Leonhard Foeger/Reuters
Leonhard Foeger/Reuters

'A Flauta Mágica', um circo no Festival de Salzburgo

Uso da estética circense pela diretora americana Lydia Steier foge ao clichê e renova a ópera com ator Klaus Maria Brandauer

Anthony Tommasini, The New York Times

18 Agosto 2018 | 16h00

A diretora americana Lydia Steier tinha nove anos quando o filme The Princess Bride (A Princesa Prometida) foi lançada. Ela presta uma homenagem a esse famoso filme de Rob Reiner em sua encantadora e enigmática produção de A Flauta Mágica, de Mozart, no Festival de Salzburgo (que será apresentada ainda nos dias 24 e 30 deste mês de agosto). No filme, um avô lê uma história para o neto viciado em videogame, que no início resiste a ouvir o conto de aventura e romance, mas depois fica totalmente concentrado. Steier tomou emprestada a técnica de narrativa de inserir uma história dentro de outra para encenar a ópera.

Nela, o avô, que inicialmente vemos num jantar com sua próspera família em uma casa que aparenta estar situada em Viena antes da 1ª. Guerra Mundial, lê a história da Flauta Mágica para os três netos. A narrativa envolvente do avô, escrita por Steier e a dramaturga Ina Karr, é modernizada a partir do diálogo falado da ópera, normalmente o mais complicado elemento de qualquer produção. E o ator Klaus Maria Brandauer no papel do avô é comovente.

No palco de vários níveis vemos cartazes de circos colados nas paredes do quarto e dos armários das crianças repletos de soldadinhos de chumbo. À medida que o avô narra a história, as crianças imaginam que ela acontece em sua casa com as pessoas que fazem parte da sua vida transformadas em personagens. Três empregadas taciturnas se tornam as Três Damas que servem a Rainha da Noite. A petulante mãe dos garotos se transforma na ameaçadora Rainha (a brilhante soprano Albina Shagimuratova). Um divertido empregado da casa se torna o Papageno (o baixo-barítono Adam Plachteka).

A adorável filha mais velha da família aparece na história como uma Pamina emocionalmente perturbada (papel da soprano Christiane Karg). Um dos soldados de chumbo se transforma no príncipe Tamino (o jovem e ardente tenor Mauro Peter), que irrompe na sala por uma janela, fugindo dos jatos de fogo que saem das mandíbulas do feroz monstro da história. Naturalmente, os meninos (interpretados por membros do Meninos Cantores de Viena) se tornam os Três Garotos de Mozart, os espíritos que aparecem nos momentos cruciais na ópera para guiar os personagens em suas aventuras espirituais e românticas.

A produção de Lydia Steier é profunda e enigmática. Sarastro, o sacerdote do templo da sabedoria, aqui se torna um poderoso mágico que dirige um circo fantástico com dançarinos em roupas bizarras, saltimbancos, acrobatas com pernas de pau e cabeças de bonecos, cerca de 30 extras ao todo, como também um grande coro. Ultimamente as metáforas de circos têm aparecido com freqüência em produções operísticas. Mas o uso deste imaginário por Steier é bem motivado, uma vez que os meninos o vivem diariamente, e é poderoso, fazendo alusão às forças globais antes da 1ª. Guerra Mundial, quando a velha ordem estava se desintegrando.

Sarastro (o aclamado barítono Matthias Goerne, cantando num tom de baixo que pareceu não adequado à sua voz) e sua trupe são como marginais da sociedade que não conseguem entender o que está ocorrendo. Eles não são inocentes, a produção sugere. Quando os habitantes os mais díspares desse reino cantam os coros de Mozart proclamando a irmandade, por um momento eles parecem ter insights da problemática humana. Você deseja que façam alguma coisa.

O regente da orquestra, Constantinos Carydis, faz uma leitura convincente da partitura familiar de Mozart, às vezes escolhendo tempos muito rápidos, outras estendendo as passagens sublimes da música. Mas os músicos da grande Orquestra Filarmônica de Viena responderam a cada demanda com entusiasmo, tocando sem nenhum esforço.

Lydia Steier às vezes confunde o cenário com excesso de excentricidades carnavalescas. Mas a produção é uma interpretação profundamente pessoal de uma peça original sem passar dos limites e impondo a leitura que ela fez dela.

A Dama de Espadas. O enfoque mais ideológico é o departamento de Hans Neunfels, afirmam os críticos há anos, falando do diretor vanguardista, hoje com 77 anos. Certamente vi algumas produções de Neuenfels, incluindo sua estréia em Salzburgo em 2000, com a ópera Così Fan Tutte, repleta de couros e condutas sexuais fetichistas. A experiência levou a soprano Karita Mattila a se queixar em uma entrevista, dizendo que se sentia como um “cachorro espancado” depois de cada apresentação. Mas a nova encenação de Neuenfels de Pique Dame (A Dama de Espadas), de Tchaikovski, mostrou um diretor convincente no seu elemento.

Em uma conversa com Yvonne Gebauer, dramaturga da produção, Neuenfels faz alguns comentários sobre porque o personagem principal, Herman, um oficial sem recursos, que passa seu tempo em casas de apostas sem na verdade apostar. Herman está frustrado com a imprevisibilidade da aposta, onde ele talvez conseguisse vencer se conseguisse jogar com o sistema. Essa chance aparece quando ouve da velha Condessa (a Rainha de Espadas da ópera) que ela acha que possui a fórmula vitoriosa: o segredo das três cartas.

Herman é quase salvo ao se apaixonar por Liza, uma jovem da nobreza noiva do belo e honrado Príncipe Yeletsky. Amor envolve uma escolha verdadeira entre duas pessoas: nada é aleatório quanto a isto. Mas a obsessão de Herman vence, o que leva a desafortunada Liza ao suicídio e Herman para a mesa de apostas onde, tendo lutado para obter o segredo da Condessa, ele vence e ganha muito, depois perde tudo e se mata.

Utilizando cenários e costumes austeros, de certo modo abstratos que misturam toques realistas e surreais, a produção explora as emoções obscuras da ópera. Neuenfels extrai desempenhos arrebatadores de um elenco vigoroso. O tenor Brandon Jovanovich dá uma força vocal heróica e uma intensidade atormentada a Herman, A mistura de coloridos e vulnerabilidade na interpretação da soprano Evgenia Muraveva é o ideal para Liza. Ela é uma jogadora também, no aspecto de que rejeita uma vida segura com um adorável príncipe para dar uma chance à paixão por um desesperado Herman, o que é uma péssima aposta. O barítono Igor Golovatenko interpreta um Yeletsky nobre. A famosa mezzo-soprano Hanna Schwartz, aos 74 anos, ainda canta com ímpeto dramático no papel da Condessa.

Como de hábito, as inclinações interpretativas de Neuenfels aparecem muito na maneira como ele reúne os grupos de pessoas durante os episódios com o coro. Na cena de abertura, alguns meninos estão em gaiolas como animais domésticos, até surgirem em uniformes prateados e perucas. Estão sendo preparados para se tornarem soldados. O som da Filarmônica de Viena é glorioso sob a condução dinâmica de Mariss Jansons. /Tradução de Terezinha Martino

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