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A estética da destruição de Hitler e sua ressonância hoje

Frustração por não ser um bom pintor e ser desaprovado pela Academia de Belas-Artes de Viena pode explicar seu ressentimento, que se expressa no terror

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

25 Agosto 2018 | 16h00

Em menos de três dias, um brasileiro de sobrenome germânico sugeriu, nas redes sociais, uma queima de livros em praça pública; refugiados venezuelanos foram agredidos e tiveram seus parcos pertences incendiados por habitantes de Pacaraima (Roraima); e uma cambada de viúvos e viúvas de Adolf Hitler (“Não nos arrependemos de nada”) desfilou em Berlim, sob proteção da polícia.

E ainda há quem relativize ou mesmo negue a montante de um estilo nazista de hostilizar e agredir. Aqui, lá e acolá.

Em maio fez 85 anos que os berlinenses encenaram a sua queima de livros (Bücherverbrennung), o auto de fé alemão, o Fahrenheit 451 hitlerista, incinerando obras de autores judeus e comunistas; em novembro, teremos outra data sinistra: os 80 anos da Noite dos Cristais, quando os mais violentos celerados do Terceiro Reich invadiram, quebraram e incendiaram lojas dos judeus de Berlim, onde, diga-se, os judeus eram infinitamente mais numerosos, nos anos 1930, do que os refugiados venezuelanos em Pacaraima, na semana passada.

Como não rotular de nazistas ou fascistas em potencial os Torquemadas e baderneiros daqui? Os saudosistas alemães são neonazis assumidos, até bigodinho à Hitler e jaqueta de couro à Gestapo eles usam. 

A conjunção “ou”, no parágrafo anterior, foi proposital. Muita gente ignora que o nazismo foi um plágio ou filhote do fascismo; daí a expressão neonazifascismo, uma das palavras mais “alemãs” de nossa língua – no comprimento e, ça va sans dire, no conteúdo. 

Mais grave, gravíssimo, mesmo, é ignorar, como centenas de tolos vivem a demonstrar, no Facebook e no Twitter, que o socialismo espertamente apensado ao registro do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães foi um engana-trouxa para confundir os trabalhadores alemães ligados ao Partido Comunista e atrai-los para o redil nazista. 

Os nazistas nunca foram socialistas. Eram anticomunistas, anticapitalistas (pro forma), antissemitas e pangermanistas. O engodo eleitoreiro deu certo, como sabemos e lamentamos até hoje. Aliás, continua dando certo junto aos jejunos em história contemporânea, que não se envergonham de disseminar besteira na internet.

E pensar que a história poderia ter tomado rumo diverso se a Academia de Belas-Artes de Viena não tivesse reprovado o ingresso de Adolf Hitler. Duas vezes. Seguidas. Em 1907 e 1908. Custava a Academia de Belas Artes ter baixado um pouco seu nível de exigência? Pagamos caro pelo seu rigor seletivo. O mais notório cabo do exército bávaro, na 1ª. Guerra Mundial, queria ser pintor, tinha alma de artista, não de soldado. Ressentimentos, leituras perniciosas e más companhias fizeram dele um arruaceiro de cervejaria, um monstro em botão. 

Essa tese já passou pela cabeça de alguns historiadores da cultura sob o nazismo, como Jonathan Petropoulos (The Faustian Bargain), George Mosse (autor de Nazi Culture) e Peter Viereck (Metapolitics), e ganhou um reforço de peso com o ensaio de Frederic Spotts sobre o Führer e o poder da estética, Hitler and the Power of Aesthetics (Overlook, 456 páginas). 

O livro é, grosso modo, uma biografia de Hitler a partir de suas obsessões artísticas (a música de Wagner, a pintura romântica do século 19, as arquiteturas grega e neoclássica) e como essas preferências e seus princípios estéticos, de resto compartilhados por Goebbels, Alfred Rosenberg, Baldur von Schirach, Albert Speer e outros próceres do partido, levaram aos atos criminosos do nazismo.

Um dos trunfos de Hitler foi acreditar que o controle da cultura era tão importante quanto o controle da economia. Seu gosto retrógrado em arte, seu fascínio pela pompa e a monumentalidade, suas idealizações de pureza, violência e forma humana estenderam-se muito além da estatuária kitsch e das pinturas acadêmicas favorecidas no Terceiro Reich, forjaram seu estilo de governar e mesmerizar multidões. 

Coreógrafo detalhista de sua próprio glorificação, Hitler cuidava pessoalmente de todos os detalhes da parafernália e das encenações nazistas. O estudo de Spotts não deixa dúvida de que o Führer foi uma espécie de Busby Berkeley do mal, o verdadeiro autor intelectual de O Triunfo da Vontade, o infamado documentário de Leni Riefenstahl sobre o 6º. Congresso do Partido Nazista, em Nuremberg, em 1934, o mais admirado e execrado modelo de filme de propaganda de todos os tempos. 

Marco da “estética da redenção”, fundamental à lavagem cerebral operada pela cultura nazista, o agit prop de Riefenstahl começa com a descida messiânica de Hitler em Nuremberg, vindo do céu para redimir a Alemanha das humilhações sofridas desde o fim da 1ª. Guerra. Referências a Cristo e sua cruz explicitam as demagógicas e perversas intenções do filme. É um dos melhores capítulos de Hitler and the Power of Aesthetics.

Do mesmo padrão é a parte que aborda o reacionarismo estético e o racismo do Führer, cujo épice foi aquela mostra de 1937 sobre (e contra) o que o pintor ditador considerava o suprassumo da “arte degenerada” : os expressionistas e demais modernos, como Chagall, Kandinski, Klee, Grosz, expostos ao ridículo e em vão contrapostos aos escultores do Realismo Nacional Socialista. Alguém se lembra das naziesculturas de Arno Breker e Josef Thorak? 

O conceito de “arte degenerada” fora regurgitado pela primeira vez em 1892, pelo líder sionista Max Nordau. Um sionista envenenando a cabeça do antissemita número um do planeta, quem diria. Para Nordau, os pintores impressionistas eram geneticamente corrompidos, débeis mentais, com desordens no sistema nervoso e na retina – e, por serem “inimigos da sociedade, vermes antissociais”, deveriam mofar numa prisão ou num hospício. 

Hitler repetiria a perniciosa ladainha, quase ipsis litteris, 45 anos mais tarde. Com a vantagem de ter plenos poderes para pôr em prática as recomendações de Nordau.

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