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A face humana de Cristo por um Nobel de literatura

'O Filho do Homem', clássico de François Mauriac, volta em edição especial no exato momento em que outro livro sobre o tema, 'Soif' (Sede), de Amélie Nothomb, é lançado na França

Gilles Lapouge , O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2019 | 16h00

François Mauriac é um romancista e, se consagrou um livro a Jesus Cristo, em 1936, não entrou na discussão de questões teológicas. Não escreveu nada para satisfazer os filósofos, os casuístas ou os doutores da lei. Ali vamos descobrir o retrato e a figura sublime e dilacerada de um homem que é o filho de Deus, certamente, mas nasceu num país quente e rico em desertos, um país da Ásia, num vilarejo chamado Nazaré num dado momento do tempo, quando Augusto reinava em Roma. E morreu em Jerusalém, à época de Tibério. Um homem como você e eu. Mas nada rico. Não frequentou escolas. Ajudava o pai na sua oficina de carpinteiro. Mais tarde, vai para a Galiléia. Tem fome e sede, é um homem triste, mas repleto de esperança, ama as pessoas, mas em alguns momentos se enerva, é tomado pela cólera. É uma pessoa terna, e também violenta. Recrimina os ricos, os pensadores, os doutores, os hipócritas, os mercadores do Tempo, em Jerusalém. Quando caminha por um longo tempo com seu grupo, ele se cansa, fica esgotado.


Um homem banal, extraordinário. E tem uma mania: insiste em afirmar que é filho de Deus e que veio à Terra para salvar os homens. Age como se conhecesse o futuro, e os profetas, que são abundantes nessa época em Israel e estão por todo lado, não sabem o que fazer. Felizmente os doutores da Lei estão despertos. Esse sujeito que nem mesmo estudou, que fala de Deus como se fosse seu Pai e que faz milagres o tempo todo, tem de ser calado. Ele é visto com maus olhos. E sabe que acabará sendo condenado e executado, mas se obstina. É corajoso e tem uma missão a cumprir. Sabe que não está seguro. Tudo está pronto para o drama, para a morte e para as afrontas. As últimas noites são extremamente tristes.

Este é o homem-Deus cuja vida é relatada por François Mauriac em O Filho do Homem. Estamos em 1935 (um ano antes de o livro ser lançado, agora reeeditado no Brasil pela Nova Fronteira) e Mauriac está perto dos 50 anos. Este famoso escritor publicou livros magníficos e quase fúnebres numa linguagem belíssima, como Therese Desqueyroux. É admirado. Pertence à Academia Francesa. E de repente segue por caminhos escabrosos: a biografia de um Deus ou de um filho de Deus. É um desafio para um homem como Mauriac, que não compreende nada dos ditados da razão, da regra do terceiro excluído, das exegeses, dos paradoxos da metafísica, da dialética. O que ele conhece é a terra e suas brumas, e seus sóis, o odor da vinha e a bondade das uvas, os esplendores e a deterioração dos humanos. E dá certo porque Mauriac é um romancista, não um exegeta e Jesus Cristo e seu estranho Pai, e sua mãe, a Virgem, essa mulher, talvez prostituta, mas bela, abandonada e nobre, que é Madalena, todas essas pessoas, os discípulos, e Judas, que Mauriac não consegue compreender, todos são também personagens romanescos. Jesus é um grande romancista. Quando conversa com seus amigos à noite, sentado na borda de um poço antes de dormir sob as estrelas do céu da Judeia, ele não fala como esses sábios que saem da Politécnica ou das escolas de Jesuítas, mas se expressa como aquelas pessoas que o seguem e o amam, pecadores, desempregados, inocentes, pequenos funcionários, prostitutas, pessoas pérfidas. E se ele ilustra suas proposições com uma lembrança ou um conto, ele oferece histórias muito simples (portanto da grande literatura), muito familiares, com personagens que poderíamos encontrar na Betânia, no Jordão ou no Mar Morto. Às vezes um animal entra no conto, uma raposa, um cão, uma serpente. É tão belo como uma fábula de La Fontaine, acrescido de mistério e luz. E aí reside a proeza deste livro. Tratar no mesmo estilo duas figuras do mesmo homem: a do filho de um pobre carpinteiro e a do filho de Deus.

É difícil, mas Mauriac se sai muito bem. Conseguir uma osmose, uma fusão entre os dois Cristos é uma bela façanha literária. E de uma grande coragem porque, em 1936, quando o livro foi publicado, os teólogos, os exegetas, os sábios e as senhoras das obras de caridade partiram para o ataque. Quem é esse escritor iconoclasta? Ao que Mauriac respondeu : “Só creio naquilo que toco ou que vejo, naquilo que se incorpora à minha substância e é por isto que tenho fé em Cristo”.

O Messias de François Mauriac não é o Messias triunfante das pinturas do século 19 e que os Pais da Igreja nos mostram. É aquele que os discípulos de Emaús, os de Rembrandt, reconheceram num albergue: “nosso irmão coberto de sangue, nosso Deus”. Como outros criadores de uma religião (como Buda) ou alguns pensadores (Sócrates) Jesus jamais escreveu, o que às vezes deplorei há muitos anos, ao ler os Evangelhos apócrifos que não figuram no Novo Testamento. Aprecio muito esses textos. Têm frescor e são perfumados, às vezes surrealistas, iconoclastas e poéticos. Um deles conta uma história: Jesus estava com seus discípulos no deserto, a noite chegando. Jesus pegou um bastão. Traçou letras na areia. Os discípulos, boquiabertos, tentaram ler. Nesse momento o vento do deserto bateu e apagou as letras, as palavras. Que vento era esse? O Evangelho apócrifo não diz. Imagino que era o Santo Espírito, “vigilante”.

Ocorre que outro escritor (escritora) narrou também, 75 anos depois de Mauriac, a vida de Jesus. Trata-se de uma belga que escreve livros como um relógio toca as horas. A cada ano ela publica um romance em outubro. Li os primeiros (Higiene do Assassino, As Catilinárias). Fiquei deslumbrado. Depois fiquei mais habituado. Amélie é uma produtora de belos textos, que ocupa um lugar raro: só produz best-sellers – e eles são magníficos. Este último por exemplo. A 75 anos de distância, dois escritores narram a mesma história já escrita, aliás, por um outro, por Jesus Cristo. Amélie Nothomb, que não parece conhecer o livro de Mauriac, disse em uma entrevista: “Quando tinha dois anos e meio, meu pai me falou de Jesus. O que foi um choque terrível para mim e eu me disse que Jesus era o herói da minha vida. Tudo o tornava uma figura única. Sua maneira de falar, um milagre de eloquência. Sua maneira de falar o torna alguém excepcional”.

Dois anos e meio e já compreendeu o belo mistério. Por outro lado os estilos de Mauriac e de Amélie são muito diferentes. Mauriac libera os grandes órgãos, as frases belas e musicais, o grande estilo. Amélie permanece fiel à sua maneira: palavras curtas, quase milimétricas, elegantes e nuas, mas de uma eficácia sem falhas. Muitas vezes curiosas. Eles têm outro ponto em comum. Ambos se reconhecem incapazes de resolver o enigma Jesus Cristo. Fazem o retrato de um homem, filho de Deus, um homem de carne e osso, que tem fome e tem sede, que ama, que sofre, e que ama a alegria.

O início de Soif (Sede) é magnífico pela ironia, o que é um dos charmes de Amélie, e de uma grande violência. É preciso dizer que é Jesus que fala. Pôncio Pilatos e os juízes se excederam. Tiveram a ideia de intimar 38 pessoas que foram beneficiadas por um milagre de Jesus. Um festival de hipocrisia, bobagens e infâmia. As noivas de Canaã dizem: “Este homem tem o poder de transformar a água em vinho. No entanto, ele esperou o fim das bodas para exercer seu dom. E teve prazer com a nossa angústia e nossa humilhação (...) por causa dele servimos o melhor vinho antes do médio. Fomos motivo de riso no vilarejo”. O ex-endemoinado de Cafarnaum declarou que “minha vida se tornou uma banalidade depois do exorcismo”. O cego que passou a enxergar queixou-se da feiúra do mundo. O velho leproso declarou que ninguém mais lhe deu esmola. Lázaro explicou como é odioso viver com esse cheiro de cadáver colado na pele.

Assim prossegue a narrativa que Jesus faz do final da sua vida. À medida que o fim se aproxima, o tom do livro muda. Jesus está tão infeliz e sentindo-se tão abandonado que a ironia o abandonou. E seu corpo tem medo. Neste ponto encontramos a grande “celebração” do corpo por Amélie. A importância da carne pelos prazeres que proporciona, pelas dores que ela abriga. A dose de horror, brilhantemente elaborada, durante a noite, e o escuro atroz dessa última noite, é generosa (e mesmo para meu gosto, um pouco demais). Mas graças a Jesus que certamente foi um grande filósofo (mas um poeta melhor, em minha opinião) temos o direito a longos trechos de filosofia, mas belos, apesar de gostar mais do romance do que da filosofia.

/ Tradução de Terezinha Martino

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