guarda baixa, depoentes relatavam viagens a Londres e encontros com o russo. Mostravam-se encantados com a mansão de Berezovski, ?tão maravilhosa que uma chuva cai naturalmente no centro dela?. ?Ele mora do lado da rainha?, diziam. Muito impressionado, um dos dirigentes contou que, num jantar, Berezovski teria saído da mesa para atender a um telefonema de Tony Blair. O PROCURADO"Fomos diversas vezes a Brasília atrás dos relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que mostravam o histórico de Berezovski e dos comparsas dele. Descobrimos que era procurado no mundo inteiro, que se aproveitou da queda do regime na antiga União Soviética, pegou um patrimônio violento do povo russo, bilhões e bilhões de euros, e levou rapidamente para fora do país. A idéia dele era trazer o dinheiro para Brasil e Argentina e transformá-lo em compras milionárias de jogadores de futebol, um valor que voltaria legitimado para o continente europeu. Estávamos dando ensejo a uma aproximação nefasta como essa. Agora, por que o governo inglês concedeu asilo político para um criminoso comum condenado na origem por lavagem de dinheiro, fraudes em empresas do Estado e formação de quadrilha, é uma questão que só o governo inglês pode responder. OS INTERMEDIÁRIOS"O processo foi facilitado, em parte, pela colaboração de um escritório de advocacia que havia montado as sete offshores, a maioria nas Ilhas Virgens Britânicas. A sede está situada em uma grande offshore desse país. Os advogados do escritório disseram não saber do teor do negócio, o que não prevaleceu. Foram denunciados pelo Ministério Público Federal. OS CONSELHEIROS"Contamos com a ajuda de diversos profissionais de dentro do próprio Corinthians interessados em elucidar a parceria. O sr. Alberto Dualib foi avisado por juízes, ministros, advogados criminalistas, pelo Roque Citadini, hoje presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Se Miguel Marques e Silva, que é desembargador, não servia como referência, se Romeu Tuma, com sua experiência policial, não servia, como o sr. Dualib pode alegar que foi traído? Quando Rubens Approbato Machado, grande corintiano, ouviu a descrição que Alberto Dualib fez dos gestores da MSI, cochichou para alguém do lado: "Ele está descrevendo um estelionatário internacional". Jamais o Corinthians precisaria ter virado um caso de polícia no Ministério Público. O DESCASO"A investigação começou em fevereiro de 2005 e terminou em abril do mesmo ano, mas não fomos imediatamente ouvidos. Queriam uma prova matemática, uma espécie de recibo, ou então a interceptação telefônica, como se ela fosse absolutamente imprescindível nesse tipo de apuração. Ela não é, tanto que tem caráter excepcional. Não deve ser interpretada pela sociedade brasileira e por quem opera a investigação como única forma de produção de prova. O GOVERNO"Como concluímos que o crime era de competência da Justiça Federal, ele não poderia ser denunciado pelo Gaeco. O Ministério Público Federal complementou o processo até a denúncia, em julho de 2007. Nesse período, tínhamos sinais de que Berezovski queria se aproximar do governo brasileiro. Com seu poderio de capital, prometia investimentos em áreas variadas: salvar a Varig, aplicar em biodiesel, construir um estádio para a nação corintiana. A PF busca agora descobrir a responsabilidade de autoridades que apostavam que investimentos de um criminoso internacional serviriam para o Brasil. Lavagem de dinheiro é um câncer. Ainda que possa produzir riqueza aparente, logo em seguida destrói qualquer economia nacional.AS NOTAS "A lavagem de dinheiro provocou um rombo no Corinthians. O clube está completamente disforme, desgovernado. A parceria prometeu um sonho, levou o sonho embora, deixou um título para ser discutido e cenas de busca e apreensão, além de notas frias. Há dois meses apreendemos 80 delas, demonstrando que o Corinthians foi sangrado em R$ 536 mil. Contrataram um empresa de assessoria contábil, que nunca prestou assessoria alguma, mas apresentava notas de R$ 10 mil, R$ 15 mil aos diretores do Corinthians, os mesmos da parceria criminosa, para que dividissem entre si. Estamos em busca de indícios da participação de outras empresas no mesmo esquema. Se a gente se deparar com eles, aí a multiplicação do prejuízo que o clube sofreu será muito maior."QUARTA, 12 DE SETEMBROE daí que eu falei? O presidente licenciado do Corinthians, Alberto Dualib, afirma que escutas telefônicas da PF não são prova contra ele. Nas gravações, ele fala a Duprat sobre possível compensação financeira caso abrisse as portas do clube para um empresário israelense.

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