A esfinge messiânica

Lula paira como um aiatolá. Mas é culpa dele ou do raso Fla-Flu que devora a política nacional?

Carlos Melo, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2012 | 03h10

Ainda chiava a chapa quente da revelação do encontro que tivera com o ministro Gilmar Mendes e o ex-presidente Lula já se metia em novo quiproquó. Dessa vez, fora ao Programa do Ratinho, levando consigo Fernando Haddad e Luiz Marinho. O primeiro, candidato na eleição paulistana; o segundo, aposta para o Estado. Uma gritaria danada se espalhou: uns asseveravam, "é crime eleitoral!"; outros comemoravam algo como o retorno de D. Sebastião. Esse é Lula, o controverso - há mais de uma década, figura central da política brasileira. Pelo tanto que ainda mobiliza, continuará sendo.

Claro, poderíamos consumir este espaço discutindo aspectos (i)legais da entrevista. Não é questão menor e diz respeito à qualidade das instituições. Certamente, a Justiça se pronunciará. Mas, que se tenha em mente, a pena será multa entre R$ 5 mil e R$ 25 mil. Outros candidatos também transgridem, a relação custo-benefício é grande negócio.

Políticos são vivos. Se pudessem, sem distinção, participariam logo da novela das 9h, ao lado de Tufão e Carminha. Está para nascer o político que rejeite oportunidades. Na verdade, até nasceu, mas não tem prosperado. As regras do jogo são assim, frouxas; definidas por parlamentares que se beneficiam da frouxidão. A moral consiste em jogar o jogo. Então, Ratinho foi jogo jogado. Quem quiser, e puder, que altere regras e endureça penas. O sistema o fará? Provavelmente não.

Mais complexo é discutir a personalidade política do ex-presidente, compreendê-lo como a esfinge que tucanos não conseguem decifrar. Preferem desqualificá-lo; são devorados.

Lula é dos raros políticos importantes da história do Brasil que não destoam do Programa do Ratinho. Fernando Henrique e José Serra ficariam deslocados; constrangedor para quem assistisse. Dilma ou Alckmin não segurariam um bloco sequer. Não está em suas almas. Lula, já no documentário de João Moreira Salles, Entreatos (2004), demarca sua posição de conforto: é popular.

Foi assim no governo: ofereceu cachaça a Putin; interagiu com Bush; churrasco, futebol, festa junina no Torto. Para Obama, era "o cara". Messiânico, dizia pela voz do jingle da campanha de Dilma: "Deixo em suas mãos o meu povo". Debutou ex-presidente com imagens eloquentes: na sacada, de chinelos, bermudão e camiseta - acordara tarde, lera os jornais e almoçara arroz, feijão e pastéis, preparados por dona Marisa. Símbolo e recado: culturalmente, é político da e para a "classe C"; não renunciaria à política nacional.

Nenhum demérito em ser popular. Não significa, porém, simploriedade nem ausência de estratégia. A vivacidade consiste em fazer da comunicação sua força, da popularidade sua defesa e sua arma. No sufoco do mensalão, sinalizou nos palanques que não o apeariam facilmente do cargo. Um eventual impeachment não seria outro passeio juvenil. A oposição se recolheu e o resto é história.

Em 2008, diante da crise, foi à TV, pediu ao trabalhador que acreditasse e comprasse; estimulou o consumo, causou euforia - e evidente espanto aos formadores de opinião. Mais uma vez ficou claro quem, de fato, detinha o condão da comunicação.

São Borja. Admita-se, mais que a transgressão, o que indignou alguns foi vê-lo à vontade, exercendo o dom natural e inconteste. Sabe-se, ou desconfia-se, que fará diferença na campanha - ainda que, talvez, não a vença. No mais, quem o acreditava acuado, após as desavenças com Mendes, percebeu, ali, ao lado de Ratinho, que acuá-lo não será tarefa simples, como não será fácil nem pacífico o julgamento político do mensalão. O Lula convalescente, alquebrado, de voz mais rouca e musculatura tênue, é ainda o gigante vivo que interage com a massa. Ainda não foi "São Borja" - Ratinho não é Samuel Wainer. Mas, o "eu voltarei", à moda de Vargas, ficou no ar. Tangenciar o "queremismo", mesmo sem querer, fragiliza Dilma. Lembraria Marx: "Da primeira vez, terminou em tragédia".

Enfim, Lula está no jogo, de 2012 e 2014. Fernando Haddad tem carecido de imersão popular, banho de povo; Lula escolheu o Programa do Ratinho para batizá-lo nas águas daquele seu Jordão. Para 2014, mirando o Bandeirantes, acerca-se, desde já, de Marinho, seu dileto. Se a doença não o impedir, será, mais uma vez, a figura central das eleições, candidato a presidente ou não. Se realmente quiser, Dilma irá novamente às urnas. Mas, obviamente, e como sempre, as circunstâncias serão soberanas; sobretudo, a economia. De todo modo, não o fará sem as graças e a bênção de Lula. Foi assim em 2010.

Configura-se um aiatolá? Talvez. É fato que paira sobre partidos e aliados. Naturalmente, não é bom, para país algum, que sua principal liderança popular desenvolva tamanha autonomia. Mas, sejamos justos, os problemas se dão em virtude de Lula ou, antes, surgem justamente da fragilidade da política que se faz, do vazio que se estabeleceu, e da não renovação de lideranças; da discussão rasa desse Fla-Flu nacional e dessa cultura política patriarcal? À parte disso, o que o Programa do Ratinho mostrou é que Lula não está morto. Está tão vivo quanto sempre esteve. CARLOS MELO É CIENTISTA POLÍTICO , E PROFESSOR DO INSPER

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