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À espera do meteoro: o mundo precisa do cinema catástrofe?

O ‘cinema catástrofe’ estetiza o aniquilamento em massa e busca beleza no horror, oferecendo à plateia uma espécie de gratificação primitiva

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2016 | 06h00

 

Sérgio Augusto

O crítico de cinema da revista The New Yorker, o britânico Anthony Lane, imaginou um encontro de líderes de cinco potências mundiais no verão de 2017 reunindo em torno da chanceler alemã Angela Merkel as figuras do russo Vladimir Putin, do americano Donald Trump, do inglês Boris Johnson e da francesa Marine Le Pen. A pilhéria, inserida na abertura de seu comentário sobre o filme Independence Day: O Ressurgimento, não perdeu a validade nem depois que Trump despencou nas pesquisas, no início da semana, e o igualmente burlesco Johnson, mestre-sala do Brexit, retirou sua candidatura a primeiro-ministro. O quadro continua, sem exagero, esmorecedor.

Os britânicos ainda não superaram a perplexidade (ampliada por sua patética eliminação da Eurocopa pela seleção da Islândia, composta de amadores e treinada por um dentista) e a União Europeia não tem ideia de como lidar com a questão dos refugiados, o terrorismo, a crise econômica, o surto nacionalista, o tropismo protecionista, o avanço da extrema-direita xenófoba e o buraco a ser deixado pelo Reino Unido.

Como a situação no lado de cá do planeta também não é das mais animadoras (até para um ex-conselheiro de Bill Clinton, republicanos e democratas escolheram seus piores candidatos para a corrida presidencial deste ano), um filme de desastre como este segundo Independence Day não chega em boa hora ao circuito internacional.

Seu lançamento, obrigatoriamente às vésperas do feriado de 4 de julho, celebração de outro revés histórico do Reino Unido, talvez o maior de todos, coincidiu com a votação do Brexit e uma epidêmica malversação da palavra “independência”, invocada ad nauseam pelos defensores da saída britânica da UE e pelo adversário de Hillary Clinton nas eleições de novembro, não porque tencionassem promover o escatológico épico de Roland Emmerich, em que a Terra, como no blockbuster anterior, quase não sobrevive a uma nova invasão por extraterrenos, mas por pura demagogia. O Reino Unido nunca foi uma colônia do continente europeu e a América libertou-se, oficialmente, da coroa britânica há exatos 240 anos.

À sua imaginária reunião de cúpula Lane acrescentou outra boutade, no caso, uma advertência: as inscrições para se fixar residência na Estação Espacial Internacional, em órbita a mais de 300 km da Terra, já teriam sido encerradas. Fugir daqui para um ponto da galáxia, supostamente mais tranquilo e civilizável, é uma fantasia dos humanos tão ou mais antiga que a crença na existência de vida inteligente em outro(s) planeta(s) e a desconfiança de que a humanidade será um dia varrida do Sistema Solar pelo impacto de um asteroide ou pela explosão de uma supernova, pelas consequências de uma barbeiragem nuclear ou de uma guerra bacteriológica – para não mencionar os efeitos catastróficos atribuídos ao modo irresponsável como tratamos o meio ambiente. A hipótese de uma invasão por seres intergalácticos não tem lastro científico, só literário (pelo menos desde o final do século 19, quando H.G. Wells publicou A Guerra dos Mundos) e cinematográfico. “Onde estão eles?”, vivia a cobrar o físico Enrico Fermi, irresoluto defensor da tese de que somos a única civilização inteligente do universo observável. Se não deram sinal de vida até hoje, é porque não existem ou, se existem, não se interessam pela gente nem pelo que nosso planeta lhes tem a oferecer.

Onde existem, ou seja, no imaginário, exclusivamente, raras vezes vêm em missão de paz até aqui. E quando isso acontece, os terráqueos costumam se comportar de forma lamentável, com a arrogância típica das mentes inferiores. Klaatu, o humanoide ET de O Dia em que a Terra Parou, foi recebido a bala em Washington, embora tenha vindo para apenas nos dar uma lição de moral e convivência pacífica. Os adventícios siderais de Independence Day pertencem a outra vertente, descendem direto dos belicosos marcianos de A Guerra dos Mundos – e, como aqueles e outros epígonos, perdem, para nosso alívio, a grande batalha final.

Meio século atrás, Susan Sontag escreveu um ensaio sobre o doentio encantamento que filmes de ficção científica exercem sobre uma camada de espectadores, em especial sobre os adolescentes, a que deu o título de “A imaginação do desastre”. Sempre me lembro dele quando vejo ou leio referências a hecatombes cinematográficas como Godzilla, 2012, O Dia Depois de Amanhã – todas dirigidas por Emmerich, cuja obsessão pela apocalíptica destruição dos mais conhecidos cartões postais da Terra talvez só Freud explique –, e até o reli quando soube que a procura, nas videolocadoras, por filmes em que Nova York é atacada ou destruída aumentara consideravelmente depois dos atentados de 11 de Setembro.

Para Sontag, a verdadeira substância dos filmes de ficção científica não é a ciência, mas a catástrofe, daí o rótulo mais apropriado de “disaster movies”. Fonte de uma “mitologia popular para a imaginação negativa contemporânea” (cada vez mais negativa, diga-se), espetáculos como Independence Day estetizam o aniquilamento, buscam e sublinham “as belezas peculiares” das catástrofes, das explosões e dos escombros (agora com imagens digitalizadas e tridimensionais), oferecendo à plateia gratificações primitivas e uma catártica sublimação do medo, do horror, da solidariedade coletiva e dos problemas que podem de fato causar a destruição de cidades, países e continentes.

No primeiro Independence Day, pioneiro blockbuster beneficiado pela computação gráfica, pela estamina de Will Smith (ausente do segundo) e alguns diálogos espertos, os invasores destruíam várias capitais americanas, diversos cartões postais, inclusive a Casa Branca, que desta vez foi poupada. China, Dubai e Londres são os principais alvos da segunda invasão. Sugada por uma nave-mãe descomunal, Beijing é jogada em cima de Londres sem pompa nem circunstância, reduzindo a capital britânica a um “deserto do real”, para usar a expressão celebrizada pelo Morpheus de Matrix e refogada teoricamente pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek, um excêntrico estudioso do cinema de catástrofe.

Ainda irão insinuar que Emmerich vingou-se antecipadamente da soberba asneira cometida pelos brexistas castigando a pérfida Albion sem dó nem piedade. E deixando a plateia em dúvida sobre se vale a pena se esfalfar para salvar o mundo atual de uma agressão externa.

 

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