A esqualidez do luxo

Corpos são negativamente cevados na dieta da fome para se ajustar à gratuidade do esteticismo da alta costura

José de Souza Martins*,

25 de janeiro de 2010 | 17h55

Para os antigos gordura era bom, e o nosso Jeca Tatu só se tornou saudável quando ficou roliço

 

O retorno da celeuma sobre a esqualidez das modelos nos desfiles de moda é uma útil investida crítica sobre o que a sociedade da ostentação e do consumo vem fazendo com o corpo humano, especialmente o corpo da mulher. O que, em livro referencial e clássico, Gilda de Mello e Souza chamou de espírito das roupas desdobra-se hoje e até se degrada num conjunto de manipulações da indumentária como recurso para definir identidades sociais de uma parte da sociedade cada vez mais insatisfeita com sua aparência e sua apresentação pessoal. A moda é passageira. No caso da roupa, mais passageira ainda, submetida ao tempo e ao ritmo da indústria muito mais do que ao da criatividade dos estilistas, que a eles se adaptam.

 

A moda é indício de uma necessidade social própria da modernidade que é a de mudar os adereços das identidades para ser novo e diferente numa sociedade massificada em que é próprio ser igual e repetitivo. Ela é um recurso contra a desidentificação e também contra o definitivo no falso novo que se anuncia todos os anos em monumentais desfiles de apresentação de tecidos e trajes; que propõem, àquela humanidade que pode e tem os meios, caras e corpos esculpidos como peças de museu de arte. Um recurso de busca da eternidade na transformação do temporário em monumental.

 

Esse é um mundo fascinante, sobretudo se visto de seus extremos e dos lugares mais improváveis de sua ocorrência. Um desses extremos é o da moda eclesiástica, de que em Roma se pode ver várias lojas, com vitrinas largas, padres e freiras, mais elas do que eles, contemplando atentamente as novidades das vestes litúrgicas que, pela função ritual, supostamente não contêm inovações. No entanto, no que parece ser a mesma veste desde séculos, há finos e delicados ornamentos que sofrem pequenas mudanças estéticas para expressar algo que não muda nem pode mudar. Uma necessidade cultural mais de estilo do que de moda. Com a diferença de que é moda que se ajusta ao corpo e não corpo que se ajusta à moda. Outro extremo é o da massa desprovida de meios à qual a moda chega tardia e residualmente, aquela parte da população que pode se dar ao luxo de andar fora de moda, os que se satisfazem com o que já é insatisfação dos outros.

 

Juntamente com a maquiagem, a moda acaba expressando um crescente desapreço pelo próprio corpo na busca de sempre nova identidade. É verdade que o que se vê nos desfiles de moda rarissimamente se vê nas ruas e mesmo nas cerimônias de grande ostentação social. Portanto, uma insatisfação atendida muito mais pelo anúncio do novo do que por sua concretização. Nas cerimônias e recepções de que tive oportunidade de participar, por dever de ofício, em diferentes países, nunca vi ninguém trajado na moda dos desfiles. Nem mesmo num encontro com os reis da Espanha, com os quais conversei numa recepção nas Nações Unidas, em Genebra. A rainha estava vestida de maneira simples, mais preocupada em fazer perguntas sobre problemas que nos afligem a todos do que com o seu traje.

 

Até porque trajar as roupas dos desfiles de moda imporia dificuldades de locomoção fora da passarela, não só pelo descabido em cenários que tendem à uniformidade como também pelo impacto visual no entendimento das pessoas comuns. Foi, aliás, o que ocorreu com o arquiteto e artista plástico Flávio de Carvalho, em 1956, ao desfilar no centro de São Paulo com o seu Traje de Verão, o público aparentemente dividido entre vaiar e agredir aquele estranho homem que trajava um saiote.

 

Isso não tira mérito nem beleza das criativas inovações nos desfiles de moda e nas proposições imaginárias neles implícitas. Mas o detalhe que deve ser considerado criticamente é a crescente e descabida esqualidez das modelos. Sem desconhecer os comprometimentos de saúde já apontados por diferentes especialistas, há que considerar o aspecto sociologicamente mais problemático na ideologia subjacente à relação entre a moda e o corpo. Examinando várias das fotografias de modelos em performances destes dias, tive a impressão de que a moda entrou em guerra com o corpo e se embrenhou no caminho fatal de definir como ideal e belo o corpo desencarnado, transformado em mera armadura de roupas deslumbrantes. Um cabide que anda.

 

Trata-se de uma exacerbação da concepção de luxo em conflito com a materialidade do corpo que, por isso mesmo, precisa ser não só adestrado, mas negativamente cevado na dieta da fome para se ajustar à gratuidade do esteticismo da alta costura. Num país como o nosso, governado por um regime que é derivação da ideologia do Fome Zero, a contradição se torna incômoda em face do ideal político de saturar de alimentos os famintos, supostos e reais, e engordar os magros. O que ganha sentido na nossa cultura popular mais antiga e rústica da gordura como sinal de saúde. Os antigos, com alguma razão, entendiam que magreza era doença e temiam como enfermidade a falta de apetite. Era o tempo do Jeca Tatu, que se tornou são quando ficou roliço. A captura do corpo pelas concepções dos desfiles de moda inverte nosso imaginário alimentar sem nos educar nem melhorar nossa qualidade de vida.

 

A moda, mesmo não chegando às ruas, se dissemina aos poucos e, não raro, com atraso nas outras classes sociais que não a dos abonados que frequentam os desfiles de moda e consomem suas criações. O ideal de beleza e elegância foi subjugado pela servidão da fome e por aí se espalha. Aquela esqualidez das modelos sutilmente se difunde através da entrada da moda em linha de produção, como fonte de imitativa aspiração de beleza coletiva. Multidões, hoje em dia, submetem-se seja à disciplina dos exercícios industrializados seja à indústria das dietas alimentares para ajustar o próprio corpo ao ideal de beleza das passarelas. Ideal que ao mudar anualmente, renova ciclicamente as bases imaginárias da rejeição do próprio corpo em nome do corpo alheio. Como acontecia com Alice, do outro lado do espelho, de Lewis Carroll: quanto mais caminhava mais longe ficava do destino.

 

*Professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Entre outros livros, autor de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

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