A folia da novidade contra o esperado

Foi a entrada do povo, a partir dos folguedos de 1928, que trouxe ousadia e luxo ao colonizado e elitizado carnaval brasileiro

Olga Rodrigues von Simson, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2010 | 23h18

O Brasil é mundialmente conhecido como o país do carnaval tanto devido à diversidade de folguedos que seu povo é capaz de criar, como pela beleza e grandiosidade que tais festejos ganham em nossa terra. Mas, nem sempre foi assim. Até meados do século XIX os dias que antecediam a Quaresma eram comemorados de forma bem simplória e pouco agradável, através das brincadeiras do Entrudo, aqui introduzidas por nossos colonizadores lusitanos.

Esse folgar, de origem medieval, consistia em jogar água perfumada e pós coloridos nos amigos que porventura viessem nos visitar ou em atirar líquidos e farinhas nos transeuntes, a partir das sacadas e janelas dos sobrados. Havia, entretanto, uma certa ordem hierárquica nessas brincadeiras. Só se arremessavam líquidos e pós naqueles que se situavam em posição igual ou inferior na escala social e os alvejados só poderiam revidar quando os agressores fossem seus iguais em termos da ordem social. Dessa forma eram os escravos os alvos preferenciais e, entre eles a mulher escrava, aquela que sempre era alvejada e praticamente nunca podia revidar os ataques sofridos.

Uma grande transformação ocorreu no Carnaval, ao final da década de 50 do século XIX, a partir da Capital do Império e de lá gradativamente se espalhou por outras cidades portuárias como Recife, Salvador, Porto Alegre. Essa transformação também atingiu o Vale do Paraíba, acompanhando o enriquecimento que a cultura cafeeira traria primeiro às cidades do vale fluminense e posteriormente àquelas do vale paulista, chegando à cidade São Paulo em meados da década de 80 desse mesmo século. Trata-se da importação pela nascente burguesia urbana de uma nova maneira de festejar Momo, copiada das ricas cidades portuárias da bacia do Mar Mediterrâneo que incorporava o luxo e a espetacularização dos desfiles de rua, como forma de ostentar o poderio econômico e político das classes mais elevadas.

Durante cerca de oitenta anos as camadas mais pobres das grandes cidades brasileiras tiveram que funcionar como público passivo dos préstitos luxuosos da burguesia endinheirada que nada criava de novo, apenas copiava o festejar europeu, de lá importando os temas, o desenho e a decoração dos carros alegóricos, as fantasias e até as aberturas das óperas de sucesso executadas pelas bandas de musica contratadas para animar tais desfiles em que a tradição e a cópia imperavam.

Mas essa longa espera dos grupos populares para adentrarem os desfiles de rua serviu para introjetar no povo a certeza de que, para ocupar a rua com seus folguedos em honra à Momo, e assim conseguir empurrar os burgueses para os salões dos teatros e dos clubes, eles teriam que usar toda a criatividade possível para, apesar dos parcos recursos nos anos iniciais, conseguir ostentar beleza e muito luxo em seu desfile carnavalesco.

Foi a vitória da ousadia e da criatividade que passamos a assistir a partir de 1928, primeiro na Praça Onze da antiga Capital Federal e depois gradativamente em todas as cidades médias e grandes do sudeste brasileiro. Luxo, ousadia, criatividade exacerbada e alegria incontida que o povo passou a expressar, tanto por poder festejar Momo nos mesmos moldes que seus senhores, como também por poder criar livremente na música, na dança, nas fantasias e adereços, tanto nos de mão como nos grandes carros alegóricos que, a semelhança dos de Nice, Veneza ou do Porto vieram enriquecer o nosso Tríduo de Momo.

Essa criatividade que é a marca o carnaval popular brasileiro, surgida através da junção de três vertentes culturais (lusitana, africana e indígena) magistralmente amalgamadas em nosso país, vem sendo constantemente renovada e enriquecida por nossa célebre tendência antropofágica que nos permite incorporar todas as influências que julgamos interessantes, não importando suas origens culturais ou procedências geográficas.

O desfile das escolas de samba de 2010 veio reforçar essa visão dos folguedos de Momo ao nos brindar com as belas, inesperadas e quase mágicas trocas de fantasia que o carnavalesco Paulo Barros introduziu na apresentação da Unidos da Tijuca. Esse experiente carnavalesco, cujos carros alegóricos já traziam em anos anteriores inovações interessantes, que entretanto não foram devidamente valorizadas e premiadas, não desistiu de inovar e persistindo na inclusão do inusitado no desfile foi capaz de conquistar, tanto jurados como espectadores na apresentação deste ano.

Louvo em suas criações a amálgama de tradição e inovação que nos traz além da beleza uma emoção diferente misturando magia e surpresa. Suas criações trazem nova vida ao desenrolar dos desfiles carnavalescos que se vêem, ano a ano, muitas vezes marcados pela repetição de temas e pela monotonia.

*Professora do Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Educação e Pesquisadora do Centro de Memória da Unicamp. Escreveu, entre outros, Carnaval em Branco e Negro e Carnaval Popular Paulistano. 1850-1988(Editora Unicamp/Imprensa Oficial).

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