A estranha insistência em viver um ritual hétero

Depois do foguetório dos parceiros, agruras da vida a dois e o veto social

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2008 | 21h37

A Califórnia está desfrutando de um mini-mini-miniboom econômico, graças aos milhares de casais gays que foram registrar suas uniões, aproveitando a decisão favorável da Suprema Corte Estadual. Felicidades, corte o bolo e, agora, sério, faça o favor de levar o saco de lixo lá fora. E quem esqueceu de pagar a conta da TV a cabo, o sinal acabou de ser cortado? Eu vou ter que levar nosso filho vietnamita adotado à festa de aniversário da filha daquela jararaca? O.k., você já teve que ser juiz do jogo de futebol do jardim de infância, na semana passada. É justo. Tudo bem, eu tinha um encontro com o editor que pensa em publicar meu primeiro romance, mas isso pode esperar.Bem-vindos ao casamento.Consultado pela última revista de domingo do New York Times, o plantonista casmurro da vida intelectual americana Gore Vidal, que viveu mais de 50 anos com o mesmo companheiro (não havia problemas porque "não havia sexo"), revelou seu grau de mobilização sobre o assunto. O senhor apóia o casamento gay? "Não sei nada sobre isso. Não sigo isso." Por que não lhe interessa? "Pela mesma razão que o casamento heterossexual não me interessa."É importante separar a luta pelo direito de registrar a união entre adultos do mesmo sexo de um movimento social alternativo. Abra a página da sessão dominical Styles do New York Times e depare-se com registros de casamentos gays tão kitsch e convencionais quanto os heterossexuais.Muito mudou desde que, há 15 anos, vi a filha pré-adolescente de uma conhecida correr para esconder os porta-retratos na sala antes de suas amigas chegarem. As fotos exibiam a mãe e a companheira, recém-casadas numa festa sem direito a cerimônia civil. Enquanto admirava a independência da mãe, sentia o fardo sobre a criança que, não só tinha acabado de perder a companhia constante do pai, como era obrigada a ouvir piadas na escola e enfrentar uma mudança que adultos a sua volta ainda rejeitavam e ela não tinha recursos para articular. É preciso ter passado algum tempo nos Estados Unidos, em convívio com pessoas de diferentes classes e origens, para se ter uma medida da importância do casamento de papel passado como instrumento de legitimização. Na cultura protestante o contrato social tem um peso que uma cucaracha, acostumada a chamar de marido e mulher os amigos vivendo juntos, demorou a entender.Há mais do que aceitação da realidade da vida homossexual na batalha pelo registro das uniões. Há questões financeiras, como herança e transferência de benefícios trabalhistas, e médicas. Uma amiga que vivia em paz com seu segundo parceiro bem mais velho enfrentou o pânico de vê-lo numa emergência médica ao ser impedida de assumir as decisões sobre o tratamento, enquanto ele estava inconsciente. Os dois saíram da UTI direto para o cartório e ele morreu, pouco tempo depois, sem a indignidade dos tubos que apenas fariam disparar os lucros do hospital.Preocupações como essa são argumentos claros pelo reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Há o problema do timing: é uma questão que pode paralisar não só o debate como a campanha presidencial. Em 2004, houve quem lamentasse, mesmo na comunidade gay, a insistência em manter essa bandeira no palanque da disputa entre John Kerry e George W. Se você não acredita no poder da resistência religiosa a questões como o aborto, na maioria americana ensanduichada entre a Califórnia e Nova York, tenho uma ponte novinha no Brooklyn para lhe vender.O casamento gay não tinha sido alçado ao palanque de John McCain e Barack Obama. Este apóia a independência dos Estados para reconhecer as uniões, mas, se sair declarando em horário nobre que é a favor do casamento gay, bye bye, Casa Branca. McCain é um federalista du jour e poderia, por puro oportunismo, apoiar a idéia de uma patética emenda constitucional proposta por Bush, reconhecendo como casamento apenas a união entre um homem e uma mulher. Imagine a delícia da mídia sensacionalista consumindo horas preciosas de debates que podem decidir a eleição, saboreando todo tipo de pergunta sobre a vida privada. Quem quer arriscar audiência com esse papo hermético de migração de empregos, quando se pode manter o eleitor transfixado discutindo sodomia? A Flórida, a quem devemos o atual ocupante da Casa Branca, tem uma grande população religiosa e republicana, e o partido de McCain está apenas esquentando os motores para faturar esse presente ideológico que recebeu. Eu sei, eu sei, não devemos fazer o jogo do outro lado e promover a política do medo. Mas imagino também o preço de oito anos de Dick Cheney.Por que os europeus não estão marchando nas ruas pelo casamento gay? Aqui vai uma explicação possível: porque a família, em vários países da Europa, já é uma unidade que evoluiu da família tradicional. E não deve surpreender o fato de que os chamados "Estados vermelhos" (conservadores) dos Estados Unidos registram muito mais divórcios do que os Estados azuis (liberais), enquanto, na Escandinávia, onde o índice de coabitação sem papel passado é cada vez maior, as crianças têm mais chances de ser criadas por dois adultos do que em várias regiões americanas. Se eu fosse uma mulher lésbica de classe média, se tivesse uma filha com a minha companheira e estivesse à mercê da decadente escola pública, desempregada e impedida de pagar US$ 800 pelo seguro saúde, evitando fazer mamogramas, e meu irmão tivesse perdido as duas pernas depois de três rotações de serviço no Iraque, e meu cunhado tivesse pago o preço de se chamar Ahmed em sessões de tortura em Guantánamo, e meu tio tivesse sua vida destruída por uma confusão de identidade permitida pelo Ato Patriótico, vejamos - qual seria a minha ordem de prioridade em 2008 para brigar pelo direito de assinar o registro de casamento? Não posso responder, não vivo na pele dessa personagem, mas isso não me impede de imaginar seu dilema. A lista de problemas acima não tem nada a ver com identidade sexual. Mas a lista de problemas acima depende do voto da maioria para caminhar para uma solução.Por algum motivo, há uma blague sinistra rondando minha memória: a operação foi um sucesso, mas o paciente morreu.

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