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'A Família Medeiros' mostra ideais abolicionistas de Júlia Lopes de Almeida

Redescoberta, escritora carioca foi vetada da Academia Brasileira de Letras

Giovana Proença, Especial para o Estadão

05 de março de 2022 | 16h00

Santa Genoveva, cenário de A Família Medeiros, figura todos os sítios paulistas do final do século 19. É o que escreve Júlia Lopes de Almeida, autora do romance, publicado originalmente em 1891. O nome de Júlia constava na lista inicial de membros da Academia Brasileira de Letras (ABL). Contudo, a determinação em seguir os moldes da Academia Francesa, que excluía a participação feminina, retirou a escritora do rol de imortais. Esse caso literário sintetiza o apagamento histórico dispensado a uma importante figuras cultural brasileira na transição para o século 20. 

A reedição primorosa de A Família Medeiros pela Carambaia, marca o resgate do legado de Júlia Lopes de Almeida. Há décadas fora de catálogo, o enredo é impulsionado pelo retorno de Otávio à fazenda Santa Genoveva, após uma temporada na Europa. Central para a obra, o cenário agrário paulista abriga a trama repleta de desenlaces amorosos, intrigas e segredos familiares. O gênio literário de Júlia levou o escritor Aluísio Azevedo a considerá-la a Charlotte Brontë brasileira. 

O jovem Otávio chega da Alemanha com ideais progressistas, que acompanham a tendência abolicionista e republicana que tomou parte da inteligência brasileira nos últimos ares do século 19. O romance retrata a decadência de modelos aristocráticos, arraigados na exploração escravocrata e nas velhas oligarquias, que acontece em paralelo com a ascensão das cidades brasileiras. O declínio de antigas configurações econômicas e as transformações sociais retornam à ficção de Júlia uma década mais tarde com A Falência (1901). 

A chegada de Otávio é permeada, assim, pela dualidade. Há o reconhecimento – afinal, ele cresceu em Santa Genoveva. Entretanto, há também estranhamento. O jovem, testemunha da modernidade europeia, vê com críticas os atrasos de seu próprio país. Otávio representa a cisão entre a antiga elite cafeicultora e os novos homens brasileiros, encantados pelas convicções de progresso que rondam o fim do século 19 e o princípio do século 20. 

Apesar do protagonismo de Otávio, outra personagem rouba a cena. Eva, sobrinha do comendador Medeiros, passa a residir em Santa Genoveva após tornar-se órfã. Em torno dela, gravita uma história de assassinato, que aterroriza o tio. Assim como Otávio, ela acena com simpatia aos ideais abolicionistas. As ideias precursoras e a aproximação com a emancipação feminina a tornam alvo de intrigas e armações, que culminam em uma insurreição de escravos a favor da liberdade. O vanguardismo da Eva de Júlia Lopes de Almeida lembra, desse modo, a primazia da Eva bíblica – e também a sua transgressão. 

As ideias pioneiras dos dois jovens entram em conflito com o comendador Medeiros, pai de Otávio, e chefe da família. Defensor convicto do sistema escravocrata e representante típico da elite cafeicultora paulista, ele vê como ameaça os novos princípios abolicionistas. Todavia, após a abolição, o comendador abandona a afinidade com a monarquia e vira republicano, em minuciosa expressão do espírito do Brasil fin-de- siècle. O conflito geracional, causado pelo irrompimento da modernidade, em tensão com instituições arraigadas, faz A Família Medeiros ecoar Pais e Filhos (1862), do russo Ivan Turgueniev. A essência das fazendas oligárquicas paulistas é captada com acurada descrição, próxima do realismo francês.

Historicamente apagada em meio aos seus contemporâneos masculinos, como Machado de Assis e Aluísio Azevedo, Júlia Lopes de Almeida foi expoente do realismo, tendo escolhido como panorama de sua obra o Brasil rural em decadência. A autora, abolicionista, retrata os males da escravidão, a complexidade de relações sociais resultantes do sistema oligárquico, e as insurreições do país em ebulição. 

A reedição de A Família Medeiros, primeiro romance escrito pela autora – embora o segundo a ser publicado – faz parte da recuperação do legado da escritora, relegado há quase um século de ostracismo. Retrato da transição do século 19 ao 20, o romance capta a tensão brasileira entre tradição e progresso. Considerada a maior representante da literatura feminina de sua geração, com A Família Medeiros olha criticamente para o próprio tempo histórico.

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