A face da nova geração

Na pessoa de Obama, os recém-chegados à história e os que estavam cansados de esperar encontraram sua identidade

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2008 | 17h41

A significativa vitória do Partido Democrata, apoiada no desempenho eleitoral de Barack Obama, repõe no cenário político americano e no cenário político internacional a mística das grandes mudanças inspiradas no novo e difuso humanismo desta era pós-Guerra Fria, pós-socialista, a era das dissoluções de velhas linhas demarcatórias herdadas do mal resolvido século 20. Ainda não sabemos se a popularidade eleitoral de Obama se traduzirá em carisma que o tornará o que os historiadores de outro tempo definiam como epônimos, homens que dão nome a uma época. Sua circunstância o leva nessa direção. Essa vitória repõe a questão das funções históricas da revolução cíclica das gerações, porque não resultou de mera peleja entre democratas e republicanos. Hillary Clinton representava a alternativa pendular. Na pessoa de Obama, as novas gerações, os recém-chegados à cena da história, os que estão cansados de esperar, encontraram sua identidade e a alternativa. A cada tanto tempo, uma geração já não compreende a língua, a mentalidade, os propósitos e os desacertos da geração anterior. Ousa, tenta mudanças, abre caminhos, inventa saídas, dá cor ao mundo cinzento do repetitivo. Desde o fim da 2ª Guerra Mundial, a América e o mundo vêm tentando escapar das armadilhas políticas criadas no século 19, na difícil realização dos valores e direitos proclamados pela Revolução Francesa, ainda mal resolvidos nas primeiras décadas do século 20. Armadilhas condensadas na polarização perversa que se expressou na Guerra Fria. Prisioneiro dessa polarização, o mundo ocidental vem dando passos para libertar-se desse passado, criando um mundo novo em que os ideais de justiça social, democracia e liberdade se tornem realidades. Senhores e patrões de conflito esquizofrênico, Estados Unidos e União Soviética patinaram ao longo das décadas, negando nos conflitos que promoviam a visão de mundo que proclamavam. Barack Obama, na América, está sendo chamado a personificar a esperança da superação histórica, a esperança de uma nova era, em que o mundo se torne o que poderia ser e tem condições de ser e não tem sido.Barack Obama representa uma outra América, a América que em silêncio, na corajosa obstinação da não-violência e dos movimentos sociais, teceu o belo rendilhado da esperança dos banidos do poder e dos privados dos direitos civis. A América que acompanhou com paciência o envelhecimento de uma concepção arrogante do homem, da vida e do mundo e construiu uma alternativa moral para a injusta prepotência própria do demasiado e indevido poder. Obama e sua esposa Michelle vêm da experiência social e política da militância no trabalho voluntário com os pobres e injustiçados. Foram socializados na cultura dos movimentos sociais, pela qual as novas gerações nos Estados Unidos, na Europa e em outras regiões e países educaram-se nos valores da generosidade, da partilha e da paz. Nesse sistema de valores puderam compreender o imenso abismo que nos separa das promessas das grandes revoluções que criaram o mundo moderno. Novas gerações que compreenderam a fraude política das dominações que anularam o século 20. O século 19 demorou-se na maquiagem das conflitividades que herdou. Envelheceu sem transformar, diluiu-se em conflitos pendentes, não raro gerados pela própria expansão capitalista, como o conflito racial e o conflito religioso. As doutrinas sociais e políticas revelaram-se pobres em face de uma realidade social pluralista, regida por outras dinâmicas, resistente a binarismos simplistas como o do capitalismo contra o feudalismo, das colônias contra as metrópoles, do proletariado contra a burguesia. Em cada uma dessas polarizações havia e há muito mais do que os rótulos podem dizer. É nesse grande cenário de mudanças que se pode compreender o que vem ocorrendo na América desde a libertação dos escravos e desde a Guerra Civil. A abertura do oeste americano à livre ocupação de colonos, com o Homestead Act, de 1862, a reforma agrária americana, com Lincoln no poder e a Secessão já em andamento, não produziu todos os seus efeitos modernizadores e emancipadores devido à resistência do escravismo sulista. A derrota do sul desencadeou mecanismos cruéis de recriação de desigualdades sociais com fundamento na raça, no limite a violência dos linchamentos, que se disseminaram e alcançaram não só negros, mas também judeus e imigrantes, sobretudo italianos. Foram as mulheres brancas das igrejas protestantes do sul que nos anos 1920 desencadearam o movimento social anti-racista, combatendo dentro de casa e denunciando publicamente o pretexto do estupro de mulheres brancas por homens negros para pendurar em árvores a estranha fruta de corpos negros balançando na brisa, da canção anti-racista escrita e musicada, em 1937, por Abel Meeropol, um professor judeu. Strange Fruit foi consagrada pela cantora negra Billie Holyday e se tornou um hino martelando a consciência dos americanos.A cultura em que foram educados Barack e Michelle Obama nasceu e se difundiu nas igrejas protestantes da América. Durante a campanha eleitoral, na visita altamente simbólica que Barack Obama fez à Igreja Batista Ebenezer, de Atlanta, em que Martin Luther King Jr. foi pastor, o candidato democrata proferiu um discurso pautado pela mística da esperança, a dos humilhados e ofendidos. A fala de Obama tem sido e o foi novamente no discurso da vitória na madrugada do dia 5 de novembro, um extraordinário e competente retorno da política ao filtro da oratória protestante, de fundo bíblico. Nas manifestações de regozijo por sua vitória, aliás, foi possível ver inúmeras manifestações mais religiosas do que partidárias. De certo modo, a revolta das gerações já havia eleito Kennedy, que, porém, foi capturado pela poderosa máquina de um Estado governado mais pelo mercado do que pelo povo, mais pela guerra do que pela paz. Resta saber se Obama, no poder, terá como personificar as esperanças que reavivou e o sonho que sonhou. *José de Souza Martins é professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros títulos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

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