A fênix americana

EUA saem da crise melhor que Europa, Japão e China, diz um de seus mais influentes intelectuais

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2009 | 23h07

A seleção dos temas que deveriam ter a mais alta prioridade na pauta das preocupações com o bem-estar e os direitos humanos é, naturalmente, matéria subjetiva. Algumas opções parecem, no entanto, inevitáveis, porque dizem respeito muito diretamente à possibilidade de uma sobrevivência decente. Três delas são, com certeza, a guerra nuclear, a catástrofe ambiental e o fato de o governo da maior potência mundial agir de modo a aumentar a probabilidade de tais catástrofes." Eis o ponto de partida de Estados Fracassados, livro do linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky lançado esta semana pela editora Bertrand Brasil. Desde que a obra saiu nos EUA, em 2006, o país mergulhou em uma das mais graves crises econômicas de sua história e elegeu Barack Obama presidente. Entretanto, o diagnóstico do autor de 80 anos, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e "talvez a voz mais amplamente ouvida em todo o planeta em assuntos de política internacional", na definição do The New York Times Book Review, continua na ordem do dia em um mundo ameaçado pelo desemprego, terrorismo e aquecimento global. Descendente de judeus russos imigrados para os EUA, Noam Avram Chomsky nasceu na Filadélfia, Pensilvânia, em 1928, filho de "liberais do New Deal", como costuma dizer. Seus pais, de fato, sentiram na pele as aflições do crash da bolsa de Nova York em 29 e o alívio proporcionado pelas políticas sociais do presidente Franklin Delano Roosevelt, inspiradas nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes. Em 1945, Chomsky iniciou estudos de linguística e filosofia na Universidade da Pensilvânia. No início da década de 50 já era pesquisador em Harvard e publicou, em 1957, Estruturas Sintáticas - trabalho no qual sustenta a existência de uma gramática universal do ser humano, que revolucionou os estudos da linguagem. Na efervescência dos anos 60, a notoriedade acadêmica de Chomsky passou a servir de palco para difusão de sua visão política - fortemente crítica à Guerra do Vietnã e à política externa dos EUA. De lá para cá, percorreu uma notável trajetória de pensador da contracultura e crítico de toda forma de poder - do comunismo soviético ao liberalismo norte-americano das grandes corporações, ambos opressores da liberdade do indivíduo, em sua opinião. "O fascismo foi derrubado, o bolchevismo foi derrubado e o corporativismo também pode ser", disse Chomsky certa vez, perguntado sobre sua ideologia, tachada por muitos de anarquista. Igualmente contundente é seu diagnóstico sobre os meios de comunicação de massa no mundo contemporâneo. Certa ocasião, chegou a afirmar que "qualquer ditador ficaria admirado com a uniformidade e a obediência da mídia norte-americana" - um statement interessante, ainda que paradoxal em relação à repercussão que o linguista tem na imprensa de seu país há quatro décadas. Seu livro Human Rights and Foreign Policy, lançado em 1978, foi um êxito de vendas e tornou-se referência nos meios políticos de esquerda. Com O Lucro ou as Pessoas? - Neoliberalismo e Ordem Global, libelo antiglobalização, e 11 de Setembro, coletânea de entrevistas concedidas após o atentado contra as Torres Gêmeas, Chomsky assumia de vez o posto de primeiro guru dos militantes altermundialistas.Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade para o Aliás, de sua casa nos EUA, Noam Chomsky volta à tona após um período de recolhimento pela morte, no final de dezembro, da mulher, a também linguista e professora de Harvard Carol Schatz, com quem teve dois filhos. Na conversa, o pensador avalia que os EUA emergirão da catástrofe econômica em posição melhor que a Europa, o Japão e mesmo a China. Diz que a única superpotência mundial apresenta uma série de características peculiares ao que chama de "Estados fracassados" - como um sistema de saúde "cujo custo é o dobro do dos outros países industrializados e apresenta alguns dos piores resultados". E afirma, a respeito do debate sobre a nacionalização de bancos e empresas americanos, que "a socialização dos custos e dos riscos, com a privatização dos lucros, é uma característica básica da economia capitalista". ESTADOS FRACASSADOS "Os EUA não são um ?Estado fracassado? como os que descrevo em meu livro, mas apresentam certas características deles. O sistema de saúde americano é há muito tempo um desastre, e a razão disso é bastante clara: a privatização e o enorme poder da indústria farmacêutica, o que eleva enormemente os preços e preduz resultados piores em termos de saúde. Fala-se em proteção ao cidadão americano, mas ela não é uma prioridade no país. E a ameaça terrorista de hoje foi criada em grande parte por Reagan, depois significativamente intensificada por Clinton e particularmente por Bush.A GUERRA FRIA DE SEMPRE"Imediatamente após a queda do Muro de Berlim, o governo Bush pai divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional e um orçamento militar que dizia essencialmente que tudo continuaria como antes, com novos pretextos. Devemos manter a mesma estrutura militar gigantesca, mas não porque ?os russos estão chegando? - e sim por causa da ?sofisticação tecnológica das potências do Terceiro Mundo?. Em suma, para os EUA, a Guerra Fria foi em grande parte uma guerra contra a independência do Terceiro Mundo (assim como, para os russos, uma guerra para o controle de seus países satélites no Leste Europeu). Ou seja, a tarefa americana continua a mesma, embora as táticas mudem de acordo com as circunstâncias.UMA CRISE DO CAPITALISMO?"Grande parte da economia que se diz capitalista depende profundamente de um setor estatal dinâmico no que se refere à inovação, ao desenvolvimento e outras formas de socialização de riscos e custos. As raízes da crise atual foram plantadas na década de 70, com o fracasso do sistema de Bretton Woods, no pós-guerra, com a financeirização da economia e a movimentação contra qualquer regulamentação, baseadas em dogmas quase religiosos a respeito da ?eficiência dos mercados?. Isso intensificou as já conhecidas ineficiências inerentes ao mercado. Transações não levaram em conta as consequências. No caso das grandes financeiras, isso levou a um grave menosprezo pelos riscos - e o risco sistêmico foi ignorado. Desde o fim do sistema de Bretton Woods houve repetidas crises financeiras, mas elas se deram em países pobres (e portanto não importavam, na verdade ofereciam às corporações americanas uma chance de adquirir valiosos ativos a preços baixos). A crise atual é importante porque afeta os ricos e os poderosos e é muito difícil de estancar. Ninguém conhece a profundidade da crise. E ninguém que conheça história econômica se surpreenderá com o fato de que as medidas que estão sendo tomadas pelos ricos para resolver o problema de suas próprias crises são o oposto das ditadas aos pobres quando estes enfrentavam uma crise.O SÓLIDO DESMANCHA NO AR"A decisão do governo de permitir que o Lehman Brothers entrasse em colapso foi um duro golpe para o combalido sistema financeiro. O Citigroup é um caso interessante. Seu predecessor, o Citibank, recebeu uma polpuda ajuda do governo Reagan (por meio do Fundo Monetário Internacional, FMI, e do ajuste estrutural na América Latina, fundamentalmente). O secretário do Tesouro de Clinton, Robert Rubin, chefiou a iniciativa bem-sucedida que revogou a legislação do New Deal, que protegia os bancos comerciais de estabelecer vínculos arriscados com bancos de investimentos e seguradoras. Então, ele deixou o governo e se tornou diretor do Citigroup, que se beneficiou consideravelmente dessas medidas (assim como o próprio Rubin). Quando elas levaram ao colapso do Citigroup, Rubin demitiu-se do cargo, levando consigo seus ganhos... e tornou-se um dos principais assessores econômicos de Obama! O Citigroup agora foi nacionalizado (menos nas palavras), mas o objetivo é recuperá-lo, depois que o público pagar os custos. Além disso, está se livrando das operações arriscadas que lhe foram acrescentadas durante a iniciativa legislativa de Rubin. A AIG beneficia-se da apólice de seguro do governo denominada ?grande demais para falir? - que proporciona às instituições financeiras americanas significativas vantagens competitivas. Se é trágico ou irônico? Depende do ponto de vista. À parte a escala, nada disso deve causar grande surpresa.SOCIALIZAÇÃO DA QUEBRADEIRA"Vamos deixar as ilusões de lado. A socialização dos custos e dos riscos, com a privatização dos lucros, é uma característica básica da economia capitalista. Tomemos como exemplo os computadores e a internet. Ambos foram desenvolvidos e utilizados substancialmente pelo setor estatal durante décadas antes de serem postos ao alcance do poder privado para produzir lucro. Isso é geral. Portanto, não há nada de novo na socialização da crise. Operações de ajuda são muito comuns, não apenas no sistema financeiro, mas também no industrial. As novidades de hoje se devem apenas à escala do desastre. A alternativa a uma política que faz o público subsidiar os ricos e poderosos seria a democratização da sociedade e da economia. Mas isso exigiria uma ampla compreensão do público e um ativismo que hoje é escassamente visível no mundo.QUE ESTADO MÍNIMO?"Mais uma vez, é preciso deixar ilusões de lado. O Estado americano parece ?mínimo? somente se desconsiderarmos sua presença crucial e massiça na economia. Ele é ?mínimo?, sem dúvida, nos serviços que presta à população em geral, mas não em seu cuidado solícito para com os ricos e poderosos. Vejamos Ronald Reagan, sumo sacerdote do livre mercado. Ele foi o presidente mais protecionista da história americana do pós-guerra. Reagan convocou o Pentágono para ensinar aos administradores do país os modernos métodos de produção de estilo japonês. E empreendeu uma das maiores operações de ajuda da história econômica americana (Continental Illinois); suas extravagantes políticas econômicas prepararam o terreno para uma ajuda ainda mais maciça (associações de poupança e empréstimos), imediatamente depois que o vice-presidente Bush assumiu o cargo.DÉFICIT DEMOCRÁTICO DOS EUA"Afirma-se que um Estado com instituições democráticas formais tem ?déficit democrático? na medida em que essas instituições deixam de funcionar. O público americano acha que esse déficit é imenso, e é fácil perceber por quê. Ambos os partidos políticos estão à direita do público em inúmeras questões internas e internacionais, que discuto em Estados Fracassados. Na literatura das ciências políticas tradicionais foi mostrado que a opinião pública é frequentemente coerente em questões importantes e coerente no tempo, mas substancialmente diferente, em questões de política pública. Uma das principais preocupações da população há muito tempo é o sistema de saúde, cujo custo é o dobro do dos outros países industrializados e apresenta alguns dos piores resultados. Há décadas, uma ampla maioria prefere um sistema de saúde estatal, mas nas eleições de 2004 a imprensa o descrevia como ?politicamente impossível? porque a ele se opunham as seguradoras e as indústrias farmacêuticas. Em 2008, os candidatos democratas apresentaram propostas que pelo menos começam a se aproximar do que o público prefere. Por quê? A opinião pública não mudou. O que aconteceu é que parte da indústria está sofrendo com o incompetente e ineficiente sistema privatizado e pede reformas. Portanto, agora a vontade do público começa a ser ?politicamente possível?, com ?apoio político? para prosperar.DEPOIS DA TEMPESTADE"A catástrofe econômica mundial tem raízes nos EUA, mas o país provavelmente sairá dela em posição melhor do que seus principais rivais industrializados, Europa e Japão. Quanto à China, que experimentou rápido crescimento, é ainda mais fraca do que os EUA em todo e qualquer parâmetro realista, tem enormes problemas internos que o Ocidente não tem. Uma indicação nesse sentido é sua classificação no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU: ela ocupa o 88º lugar, e poderia ser pior se a sociedade fosse mais aberta para que pudéssemos conhecê-la melhor. Também tem enormes problemas ecológicos. É verdade que suas reservas financeiras são imensas, mas a maioria atrelada ao sistema financeiro americano. Se a China reduzir significativamente seus ativos nos EUA, destruirá seu principal mercado de exportação. Além do que, grande parte de sua indústria, particularmente no campo da alta tecnologia, é de capital estrangeiro. A hegemonia está sempre em risco, mas não existe um concorrente forte para os EUA no futuro previsível, a não ser que a Europa decida seguir curso independente, talvez da maneira sugerida por De Gaulle. Entretanto, não há indicações disso."

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